{"id":1311,"date":"2024-04-29T20:59:30","date_gmt":"2024-04-29T20:59:30","guid":{"rendered":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/?p=1311"},"modified":"2024-04-29T21:53:27","modified_gmt":"2024-04-29T21:53:27","slug":"um-canto-a-terra-da-concepcao-poetica-a-geofonia-circunstancial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/2024\/04\/29\/um-canto-a-terra-da-concepcao-poetica-a-geofonia-circunstancial\/","title":{"rendered":"Um Canto A Terra. Da Concep\u00e7\u00e3o Po\u00e9tica \u00c0 Geofonia Circunstancial."},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A obra liter\u00e1ria de Costa Andrade j\u00e1 h\u00e1 um tempo que nos chama aten\u00e7\u00e3o para o cont\u00ednuo exerc\u00edcio da investiga\u00e7\u00e3o. Ao mantermos contacto com a obra po\u00e9tica de Costa Andrade, verificamos a necessidade de cria\u00e7\u00e3o de um maior espa\u00e7o nos debates sobre po\u00e9ticas e por que n\u00e3o em projectos de obras? \u00c9 simplesmente pelo desejo de contribuir para o acervo de refer\u00eancias da poesia angolana no seu espa\u00e7o que sentimos sempre o chamado da ci\u00eancia para mais investimento no exerc\u00edcio da busca pelo sentido no ciclo de desenvolvimento dos estudos no campo da literatura. E \u00e9 sempre uma obriga\u00e7\u00e3o construir uma traject\u00f3ria de investiga\u00e7\u00e3o que n\u00e3o parta apenas do desejo de usufruir da experi\u00eancia est\u00e9tica enquanto leitores, mas ler e dar a ler, explorar e encetar um enfrentamento que tem apenas come\u00e7o e que por si s\u00f3 vai descobrindo e desenhando continuidades em outras vozes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0A preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 com a obra do autor. Ent\u00e3o foi melhor ter come\u00e7ado com esta <em>terra de ac\u00e1cias<\/em> <em>rubras<\/em>, numa edi\u00e7\u00e3o da Casa dos Estudantes do Imp\u00e9rio, publicada em 1961. \u00c9 parte da colec\u00e7\u00e3o <em>autores ultramarinos<\/em>. \u00c9 uma obra que assinala o valor da terra atrav\u00e9s do canto que a ela destina, sendo a terra um dos significantes fortes, dando marcas de um di\u00e1logo entre o sujeito com o espa\u00e7o e a natureza, ao mesmo tempo com as entidades do lugar. A demarca\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da poesia, das rela\u00e7\u00f5es entre o espa\u00e7o e o ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A terra \u00e9 a origem de tudo. Este poem\u00e1rio come\u00e7a por apresentar uma abordagem l\u00edrica, uma concep\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, uma leitura da origem das coisas fundamentada na pedra e na terra. Dialoga com a ideia de terra-m\u00e3e, o princ\u00edpio que tudo gerou e que tudo sustenta. Sobre a import\u00e2ncia da terra, muitas abordagens a qualificam e compreendem de diversas formas, convergindo na ideia da sua import\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A terra \u00e9 fundamento das coisas: \u00e9 fonte de alimento, \u00e9 a gestora da vida, fonte da sa\u00fade, \u00e9 ela que alberga tudo. O poema que se segue \u00e9 uma sugest\u00e3o de elementos significantes, propondo um olhar dos homens a terra. E aqui reside tamb\u00e9m a poesia, e a import\u00e2ncia da pr\u00f3pria literatura, porque ela tem consci\u00eancia da diversidade e multiplicidade das estruturas das coisas constituintes do universo, e a poesia olha para elas de forma particular, nas suas constitui\u00e7\u00f5es e nas suas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">A rocha o vento a ave<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 160px;\">deslumbraram-se<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 160px;\">Do seio<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 160px;\">a terra transformou-se em homens&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">e vieram bra\u00e7os<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">e vieram homens<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 160px;\">a terra transformou-se em p\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">e mais homens<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">e mais bra\u00e7os<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">e anseios<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 160px;\">a terra transformou-se em luz&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">e luz<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">e homens<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">e bra\u00e7os<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 160px;\">at\u00e9 que a terra se transforme<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 160px;\">na terra dos seus filhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">(p.8)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O