{"id":1307,"date":"2024-04-29T14:50:08","date_gmt":"2024-04-29T14:50:08","guid":{"rendered":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/?p=1307"},"modified":"2024-04-29T14:53:08","modified_gmt":"2024-04-29T14:53:08","slug":"maria-vaicomtodos-de-pernas-abertas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/2024\/04\/29\/maria-vaicomtodos-de-pernas-abertas\/","title":{"rendered":"Maria Vaicomtodos De Pernas Abertas"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 noite, uma clareza mi\u00fada rasgava o breu do c\u00e9u. A lua, t\u00edmida, sorria levemente sob as nuvens negras. Era a aurora mais triste e o an\u00fancio estava feito: o curso dos acontecimentos n\u00e3o era animador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gritos ensurdecedores preenchiam o p\u00e1tio do hospital. No port\u00e3o de acesso \u00e0 maternidade, uma jovem mulher com o seu kimbundu atabalhoado, dizia repetidas vezes \u00absonga dya mam\u2019etu\u00bb. Maria VaiComTodos, a mandongo do Bairro Malanjino, j\u00e1 n\u00e3o se aguentava de tanta dor. As suas pernas grossas de embondeiro perderam o gingado e o bronzeado daquele corpo soberbo que ostentava, nem um passo conseguia marcar. Da sua intimidade, uma vida espreitava a exist\u00eancia. VizinhaNzala, a anci\u00e3 que acompanhava Maria VaiComTodos, vislumbrava um futuro \u00e1cido para a jovem gr\u00e1vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A express\u00e3o facial do rosto esbelto da Maria VaiComTodos ganhava metamorfoses col\u00e9ricas. O assombro instalou-se e ningu\u00e9m conseguia acalm\u00e1-la. Choro e dizeres compunham a can\u00e7\u00e3o que dos l\u00e1bios da mandongo emergia. Filhadaputava-os a todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 Nzambi ya mbungu, matuba dye \u2013 olhando para o c\u00e9u negro, ofendia freneticamente a \u00abDeus\u00bb por quem, quando crian\u00e7a, um dia fora baptizada e crismada na Igreja do Carmo. Para ela, Deus era um ser injusto por ter dado a Eva a dor de parto como consequ\u00eancia do pecado mortal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria VaiComTodos ganhou consci\u00eancia da sua liberdade, adoptou o feminismo como sua religi\u00e3o e via na figura de Jeov\u00e1 um ser confuso, que sempre alienou a emancipa\u00e7\u00e3o e o empoderamento das mulheres. Postergara o nome TeresaDeCalcut\u00e1, seu nome de baptismo, e adoptara Maria VaiComTodos para romper com a educa\u00e7\u00e3o religiosa que o seu pai, um cat\u00f3lico devoto, lhe transmitiu. Deus maz\u00e9 era um frouxo ciumento que invejava a Eva por ter devorado Ad\u00e3o sem o partilhar. S\u00f3 o pap\u00e1 e os seus irm\u00e3os dogmatizados n\u00e3o enxergam isso, pensava entre suspiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u2013 O prazer, \u00e0s vezes, produz frutos amargos. Do outro lado do hospital, o afamado maluco OndjakiTransparente gargalhava aos berros enquanto olhava levemente para Maria VaiComTodos. Ins\u00f3lito, acomodado debaixo da casuarina,\u00a0no escuro, OndjakiTransparente folheava distraidamente um romance hist\u00f3rico acabado de ser publicado no Audit\u00f3rio Pepetela, do Centro Cultural Portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No cora\u00e7\u00e3o da maternidade, a negrura da noite acomodava-se entre uma gravidez e outra. Por alguns instantes, houve sil\u00eancio. Absorta nos seus pensamentos, Maria VaiComTodos sorria com ternura. A dor de parto parecia evaporar-se. O sorriso era sincero e po\u00e9tico. Depois de respirar com sofreguid\u00e3o, caminhou em direc\u00e7\u00e3o a OndjakiTransparente e abra\u00e7ou-o com brandura.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 Ser\u00e1s o pai da minha filha. Disse, tro\u00e7ando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 N\u00e3o h\u00e1 nada mais po\u00e9tico do que estar com o amor da nossa vida \u2013 OndjakiTransparente sussurrou-lhe ao ouvido e com a cabe\u00e7a acenou positivamente \u00e0 ordem dela. A luz da ambul\u00e2ncia que sa\u00eda da maternidade iluminou o rosto do maluco. Maria VaiComTodos, entregue ao abra\u00e7o reconfortante e, ao inclinar-se um pouco, conheceu o rosto do maluco perfumado que a confortava silencioso. Este maluco poeta deve ser filho de um mundele lindo, pensou enquanto observava os detalhes da figura impoluta que abandonara os seus olhos aquosos sobre o seu corpo disforme pela gravidez.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 Como te chamas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 OndjakiTransparente! \u2013 A um palmo de dist\u00e2ncia, respondeu um senhor com cerca de 57 anos de idade, que os observava atentamente. \u00c1guaLustro era um prosador angolano que, vindo de Portugal, estudava cuidadosamente OndjakiTransparente para o seu novo romance, cujo protagonista seria uma c\u00f3pia do jovem maluco.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 O que \u00e9 que um ex\u00edmio escritor est\u00e1 fazer com um bloco de notas no escuro? \u2013 Indagou Maria VaiComTodos sorridente e curiosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 Ondjaki \u00e9 o \u00fanico amigo transparente que a minha terra me deu. Sabe, a pretensa democracia que paira no nosso musseque fez-nos artistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 Sei muito bem o que dizes. Afinal, \u00e9s dos poucos escritores que o poder pol\u00edtico ainda n\u00e3o conseguiu corromper. \u00a0Mas o embaixador diz que \u00e9s um tuga invejoso que sem fundamentos contesta o partido que nos governa.