{"id":948,"date":"2024-04-07T19:23:52","date_gmt":"2024-04-07T19:23:52","guid":{"rendered":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/?p=948"},"modified":"2024-04-11T14:45:18","modified_gmt":"2024-04-11T14:45:18","slug":"onde-os-mortos-vivem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/2024\/04\/07\/onde-os-mortos-vivem\/","title":{"rendered":"ONDE OS MORTOS VIVEM"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0Vi a minha falecida m\u00e3e pela \u00faltima vez durante as elei\u00e7\u00f5es de 2017. Tinham-se passado tr\u00eas ou quatro anos desde a sua fat\u00eddica morte. Acabava de sair da multid\u00e3o. Tendo por perto apenas a sua pr\u00f3pria sombra, estava numa das mesas a preencher o boletim de voto. A primeira reac\u00e7\u00e3o foi de um jovem do s\u00e9culo XXI. Fiquei assombrado com t\u00e3o inesperada presen\u00e7a!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0Recompus-me. Compreendi. Estavam todos ali pelo voto. Ali, os mortos; acol\u00e1, os inexistentes. Mais para frente, numa intermin\u00e1vel fila, ao norte de toda a l\u00f3gica, as r\u00e9plicas de Dina C\u00e1fila e Cal\u00edgula Narciso J\u00fanior acompanhados de gentes iguais a si. N\u00e3o havia hip\u00f3tese para Oposi\u00e7\u00e3o. Estavam em v\u00e1rias Assembleias de Voto ao mesmo tempo, projectando os mesmos gestos em prol da esmagadora vit\u00f3ria do Maiorit\u00e1rio. Inclusive a minha m\u00e3e, drenada por anos pelo sonho da Caixa Social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0Percebi na m\u00e3e um rosto f\u00fanebre. Meio fl\u00e1cido. Um rosto pr\u00f3prio de quem acabava de regressar dos mortos. Parecia pior que aquela m\u00e3e dos seus \u00faltimos dias. A vida da m\u00e3e ligada \u00e0s m\u00e1quinas num pa\u00eds onde a luz el\u00e9ctrica era ainda problema. Tive esperan\u00e7a. Voltei-me para a gaveta da mem\u00f3ria. Retirei a m\u00e3e duma fotografia que se colava como arte abstracta num Cart\u00e3o Eleitoral. Decididamente, n\u00e3o estava a\u00ed para me assombrar. O Sistema, regido por leis sobre-humanas, jogava com vivos e com mortos, para imortalizar o seu dom\u00ednio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 A m\u00e3e depositou o boletim de voto. Sem colar seu olhar sobre mim, partiu antes que os cal\u00e7ados tivessem deixado marcas na areia. Pensei nela ressuscitada cinco anos depois. Ao longo desses anos, mais do que qualquer militante da Oposi\u00e7\u00e3o, passei a desejar as Elei\u00e7\u00f5es Gerais como des\u00e9rtica l\u00edngua esperando por uma gota de \u00e1gua na eterna idade de uma \u00e2nsia. Dar a conhecer Orqu\u00eddea \u00e0 sua falecida av\u00f3 passou a ser o combust\u00edvel que conduzia meus intermin\u00e1veis dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 Transbordado o rio da espera, come\u00e7aram a nascer em mim alguns campos verdes que n\u00e3o tardaram a acinzentar. Sonhei em v\u00ea-la durante as elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas. Com rosto p\u00e1lido, vi meu desejo navegar num mar onde promessas amarradas em m\u00e1rmores gigantes submergiam em \u00e1guas mortas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 No dia seguinte, fui recuperar meu dinheiro no banco. Havia uma enchente perturbadora. Percebi depois a raz\u00e3o. Cheirava muita morte e bolsas maternas estouradas naquele lugar. Est\u00e1vamos todos a\u00ed. Os mortos, os vivos fedorentos de tanta espera e os que ainda n\u00e3o tinham nascido. Paulo Matumona era s\u00f3 mais um falecido na v\u00e9spera dos conflitos armados. Amarga e sangrenta curva de um 1992 que n\u00e3o deixou saudade, mas, volta e meia, voltava com a mesma fome e escassez, para nos mostrar que a rep\u00fablica era a Inerte Sombra do Tempo. Seu irm\u00e3o era Adriano Matumona, um general com muitas mortes vivas em m\u00e3os. Paulo estava a\u00ed comigo, incrivelmente morto, do meu lado esquerdo, na companhia de mais trinta, segundo ele, desconhecidos. Todos com liga\u00e7\u00f5es aos seus irm\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0Eram pessoas mortas. Algumas faziam parte do batalh\u00e3o que ele dirigia em Mavinga. Todos eles representados nas l\u00fagubres flores do t\u00famulo do soldado desconhecido. Agora ali, naquele instante, impedidos de permanecerem em suas mortes. Algu\u00e9m precisava dos seus nomes para alimentar seus v\u00edcios. Tinha-os vivos na caixa social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0No meu lado direito, um homem esquisito. Tinha rosto de velho, mas, para