terceiro poema deste conjunto \u00e9 feito de pontos cont\u00ednuos. Para interpret\u00e1-lo, dever\u00edamos olh\u00e1-lo como uma manifesta\u00e7\u00e3o da \u201cpoesia concreta\u201d, pode ter sido um erro ou n\u00e3o, os estudos ensinaram-nos a ponderar antes de classificar qualquer ac\u00e7\u00e3o da arte. Tendo em conta que na matem\u00e1tica os sinais t\u00eam leitura e significado, estes elementos enquadrados no conjunto dos textos de Costa Andrade, que se fundamentam no t\u00edtulo global de <em>terra de ac\u00e1cias rubras<\/em>, remetendo-nos a Benguela, mas que os textos se estendem em representa\u00e7\u00e3o de um referente real que \u00e9 um elemento geogr\u00e1fico de maior dimens\u00e3o, representado pelo significante terra, podendo referir-se a Angola. Como podemos ler atrav\u00e9s desse poema:<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">Havia conchas de mar<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">m\u00facuas e pitangueiras<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">falas de gentes quiocas<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">vozes de terras ganguelas<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">gritos de homens cuanhamas<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">o amor de jovens luenas<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">e lendas de mucubais<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">\u00a0inconformadas presen\u00e7as<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">pairando em cada sil\u00eancio<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">em cada vagem que seca<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">como promessas de p\u00e3o feitas fome<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">na realidade di\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">(p.34)<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A linha cont\u00ednua feita de pontos j\u00e1 referenciada, que parece ligada, \u00e9 uma linha horizontal, em oposi\u00e7\u00e3o a uma linha vertical, tendo em conta a lei natural da dualidade. Esta linha d\u00e1 a ideia de um objecto plano, uma superf\u00edcie, e se n\u00e3o for erro nem proposta de significa\u00e7\u00e3o da aus\u00eancia das palavras e da import\u00e2ncia do sil\u00eancio, ent\u00e3o \u00e9 uma linha que tamb\u00e9m nos prop\u00f5e a ideia de terra. E n\u00e3o poder\u00edamos estar longe dessa ideia, j\u00e1 que o t\u00edtulo, que corresponde a uma ideia global do texto sup\u00f5e uma leitura da terra pela men\u00e7\u00e3o deste significante, refer\u00eancia de um elemento c\u00f3smico, terra, que est\u00e1 presente em quase toda obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do quarto ao sexto poema, dor, sangue e triunfo ligam-se a um interdiscurso com a hist\u00f3ria da coloniza\u00e7\u00e3o e o sonho da liberdade. Nos tr\u00eas poemas, o sujeito po\u00e9tico come\u00e7a por indicar a exist\u00eancia de uma dor colectiva, que d\u00f3i mais a si, porque \u00e9 a multiplicidade das feridas de si, do irm\u00e3o e da terra. E o vermelho das ac\u00e1cias menciona a terra e provavelmente o sangue derramado, perpassando nas express\u00f5es dos versos um sentimento de perten\u00e7a e da consci\u00eancia manifesta de la\u00e7os de irmandade:<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 160px;\">A flor vermelha das ac\u00e1cias<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 280px;\">ser\u00e1 facho de vida<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 280px;\">a florir do sonho<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 280px;\">que nos preenche.(p.12)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Identificando-se com a terra, o sangue e o sonho da liberdade, o sujeito po\u00e9tico enuncia a exist\u00eancia de uma certeza dos dias de gl\u00f3ria, em que n\u00e3o mais haver\u00e1 l\u00e1grimas nem a necessidade de se lembrar delas. A previs\u00e3o ou o sonho de um futuro para dar aos filhos com a hist\u00f3ria de gl\u00f3rias, conforme cantado actualmente na m\u00fasica <em>os meninos do Huambo<\/em>, do poema de Manuel Rui. Ao ler estes versos e os poemas de Costa Andrade, cujo t\u00edtulo maior e \u00fanico \u00e9 o primeiro do livro todo deste poem\u00e1rio. No presente, al\u00e9m da riqueza tem\u00e1tica e formal destes poemas, da bela simplicidade e do rigor po\u00e9tico, o leitor \u00e9 convidado pela pr\u00f3pria poesia a confrontar o sonho do poeta e a dimens\u00e3o da palavra com o seu di\u00e1logo com cada contexto de leitura e de presen\u00e7a desta poesia. E deste confronto, pela poesia, al\u00e9m da poesia, por meio deste poem\u00e1rio, afronta o leitor a ideia da utopia do p\u00f3s independ\u00eancia, que o leitor saber\u00e1 relacionar, dialogar e\/ou interiorizar para, atrav\u00e9s da