{"id":1334,"date":"2024-04-29T22:11:13","date_gmt":"2024-04-29T22:11:13","guid":{"rendered":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/?p=1334"},"modified":"2024-04-29T22:21:55","modified_gmt":"2024-04-29T22:21:55","slug":"1334","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/2024\/04\/29\/1334\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias de uma Kuvale (de An\u00edbal Sim\u00f5es)"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A obra de An\u00edbal Sim\u00f5es \u00e9 um contributo para a cultura geral sobre o povo angolano, por meio dela \u00e9 poss\u00edvel viajar a um Namibe colonial e conhecer parte da cultura do povo kuvale, suas cren\u00e7as, valores e h\u00e1bitos que os constituem, al\u00e9m dos conflitos socio-culturais que enfrentam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A aprecia\u00e7\u00e3o desta obra ser\u00e1 uma breve viagem filos\u00f3fico-cultural na tentativa de consolidar as inquieta\u00e7\u00f5es contidas na seguinte quest\u00e3o: \u201c<em>At\u00e9 que ponto a cultura ou a mescla de culturas pode ser uma ben\u00e7\u00e3o ou maldi\u00e7\u00e3o para um povo, uma sociedade?\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentre os v\u00e1rios aspectos destacados ao longo da narrativa, existem alguns que por mais que fossem maquilhados n\u00e3o passariam despercebidos aos olhos dos leitores, a opress\u00e3o colonial como uma maneira de manipula\u00e7\u00e3o e controle das sociedades dominadas. Um elemento que \u00e9 bem recorrente aquando de uma coloniza\u00e7\u00e3o, para a desestabiliza\u00e7\u00e3o dos povos, tira-se-lhes a l\u00edngua e, al\u00e9m disso, ainda se adiciona uma cultura e ideologias totalmente opostas e contr\u00e1rias \u00e0quilo que sempre foram. Uma esp\u00e9cie de formata\u00e7\u00e3o e controle total das col\u00f3nias. O que se confere no seguinte excerto da p\u00e1gina 7:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\/Chamo-me Pepela, embora nos arquivos do Registro de Identifica\u00e7\u00e3o de Mo\u00e7\u00e2medes conste o nome de Maria da Concei\u00e7\u00e3o das Neves, nome atribu\u00eddo \u00e0 \u00faltima hora, por meu pai ao aspirar a que eu beneficiasse das prerrogativas do sistema colonial.\/<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar disso, o nacionalismo e a actitude de perten\u00e7a por parte dos personagens, faz-nos pensar que talvez <em>seja poss\u00edvel tirar o homem da cultura, mas n\u00e3o a cultura do homem<\/em>, j\u00e1 que ela impregna profundamente em seus genes sendo parte da sua informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica e ainda que se converta a uma nova cultura e ideologia, tra\u00e7os da cultura prima sempre ser\u00e3o encontrados mesmo que em vest\u00edgios quase invis\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mitos e cren\u00e7as diferentes fazem parte de cada cultura que os guiam e t\u00eam um papel muito importante em suas vidas. A cren\u00e7a do poder dos mais velhos para a tomada de decis\u00f5es e protec\u00e7\u00e3o das aldeias \u00e9 uma realidade que existe at\u00e9 aos dias de hoje ainda que as civiliza\u00e7\u00f5es estejam distribu\u00eddas de uma maneira diferente do que costumava ser. No caso dos kuvale, por exemplo, <em>o elao<\/em> (espa\u00e7o sagrado) e o <em>murilu<\/em> (o fogo) eram elementos fundamentais daquela cultura. Isso na p\u00e1gina 9.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O pequeno trecho na p\u00e1gina 10:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>\/Um dia&#8230; estava eu a ordenhar uma vaca&#8230; quando uma voz me chamou do el\u00e3o. Era o homem mais raramente visto, mas o mais presente nos meus pensamentos: meu pai.\/ <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Faz-nos pensar que a rela\u00e7\u00e3o pais-filhos na cultura bantu costumava ser limitada e restrita por uma quest\u00e3o de hierarquia e respeito. Hoje em dia, dependendo da posi\u00e7\u00e3o tomada pelos pais existe uma rela\u00e7\u00e3o mais ampla e social entre pais e filhos. N\u00e3o seria esse um ponto positivo que os povo bantu receberam do ocidente? Uma deslimita\u00e7\u00e3o dos relacionamentos afectivos permitindo que houvesse um maior desenvolvimento e uni\u00e3o nos lares?