{"id":891,"date":"2024-03-30T21:38:31","date_gmt":"2024-03-30T21:38:31","guid":{"rendered":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/?p=891"},"modified":"2024-04-21T20:07:39","modified_gmt":"2024-04-21T20:07:39","slug":"editorial-ou-mais-um-manifesto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/2024\/03\/30\/editorial-ou-mais-um-manifesto\/","title":{"rendered":"EDITORIAL OU MAIS UM MANIFESTO?"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivemos numa era de decad\u00eancia total: \u00e9poca de crise alargada, em todos os sectores da vida humana. Importa-se-nos mais a crise econ\u00f3mica porque nos acostumamos a pensar com os intestinos. Dir-se-ia, em termos hier\u00e1rquicos, que \u00e9 a crise pol\u00edtica a mais gritante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, n\u00e3o se pode negar que o homem novo ter\u00e1 perdido em algum inobservado momento catacl\u00edsmico toda a sensibilidade e educa\u00e7\u00e3o. Diversas raz\u00f5es hist\u00f3rico-culturais justificariam o seu estado. No entanto, acreditamos que a inexist\u00eancia dum pensamento filos\u00f3fico africano, contempor\u00e2neo e aut\u00f3nomo que se adequasse \u00e0s circunst\u00e2ncias impostas pelos diferentes contextos socioculturais, ter\u00e1 comprometido todo um projecto de reorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-cultural ap\u00f3s o grande choque civilizacional. T\u00ednhamos de admitir que, em raz\u00e3o do longo processo de coloniza\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9ramos outros a seguir \u00e0s independ\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma palavra de extrema import\u00e2ncia e fundamental para a forma\u00e7\u00e3o do homem novo: FAM\u00cdLIA. Entendendo o seu conceito, evitar-se-ia um conjunto de situa\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis que hoje se revelam como o espelho de \u00c1frica, reflectindo as propostas de vida do homem novo. O homem novo \u00e9 tamb\u00e9m o africano que, em pleno s\u00e9culo XXI, ainda luta pela sua dignidade. E tendo tudo, quase nada faz para a sua afirma\u00e7\u00e3o num contexto global hoje ferido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem novo \u00e9 um homem bruto, \u00e9 arrogante, indisciplinado; a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9-lhe cong\u00e9nita. O homem novo \u00e9 pai, \u00e9 pol\u00edcia, \u00e9 professor, \u00e9 pol\u00edtico, \u00e9 m\u00e9dico, \u00e9 padre, \u00e9 pastor, \u00e9 angolano, \u00e9 africano; est\u00e1 em toda parte \u2013 \u00e9 cidad\u00e3o do mundo \u2013 desempenhando estes, e outros pap\u00e9is \u2013 sem \u00e9tica e moral. Logo, a grande crise mundial resume-se permanentemente na falta de princ\u00edpios \u00e9ticos e morais. Para n\u00f3s, tal crise consubstancia-se na escassez de modelos c\u00edvicos africanos, uma vez que todos os modelos civilizacionais ocidentais falharam. A moral \u00e9 a chave, mudaria os principais agentes de mudan\u00e7a e seria o garante da coes\u00e3o social. Estes \u2013 com os seus projectos de sociedades que geralmente decorrem de pleitos eleitorais \u2013 mudariam o mundo. Mas que moral, quando nem mesmo o \u00abCristianismo\u00bb foi eficiente?!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A decad\u00eancia \u00e9 geral. Esse mundo, \u00abhoje apartamento global\u00bb, parece estar em via de colis\u00e3o. Vivemos sob a amea\u00e7a das pot\u00eancias mundiais. Economias dependem das suas guerras cada vez mais frias e perigosas. O homem novo precisa surgir em todo o mundo. \u00c9 urgente que o resgatemos. Por\u00e9m, j\u00e1 que melhorias se nos afiguram como utopias, resta-nos sonhar. Apenas sonhar.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 algemas invis\u00edveis mais do que vis\u00edveis a atar-nos os bra\u00e7os. Por isso, partimos agrissurrealisticamente para algum lugar<strong>: um lugar de elei\u00e7\u00e3o, onde podemos sonhar acordados e exercitar, voandando livre mente, a liberdade que o ch\u00e3o nos n\u00e3o d\u00e1. N\u00e3o \u00e9 cobardia viver na lua quando se inventam paisagens para assuntos terrestres. <\/strong>No entanto, por mais dura que a realidade se nos afigure \u2013 essa decad\u00eancia n\u00e3o pode afectar a nossa arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A grande Literatura, sem afastar nenhuma categoria modal (l\u00edrica, narrativa e dram\u00e1tica), \u00e9 a arte da palavra transfigurada. Ela exige um certo trabalho e estudo. Por isso, nessa luta entre o est\u00e9tico e o utilit\u00e1rio, surgimos simultaneamente: por um lado, vanguardistas, porque apresentamos uma nova metalinguagem no sistema semi\u00f3tico liter\u00e1rio angolano; por outro, conservadores, porque estamos \u00e0 margem dessa proposta de marginaliza\u00e7\u00e3o da arte, apresentada