poesia, dar-se ao encontro com a realidade palp\u00e1vel de sonhos que agora, por mais que sejam sonhos e que tenham a fun\u00e7\u00e3o de assim serem at\u00e9 que pela realiza\u00e7\u00e3o isto deixem de ser, est\u00e3o em estado de boloriza\u00e7\u00e3o. E est\u00e1 aqui a poesia para lembrar e julgar o tempo. Talvez. Ou confrontar a ignor\u00e2ncia dos homens em rela\u00e7\u00e3o ao amanh\u00e3? ou qu\u00ea, saber\u00e1 mais o leitor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 160px;\">nem mais l\u00e1grimas vermelhas<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 320px;\">para dar&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 320px;\">(p.13)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por mais hist\u00f3rias que um poema queira contar, a palavra po\u00e9tica\u00a0 atravessa o tempo e se ressignifica, muito pelo facto do mundo ser um espa\u00e7o de coisas que se repetem no tempo e no espa\u00e7o, a lei da circularidade, por isso, por bom tempo, e talvez sempre, as palavras tender\u00e3o a ressignificar-se com as coisas, outras vezes, as palavras vir\u00e3o para julgar os tempos, conforme j\u00e1 referimos antes, e a neglig\u00eancia humana. E as palavras, para isso, n\u00e3o precisam mudar. Por que vem aqui o caso das palavras julgando o tempo e a neglig\u00eancia humana? E vem tamb\u00e9m o sonho embolorado? por causa da espera. Antes a espera da liberdade, a espera da autonomia, a espera do triunfo. A espera que persegue o homem. Que persegue o angolano, por mais que aqui caiba saber por qu\u00ea, pela incita\u00e7\u00e3o da poesia, que fique para o leitor esse exerc\u00edcio de auscultar causas e cobrar contas. E agora? Essa espera expressa no contexto das lutas, \u00e0 espera de um socorro, nesse contexto da actualidade a ressignifica\u00e7\u00e3o da espera destina-se hoje a qu\u00ea? A n\u00f3s cabe sugerir muito mais que ditar. E aqui, \u00e9 com Costa Andrade com quem se dialoga atrav\u00e9s desta obra <em>terra de ac\u00e1cias rubras<\/em>:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 320px;\">Havia<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 360px;\">\u00a0havia<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 400px;\">havia<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 400px;\">humanidades de espera<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 400px;\">como promessas de p\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 440px;\">Outubro,\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a01960.<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 400px;\">(p.35)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No poema ix aparecem novamente as retic\u00eancias como se fossem sinais de um quebrar da continuidade da fala, uma interrup\u00e7\u00e3o do discurso po\u00e9tico. O sil\u00eancio. Alguns poemas t\u00eam apenas n\u00fameros e outros j\u00e1 t\u00eam t\u00edtulos. Uma boa parte dos poemas s\u00e3o maioritariamente feitos de nomes. Dedicados \u00e0s vezes a um amigo, uma amiga ou apenas com a visibilidade de um sujeito po\u00e9tico que se dirige a algu\u00e9m por quem se poderia ter maior intimidade e apre\u00e7o. Outras vezes, os poemas trazem marcas de di\u00e1logos interiores sobre o <em>eu<\/em> do sujeito po\u00e9tico, que tem no\u00e7\u00e3o do outro, sempre em liga\u00e7\u00e3o com a terra, a qual tamb\u00e9m se dirige o eu l\u00edrico. A qual dirige cantos e elogios, sem deixar de lado a sua veia cr\u00edtica s\u00f3 pela men\u00e7\u00e3o de factos que se interligam com a terra e ter\u00e3o deixado marcas nela.<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">Tenho o segredo dos capinzais<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">soltando ais<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">ao fogo das queimadas de setembro<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">tenho a car\u00edcia das folhas novas<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">cantando novas<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">que antecedem as chuvadas<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">tenho a sede das plantas e dos rios<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">quando frios crestam os ramos das mulembas. (p.24)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">Se o fogo das queimadas<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">fosse a vida<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">a vida n\u00e3o valia o sacrif\u00edcio<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">h\u00e1 muito que o sonho se perdera&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">As queimadas devoram as anharas<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">e o fogo apaga-se com a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">(p.28)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este