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A analogia do papel e vis\u00e3o da mulher nas diferentes culturas tamb\u00e9m \u00e9 um factor bastante pertinente e not\u00f3rio j\u00e1 que, por exemplo, a mulher bantu, tendo em conta a valoriza\u00e7\u00e3o cultural inicial, \u00e9 colocada numa esp\u00e9cie de barreira social tida como minoria e sem voz, reduzida aos seus afazeres como \u201cmulher dona de casa\u201d e respons\u00e1vel pela educa\u00e7\u00e3o dos filhos. A mulher actual, com fortes influ\u00eancias do Ocidente, est\u00e1 aqu\u00e9m do que foi, tendo a liberdade de express\u00e3o e decis\u00e3o, por meio das ideologias do movimento feminista e dos direitos humanos, a permiss\u00e3o para andar pela sociedade quase na mesma propor\u00e7\u00e3o que o homem, que por sinal, sempre teve seus direitos e privil\u00e9gios postos acima. A mulher de hoje \u00e9 parte integrante da sociedade e desempenha um papel mais amplo que n\u00e3o se resuma apenas ao ser bela, dona de casa e uma c\u00fapula de reprodu\u00e7\u00e3o sexual. \u00c9 importante aqui abrir um par\u00eanteses para frisar que tais costumes n\u00e3o se limitavam apenas \u00e0 cultura bantu ou africana, haviam, ou ainda h\u00e1, pa\u00edses ocidentais que trazem essa realidade como parte de suas culturas e cren\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O facto de, principalmente as mulheres, n\u00e3o terem poder de decis\u00e3o e escolha sobre as suas vidas era tamb\u00e9m uma causa de muitos conflitos sobre as tradi\u00e7\u00f5es e culturas dos povos, pois, inevitavelmente, sempre haver\u00e1 um revulucion\u00e1rio, algu\u00e9m que ir\u00e1 contra as ideologias daquilo que aprendeu, o que nos leva \u00e0 outra quest\u00e3o: <em>\u201cAo nascermos numa cultura, ela \u00e9 naturalmente nossa, como obriga\u00e7\u00e3o, direito e lealdade ou, como seres livres e racionais, temos a liberdade de escolher aquela que melhor adequa-se \u00e0s nossas ideologias e valores pessoais? (Isso, em \u00c9tica, sobre a consci\u00eancia moral)<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A prosperidade era mais importante do que o casamento na sua ess\u00eancia, passava a ter uma nova valoriza\u00e7\u00e3o. Sexualidade animal, sem intimidade e amor. Mero acto de reprodu\u00e7\u00e3o. Tornaria a cultura os homens ambiciosos e ego\u00edstas, sem emo\u00e7\u00f5es naturais ou capacidade de reflex\u00e3o pr\u00f3pria e individual? Deveria a\u00a0 cultura acima dos homens?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poderia-se considerar uma limita\u00e7\u00e3o no pensar? Quais seriam ent\u00e3o os par\u00e2metros para se determinar que uma cultura e valores est\u00e3o aqu\u00e9m daquilo que deveriam ser? E que suas ideologias s\u00e3o um factor limitante ou positivo para a evolu\u00e7\u00e3o das sociedades? Seria a tradi\u00e7\u00e3o um mal? Um peso? Uma pris\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A globaliza\u00e7\u00e3o actual permite que as culturas e povos estejam em constante contacto e interac\u00e7\u00e3o, diferentes etnias e mosaicos culturais que dan\u00e7am entre si formando novas melodias e composi\u00e7\u00f5es. A troca de cultura, a recep\u00e7\u00e3o de uma nova al\u00e9m da que j\u00e1 se tem, radicalmente preparando-se para um novo mundo cria conjecturas inimagin\u00e1veis. Os olhos, a vis\u00e3o abre-se para a extens\u00e3o do mundo que vai al\u00e9m do que j\u00e1 se conhecia. E quando essa vis\u00e3o contraria o mundo a que sempre se esteve acostumado? Existir\u00e1 uma influ\u00eancia do ambiente, adapta\u00e7\u00e3o ao meio ou rejei\u00e7\u00e3o total por meio dos conflitos que o indiv\u00edduo viver\u00e1? Vergonha das suas origens? A personagem da obra passa por todas essas esta\u00e7\u00f5es na costante mudan\u00e7a de espa\u00e7os culturais, vemos na p\u00e1gina 68 uma parte de seu pensamento:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\/De um lado, era necess\u00e1rio vencer, fosse em que circunst\u00e2ncias fosse, esta crise de identidade, esta dualidade que atolava. Do outro lado lado, devia apartar da minha mente a impress\u00e3o estranha que passei a ter de n\u00f3s, dado o modo em que viv\u00edamos.\/<\/em> (N\u00e3o apenas choque cultural, mas tamb\u00e9m choque cultural reverso)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A diferen\u00e7a de culturas causa um choque cultural, conflitos mentais e psicol\u00f3gicos e at\u00e9 mesmo emocionais, crises de identidade e perten\u00e7a, reflex\u00f5es. Pepela, por exemplo, apesar de amar a sua hist\u00f3ria, haviam aspectos dos quais discordava, e apesar de estar a aprender sobre uma nova cultura, ainda assim haviam aspectos dos quais discordava tamb\u00e9m. A nova cultura permitia-lhe enxergar os aspectos positivos e negativos da sua, e vice-versa. Dificuldade em conseguir conciliar as duas realidades e respeitar as suas origens, medo de perder-se, por\u00e9m, o processo que se vive, se bem passado alcan\u00e7a-se o EU superior e