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 Est\u00e1s a falar do EmbaixadorGanhosIntang\u00edveisDaPaz?<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 Sim, esse mesmo \u2013 desatou a rir.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 Este \u00e9 o nosso futuro, a ditadura da gan\u00e2ncia? \u2013 Enfeiti\u00e7ado, OndjakiTransparente, que por alguns minutos esteve silencioso, encontrava-se, agora de p\u00e9, a reflectir em voz alta sobre a \u00faltima frase do romance\u00a0<em>Se o Passado N\u00e3o Tivesse Asas<\/em>, que acabava de folhear.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pergunta parecia fazer sentido para \u00c1guaLustro, observador atento que captava momentos fugazes e dava-lhes intemporalidade nos seus romances. A quase quinhentos metros de dist\u00e2ncia, do lado de l\u00e1, gente importante a passos ensaiados riscavam o ch\u00e3o de m\u00e1rmores de um sal\u00e3o adornado. Ao longe, inacreditavelmente, ouvia-se o semba <em>Baj\u00fa<\/em>, animando a festa milion\u00e1ria que OndjakiTransparente fingia n\u00e3o ter lucidez para dizer quem era o aniversariante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do lado de l\u00e1, ao contr\u00e1rio do da maternidade, o c\u00e9u do dia 28 de Agosto era outro. O tempo n\u00e3o parecia negro nem tempestuoso. Havia nuvens multicolores em perfeita harmonia com a Superlua dan\u00e7ante. Os homens de l\u00e1 compravam tudo, at\u00e9 a vontade de Deus. O seu maior eleitorado estava nas igrejas dos l\u00edderes que no preciso instante saboreavam champanhe franc\u00eas. O gosto do champanhe tinha duplo sabor: o da idade avan\u00e7ada do aniversariante e o da vit\u00f3ria nas urnas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VizinhaNzala cuspia olhares vorazes, amea\u00e7adores. Maria VaiComTodos estava entretida de mais para perceber os olhares reprovadores. Deus foi infeliz quando planeou o mundo \u2013 pensou a anci\u00e3. Gotas de sangue ca\u00edam sobre os p\u00e9s inflamados da Maria VaiComTodos. A prosa estava boa e o sangue e as dores j\u00e1 n\u00e3o a incomodavam. Os tr\u00eas, sentados debaixo da casuarina, falavam sobre o s\u00e9culo das luzes e a escurid\u00e3o que teimava em cantar nos sal\u00f5es da \u00c1frica do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 Como se vai chamar a nossa filha?<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 Langidila! \u2013 Respondeu com a emo\u00e7\u00e3o marulhando-lhe os olhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">OndjakiTransparente e \u00c1guaLustro entreolharam-se surpresos. Um <em>d\u00e9j\u00e0\u00a0vu<\/em> intenso fez com que o maluco poeta a olhasse pasmado. O ch\u00e3o estava manchado com sangue coagulado. Maria VaiComTodos manteve-se altiva, indom\u00e1vel e l\u00facida. \u00abS\u00f3 depois de recuperar a nossa dignidade \u00e9 que podemos decidir se viramos ou n\u00e3o crist\u00e3os.\u00bb Distra\u00edda, pensava na frase que lera no <em>Di\u00e1rio de Um Ex\u00edlio Sem Regresso<\/em> quando mais jovem. A leitura despertou-a para a independ\u00eancia. Desde ent\u00e3o mudara de nome e personalidade; j\u00e1 n\u00e3o era aquela rapariga meiga e fr\u00e1gil que fazia sil\u00eancio perante as injusti\u00e7as e confiava tudo ao Senhor. Tornou-se anarquista e passou a devorar livros proibidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao redor dos tr\u00eas, um grupo de mulheres, onde a VizinhaNzala se encontrava, sussurrava palavras de contesta\u00e7\u00e3o. OndjakiTransparente olhava para Maria VaiComTodos com desejo. A maluquice cedeu um pouco, quando recordou que j\u00e1 fora um homem de fam\u00edlia num passado glorioso. Num \u00e1pice, o seu falo com algum despudor rompera o fecho da cal\u00e7a. Algumas mulheres desandaram assombradas, as mais jovens observavam sorridentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imaginou-a em casa, encostada ao sof\u00e1, despindo-se diante da televis\u00e3o ligada. De p\u00e9, de lingerie, com um copo de vinho tinto junto aos l\u00e1bios carnudos. Os pensamentos flu\u00edam na cabe\u00e7a de OndjakiTransparente. \u00c1guaLustro, calado, apontava cada detalhe no bloco de notas que trazia \u00e0s m\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os far\u00f3is dos carros iluminavam a entrada do hospital. Apesar do frio penetrante, grave e cortante, rostos p\u00e1lidos e ensonados faziam a festa. A neblina e a escurid\u00e3o pareciam mais carregadas, densas. No c\u00e9u f\u00fanebre, nevoeiro solto espraiava-se intenso. No port\u00e3o da maternidade, enquanto Maria VaiComTodos, de pernas abertas, sonhava acordada, ficcionando OndjakiTransparente e \u00c1guaLustro, a anci\u00e3 VizinhaNzala, com a ajuda de duas enfermeiras, limpava a rec\u00e9m-nascida.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ouviu-se o primeiro choro de Langidila. A exist\u00eancia passou a fazer sentido, e Maria VaiComTodos sorria, indom\u00e1vel.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 noite, uma clareza mi\u00fada rasgava o breu do c\u00e9u. A lua, t\u00edmida, sorria levemente sob as nuvens negras. 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