minha surpresa, falava como um beb\u00e9. Inicialmente, pensei que fosse doente mental, mas logo percebi que nele estava um inventado ex-combatente falecido pronto a levantar sua pens\u00e3o e uma crian\u00e7a por nascer j\u00e1 enquadrada no sistema militar com regalias de general. Trazia o cheiro de bolsa estoirada e sangue fresco. Futuro Matumona Desejo saltou das fagulhas do \u00faltimo sonho de sua m\u00e3e, que acabava de enterrar Nado Matumona. Descobriu, alertado pelo seu irm\u00e3o Nado, morto, mal tinha atravessado o rio da vida, que seu pai o tinha inventado como mais um general fantasma na caixa social. Nado tinha informado a Futuro, que Salvador Matumona, seu futuro pai, usava seus nomes para ganhar dinheiro e viver uma vida de aputaro, enquanto a m\u00e3e, amargurada, sofria em seu leito caseiro. Futuro estava ali para mostrar Osvaldo Saltamorte, o gerente envolvido em v\u00e1rios crimes de saque. Mestre em branqueamento de capitais. Mal a pol\u00edcia chegou, Saltamorte atirou-se do terceiro andar e j\u00e1 sabes o que aconteceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0Podes muito bem imaginar. Seu nome \u00e9 Saltamorte. Mais uma vez, provou-se que o homem era imortal. N\u00e3o morreu para o seu pr\u00f3prio azar e azar dos Matumonas que, ap\u00f3s o julgamento, inexplicavelmente remarcado para depois das pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es, responder\u00e3o em casa ou partir\u00e3o para Dubai. Ser\u00e3o castigados pela dram\u00e1tica aus\u00eancia das exposi\u00e7\u00f5es. Coitados, n\u00e3o poder\u00e3o mais ser filmados em orgias e assim exibirem a sua juventude. Quem n\u00e3o conhece os Matumonas das grandes festas?!Homens adultos que se relacionavam com desprotegidas adolescentes! Estavam amaldi\u00e7oados a fazer isso secretamente, embora o povo faminto n\u00e3o permitisse excessos nessa altura. O ambiente estava fedorento. Os mortos e os que estavam por nascer j\u00e1 tinham cumprido suas miss\u00f5es. Tive de voltar em casa sem nada nas m\u00e3os. A Ordem P\u00fablica transformara o banco em caos, embora j\u00e1 o fosse.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0Lembrei-me que tinha de passar na escola da minha filha. Mora naquela escola um caso bicudo. Um dos alunos, categ\u00f3rico, alegava que havia descoberto que o professor de Hist\u00f3ria de Angola j\u00e1 tinha morrido 1975, depois dos acordos de Alvor. O professor quase nada dizia na sala de aulas, sen\u00e3o da pr\u00f3pria vida antes da independ\u00eancia. Estava morto h\u00e1 muitos anos. O que restava ali era apenas sombra, mantida em p\u00e9 no sistema pelo director da escola e pelo Sistema que se julgava mudado. O director esquecera-se de atribuir nota administrativa a todos eles e eu tinha de ir policiar a minha filha, enquanto os malucos n\u00e3o chegavam: homens de azul, fortemente armados, repudiando crian\u00e7as com artilharia pesada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0Est\u00e1vamos em 2022. Meu cora\u00e7\u00e3o estava em festa. Finalmente, a minha filha ia conhecer sua falecida av\u00f3. S\u00f3 precisaria descobrir a Assembleia de Voto onde ela exerceria o direito de escolher seu l\u00edder. Reinava um clima de indecis\u00f5es. Por conta da crise, o partido da situa\u00e7\u00e3o asseverava que o contexto n\u00e3o era prop\u00edcio para a realiza\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es gerais. Sugeria o seu adiamento e a redefini\u00e7\u00e3o da constitui\u00e7\u00e3o. V\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es foram organizadas. Algumas n\u00e3o aconteciam. Administradores e manifestantes entendiam-se de milh\u00f5es. \u00c0 Comiss\u00e3o Nacional Eleitoral, uma estrutura supostamente independente, exigia-se o devido pronunciamento. Um pa\u00eds que foi gerado pelo caos aprende a valorizar a paz. Ainda que ela doa. A oposi\u00e7\u00e3o, mascarada de povo, saiu \u00e0 rua. Construiu barricadas. Dentre eles, estava eu questionando o passado, o presente e o futuro. Depois foi o que se viu\u2026<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vi a minha falecida m\u00e3e pela \u00faltima vez durante as elei\u00e7\u00f5es de 2017. Tinham-se passado tr\u00eas ou quatro anos desde a sua fat\u00eddica morte. Acabava de sair da multid\u00e3o. Tendo por perto apenas a sua pr\u00f3pria sombra, estava numa das mesas a preencher o boletim de voto. A primeira reac\u00e7\u00e3o foi de um jovem do s\u00e9culo XXI. 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