pleno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 naquela \u00e9poca Angola era um mosaico cultural emaranhado, imposs\u00edvel n\u00e3o existir contacto entre as culturas e etnias. Cada cultura foi bebendo da outra, envenenando-se e por vezes entrando em conflitos, num territ\u00f3rio, s\u00f3 uma cultura pode predominar, ela age de uma maneira ciumenta e possessiva sobre aqueles que a t\u00eam. Preconceitos etnico-culturais entre os elementos do mosaico cultural. Guerra de\/entre etnias, algo que se consta at\u00e9 aos presentes dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria sensato adoptar ideologias culturais de uma cultura que despreza a nossa? Seria uma esp\u00e9cie de trai\u00e7\u00e3o ao que \u00e9 nosso? Mas, e se, apesar disso, essas ideologias forem positivas para a ascen\u00e7\u00e3o da sociedade? Seriam sacrif\u00edcios necess\u00e1rios?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel quebrar os paradigmas culturais? As vezes eles ficam confinados ao passado do povo que, com certeza, t\u00eam grande import\u00e2ncia na hist\u00f3ria e constitui\u00e7\u00e3o do mesmo, por\u00e9m, estar preso a isso pode ser um factor limitante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existir\u00e1 uma esperan\u00e7a de mudan\u00e7a? Que os povos e culturas aliem-se e desenvolvam-se juntos, n\u00e3o em guerra uns contra os outros, mas juntos contra os conflitos sociais que se sobrep\u00f5em as sociedades ao longo dos tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A interac\u00e7\u00e3o intercultural \u00e9 um dos factores que contribui para o desenvolvimento extensivo das sociedades na partilha de ideologias e qualidades inerentes a uma cultura, contudo, n\u00e3o se pode negar que esse interc\u00e2mbio, causa, em muitas inst\u00e2ncias, conflitos pesados e dif\u00edceis de serem solucionados. O facto \u00e9: <em>o choque cultural \u00e9 at\u00e9 hoje um factor dif\u00edcil de lidar e conciliar. Apesar de bebermos um pouco de cada cultura s\u00f3 podemos ser fi\u00e9is a uma? Qual seria?<\/em><\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;1339&#8243; img_size=&#8221;large&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/2&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ester Diahoha nasceu em 31 de Maio de 2003 em Luanda. Terminou o Ensino M\u00e9dio em Ci\u00eancias F\u00edsicas e Biol\u00f3gicas no Complexo Escolar Teresiano de Viana em 2020. Actualmente, \u00e9 estudante do 3\u00b0 ano do Ensino do Portugu\u00eas e L\u00ednguas Nacionais na Universidade Jean Piaget de Angola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Participou, em 2022, da forma\u00e7\u00e3o de Escrita Criativa e Coment\u00e1rio Liter\u00e1rio organizada pela VPA e dirigida pelo escritor, professor e cr\u00edtico liter\u00e1rio H\u00e9lder Simbad. Trabalha com a escrita, an\u00e1lise liter\u00e1ria, revis\u00e3o e correc\u00e7\u00e3o de livros. \u00c9 membro do C\u00edrculo de Estudos Liter\u00e1rios e Lingu\u00edsticos Litteragris.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/2&#8243;][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A obra de An\u00edbal Sim\u00f5es \u00e9 um contributo para a cultura geral sobre o povo angolano, por meio dela \u00e9 poss\u00edvel viajar a um Namibe colonial e conhecer parte da cultura do povo kuvale, suas cren\u00e7as, valores e h\u00e1bitos que os constituem, al\u00e9m dos conflitos socio-culturais que enfrentam. <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[44],"ppma_author":[83],"class_list":["post-1334","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-outros","tag-estudos-literarios","author-ester-diahoha"],"acf":[],"authors":[{"term_id":83,"user_id":0,"is_guest":1,"slug":"ester-diahoha","display_name":"Ester Diahoha","avatar_url":{"url":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/ester.png","url2x":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/ester.png"},"author_category":"","first_name":"","last_name":"","user_url":"","first_name_2":"","last_name_2":"","job_title":"","description":""}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1334","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1334"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1334\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1337,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1334\/revisions\/1337"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1334"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1334"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1334"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=1334"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}