poem\u00e1rio \u00e9 como j\u00e1 referimos um canto a terra, pelas suas belezas, qualidades e la\u00e7os. Mas tamb\u00e9m \u00e9 uma den\u00fancia dissimulada em canto contra os danos do ambiente, que prejudicam consideravelmente a terra, como lemos na estrofe anterior, evidenciando consci\u00eancia do sujeito sobre os enormes benef\u00edcios que t\u00eam um ambiente terrestre colorido, aromatizado e harmonizado pela rela\u00e7\u00e3o entre os seres vivos na natureza, transmitindo ao poeta uma paisagem, ambiente e sentimentos dignos de exterioriza\u00e7\u00e3o para marcar nas p\u00e1ginas da hist\u00f3ria a presen\u00e7a ben\u00e9vola das plantas e das aves para o homem\/mulher, para que este(a) possa sonhar e absorver a vida que flui de si, em si e ao seu redor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">&#8230; e quando chega o canto das perdizes<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">e nas anharas revive a terra em cor<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">sinto em cada flor<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">nos seus matizes<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">que \u00e9s tudo o que a vida me ofereceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">(idem)<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 160px;\">E ainda no amor, num di\u00e1logo entre o sujeito e a amada, finca-se um olhar \u00e0<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">aspira\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 200px;\">Olha amor<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">e solta enfim<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">o brado da certeza<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 280px;\">que n\u00e3o \u00e9 crime<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 280px;\">o grito \u00e0 vida<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 280px;\">e ao amor que se adivinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 280px;\">(p.25)<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como quem conta uma hist\u00f3ria, mas quer cantar tamb\u00e9m uma figura, Costa Andrade dedica parte dos poemas dessa obra a um tocador de quissanje, marcando neles, conforme a forma ritmada dos seus versos, uma hist\u00f3ria, tra\u00e7os de rostos com hist\u00f3rias entre semblantes e ritmos, os caminhos de um povo e muitas mem\u00f3rias, marcas da terra e dos passos de quem ter\u00e1 vivido dias incertos:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">&#8230; e vinham<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 280px;\">das dist\u00e2ncias<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">eram das terras da lunda<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">e os regressados das ilhas<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">e as crian\u00e7as que n\u00e3o iam<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">muito p\u2019ra al\u00e9m dos luandos<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">e das portas<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 280px;\">e eram velhas<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">Alongava-se na noite<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">canto de escravos passados<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">vozes de contratados<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">o teu quissanje dolente&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">(p.32)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A constitui\u00e7\u00e3o da poesia comp\u00f5e-se das leis ora arbitr\u00e1rias e l\u00f3gicas, ora aparentemente infundadas e na maioria das vezes poeticamente constru\u00eddas e expressas para a regula\u00e7\u00e3o do fazer po\u00e9tico. N\u00e3o h\u00e1 arte, por mais que a sua natureza seja interventiva e insurgente, que n\u00e3o tenha regras nem normas. \u00c9 a pr\u00f3pria beleza que assim o quis. E a arte \u00e9 filha da beleza. A beleza constitui e deve constituir o ADN de qualquer obra art\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao abrir o seu poem\u00e1rio, feito de 21 poemas, dos quais dois s\u00e3o aparentemente s\u00f3 linhas cont\u00ednuas, o leitor depara-se antes com um poema, definindo a proveni\u00eancia da poesia andradeana, uma concep\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, conforme fazem hoje Marquita 50, na sua prosa po\u00e9tica de abertura em Assimetrias de Mulher (2018) e Concei\u00e7\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o no seu <em>reencontro com o fogo da palavra<\/em> atrav\u00e9s da sua nova obra <em>Sil\u00eancios na F\u00edmbria da Voz<\/em>, \u2026<em>falam das perdas das pedras \u00e0s pedras<\/em> (2023), no primeiro poema <em>poesia: gar\u00e7as e voos inteligentes da alma<\/em>. Ali\u00e1s, os poetas est\u00e3o sempre em di\u00e1logo constante. Estes c\u00e1, e n\u00e3o s\u00f3 Costa Andrade, mas todos os poetas que tem o seu pr\u00f3prio manual do fazer po\u00e9tico sabem que as formas s\u00e3o delimit\u00e1veis sempre, mesmo que implicitamente, por cren\u00e7as. \u00c9 esta a de Costa Andrade:<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">I<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">A poesia nasce como os rios<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">e as pessoas<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">as avenidas<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">e o mar<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 280px;\">Porque a poesia vive em tudo<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 280px;\">e em tudo se confunde<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 280px;\">com o sonho.<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 280px;\">(p.7)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os poemas desta obra comp\u00f5em-se de cargas de significa\u00e7\u00e3o alusivas \u00e0 hist\u00f3ria local, ao lugar e \u00e0s suas gentes, bem como os seus viveres, aludidos sinteticamente pela consequ\u00eancia da pr\u00f3pria sintaxe po\u00e9tica, ao sonho, ao amor, etc., que resultariam de extensos exerc\u00edcios interpretativos, quando estes n\u00e3o se constituem apenas da inten\u00e7\u00e3o de sugerir ou visitar a poesia, mas tamb\u00e9m de a avaliar do ponto de vista do seu valor, medindo por meio de v\u00e1rios e diferentes testes de aplicabilidade do sentido, da abrang\u00eancia e profundidade da sugest\u00e3o e do percurso da pr\u00f3pria poesia pelo tempo. E por mais que se cale o autor, a obra, ainda que no abismo do sil\u00eancio estiver, acordar\u00e1 e falar\u00e1. Leia-se <em>Sanzala morta, <\/em>do qual alguns versos se seguem,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">Erguem-se esquinas<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 360px;\">na noite<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">vozes de rios secos<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">sobre as pedras<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 360px;\">que os beberam<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">com suas bocas de musgo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 240px;\">(p.38).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o poemas escritos entre 1959 e 1960, \u00e9pocas de sofrimentos, lutas e insurg\u00eancias. Em que a cor da pele era aditamento e justificava ac\u00e7\u00f5es h\u00e1 muito preconizadas. Em que o destino de pessoas nascidas livres era empobrecido por imposi\u00e7\u00f5es fundadas em aspira\u00e7\u00f5es ambiciosas e nada abonat\u00f3rias para o reflorescimento do ciclo vital da humanidade. Esta obra de Costa Andrade traz as marcas de tempos de secura como as marcas que o leitor tamb\u00e9m poder\u00e1 ler em <em>Estrada da Secura<\/em> de Lu\u00eds Kandjimbo. A voz da terra e dos que nela passam \u00e9 a poesia que capta. E ainda \u00e9 preciso ler.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A obra liter\u00e1ria de Costa Andrade j\u00e1 h\u00e1 um tempo que nos chama aten\u00e7\u00e3o para o cont\u00ednuo exerc\u00edcio da investiga\u00e7\u00e3o. Ao mantermos contacto com a obra po\u00e9tica de Costa Andrade, verificamos a necessidade de cria\u00e7\u00e3o de um maior espa\u00e7o nos debates sobre po\u00e9ticas e por que n\u00e3o em projectos de obras? <\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[44],"ppma_author":[81],"class_list":["post-1311","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-outros","tag-estudos-literarios","author-edmira"],"acf":[],"authors":[{"term_id":81,"user_id":6,"is_guest":0,"slug":"edmira","display_name":"Edmira Cariango","avatar_url":{"url":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/edmira-membros.png","url2x":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/edmira-membros.png"},"author_category":"","first_name":"Edmira","last_name":"Cariango","user_url":"","first_name_2":"","last_name_2":"","job_title":"","description":""}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1311","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1311"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1311\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1324,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1311\/revisions\/1324"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1311"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1311"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1311"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=1311"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}