pela nova vaga de super poetas-declamadores que demonstram uma clara despreocupa\u00e7\u00e3o com a dimens\u00e3o est\u00e9tico-liter\u00e1ria da coisa que quase partilhamos. Neste per\u00edodo de arte performativa, ali, s\u00e3o os declamadores que escrevem e publicam em livros \u2013 suporte que empobrece a arte por estes praticada \u2013 os seus textos quilom\u00e9tricos e demasiados denotativos; aqui, continuam a ser os poetas que escrevem os textos para declamar quando convier. A arte deve reunir o est\u00e9tico e o utilit\u00e1rio na medida certa. No entanto, n\u00e3o se pode negar que a primeira dimens\u00e3o da Literatura seja a est\u00e9tica. Fosse outra, n\u00e3o seria arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TUNDA VALA sai pela segunda vez \u00e0 rua com mais clarezas e certezas. A poesia ressurge com um rosto algo diferente e a agrisprosa surge pela primeira vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A nossa poesia \u00e9 a nossa poesia. A base \u00e9 surrealista, mas existe entre o simbolismo, o concretismo e o experimentalismo. \u00c9 a mesma agrispoesia da primeira edi\u00e7\u00e3o. Agora com o fen\u00f3meno da desfixa\u00e7\u00e3o (Mabanza Kambaca, 2017) ou desmembramento (Alfredo Kalala, 2017): t\u00e9cnica estil\u00edstica que consiste na separa\u00e7\u00e3o morfol\u00f3gica de radicais e de afixos que, isolados, conseguem se constituir como unidades sem\u00e2nticas plenas. Ex.: (Felizmente= feliz mente). Ela eleva o grau de ambiguidade, impondo ao leitor v\u00e1rias formas de leitura. A desfixa\u00e7\u00e3o ou desmembramento n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o estil\u00edstico-liter\u00e1ria nova em Angola. No entanto, ela atinge o seu auge e fundamenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica com o Movimento Litteragris. Por vezes, podemos assistir a uma radicaliza\u00e7\u00e3o da desfixa\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o do significado decorre do jogo semi\u00f3tico-fonol\u00f3gico dos significantes. Os afixos podem n\u00e3o se constituir como lexemas ou unidades sem\u00e2nticas plenas. A sem\u00e2ntica do seu conte\u00fado decorre da combina\u00e7\u00e3o de fonemas isolados, apresentando-se a combina\u00e7\u00e3o de sons de palavras diferentes como um factor de semiose. Partimos as palavras porque vivemos numa sociedade religiosa, pol\u00edtica e socialmente segregada. A desfixa\u00e7\u00e3o ou desmembramento reflecte um estado psicossocial colectivo, o nosso rep\u00fadio a todos os que n\u00e3o conseguem viver na diferen\u00e7a por via da palavra po\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A nossa prosa \u00e9 bela. Fant\u00e1stica. Surge da azia pelo vulgar. Tal como a poesia \u00e9 regida pelo princ\u00edpio ideoest\u00e9tico \u00abCabe\u00e7a na lua, p\u00e9s na terra\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Arte \u00e9 sin\u00f3nima de abstrac\u00e7\u00e3o desde a \u00e9poca Aristot\u00e9lica. Por qu\u00ea contar os factos tal como eles ocorrem e designar esses registos por Literatura <em>strictu sensu<\/em>? N\u00e3o estariam a roubar a fun\u00e7\u00e3o dos historiadores?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os manifestos s\u00e3o declara\u00e7\u00f5es colectivas escritas por individualidades do Movimento; os ensaios encerram uma dimens\u00e3o doutrin\u00e1ria; as cr\u00f3nicas s\u00e3o filos\u00f3ficas e floreadas, o materialismo filos\u00f3fico como proposta de interpreta\u00e7\u00e3o do fen\u00f3meno liter\u00e1rio cresce e surgir\u00e1 como um triunfo nas pr\u00f3ximas edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os pequenos homens apegar-se-\u00e3o \u00e0s coisas pequenas; os grandes apegar-se-\u00e3o \u00e0s grandes coisas. Gralhas n\u00e3o faltar\u00e3o. Elas podem decorrer dum lapso ou distrac\u00e7\u00e3o e, se denotar alguma incapacidade racional de nossa parte, podem acusar tamb\u00e9m os deuses que nos ensinam sobre viver. Porque o que somos \u00e9 uma for\u00e7a interior com alguma influ\u00eancia externa. Abra\u00e7\u00e1mos o autodidatismo e largamos as muletas. N\u00e3o julgues a nossa obra pela qualidade editorial ou pelo material imprenso. Vivemos tempos dif\u00edceis e de urg\u00eancias. O contexto justifica os meios. Apega-te ao conte\u00fado. \u00c9 enorme. Esta \u00e9 seguramente das colect\u00e2neas mais bem conseguidas, publicadas ap\u00f3s a independ\u00eancia. E n\u00e3o h\u00e1 v\u00edrgula mal posta que oblitere o seu conte\u00fado.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos numa era de decad\u00eancia total: \u00e9poca de crise alargada, em todos os sectores da vida humana. Importa-se-nos mais a crise econ\u00f3mica porque nos acostumamos a pensar com os intestinos. 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