{"id":1297,"date":"2024-04-29T14:32:23","date_gmt":"2024-04-29T14:32:23","guid":{"rendered":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/?p=1297"},"modified":"2024-04-29T14:34:06","modified_gmt":"2024-04-29T14:34:06","slug":"o-passado-da-sola-de-ferro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/2024\/04\/29\/o-passado-da-sola-de-ferro\/","title":{"rendered":"O Passado Da Sola De Ferro"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na era da proibi\u00e7\u00e3o das queimaduras da fauna, estavam os bichos e os animais tradicionais iluminados pela inova\u00e7\u00e3o do bolo das conviv\u00eancias. Criavam a paix\u00e3o de ler livros de todo o universo para decifrar o mundo e entender a forma de abrir o f\u00f3sforo das conflagra\u00e7\u00f5es da terra. Enfeitaram a cidade com as long\u00ednquas \u00e1rvores da independ\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a chuva, os bichos cresciam e rasgavam a boca. Mesmo assim, o fogo esquentou-se na floresta. Enquanto os bichinhos, com a sua urina, apagavam o fogo, os animais selvagens sopravam, para com ele confeccionar os seus alimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u2013 Porqu\u00ea as fachadas e n\u00e3o as conc\u00f3rdias? \u2013 Questionou o Camale\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Antes de responder, o Jacar\u00e9-de-parede questionou a d\u00favida, e em seguida, abertamente, respondeu:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 Arrastas a santidade \u00e0 p\u00e1tria. Minha resposta pode n\u00e3o ser satisfat\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto o Camale\u00e3o e o Jacar\u00e9-de-parede afiavam a ret\u00f3rica na pedra, em forma de sard\u00e3o, o Pirilampo limitava-se a acenar com a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00a0 \u2013 Sim, sim, sim meus camaradas. Suplico o rosto da chuva para apagar o fogo, e no final o sorriso florir!<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u2013 Aqui n\u00e3o h\u00e1 camaradas, p\u00e1! Na floresta, s\u00f3 existem bichos. \u2013 Replicou o Camale\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A menina Benguela encontrava-se nua e devorada pelas fornica\u00e7\u00f5es das p\u00f3lvoras. Seu namorado Pirilampo, para n\u00e3o sofrer a humilha\u00e7\u00e3o, teve que namorar a Dona Luanda. Linda Luanda! Era a \u00fanica prostituta dos deuses. At\u00e9 os estrangeiros queriam engravid\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomado o caminho, o seu companheiro de viagem (o Tapete-Asf\u00e1ltico), disse-lhe que os camponeses da mesma plan\u00edcie semeavam minas. As \u00e1rvores j\u00e1 se tornavam ferozes, devido \u00e0s curvas, descidas e \u00e0s feridas timbradas no seu \u00fatero.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Sem hip\u00e9rbole, a Senhora Canjala era a chefe do Estado-Maior, sem piedade. Para que o Pirilampo beijasse os p\u00e9s da Dona Luanda, teve que nadar todo o mar do Sul, at\u00e9 ao Senhor Porto-Amboim.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 Os mergulhos me fatigaram. Dei tantas goladas que salgaram-me as tripas, e at\u00e9 o pap\u00e9u na barriga se estragou. Maz\u00e9 a dioba que vai me bondar!<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 \u00d3 seu bicho! Aqui n\u00e3o h\u00e1 padres, nem vincula a B\u00edblia, p\u00e1! Levanta e vai-te embora.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Conquistou o asfalto despenteado que conhecia a casa da Dona Luanda e ambos partiram. O jacto em que eles se plantaram era um camale\u00e3o a andar. Seguia o seu curso num espa\u00e7o temporal de 1,5 a 1,0 km por hora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era a for\u00e7a maior, e ele queria um dia contar essa contenda a outrem. Separou a sua m\u00e3o da dela. Em seguida, leu as l\u00e1grimas pretas nos olhos dela, mas n\u00e3o podia recuar. O cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava no quintal da Dona Luanda. O Asfalto ainda mostrou-lhe o Museu da Escravatura. J\u00e1 estava fora da forja e respirava levemente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poucos quil\u00f3metros depois, o Tapete-Asf\u00e1ltico tamb\u00e9m se transformara em pessoa de verdade: bem vestida, de um fato engraxado e duas barras brancas em cada faixa. Foi o dia em que ele conheceu a Dona Luanda. Diziam que ainda era mi\u00fada, linda, m\u00e9dia e negra. Apesar de ter mais de XVIII s\u00e9culos, tinha um passado de ferro, e precisava da veste interior para caminhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O Pirilampo inalou o socialismo e, em sinal de boa educa\u00e7\u00e3o, retribuiu:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 Estou na Luanda, na Nguimbi!<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 Na Luanda! Exclamou a \u00c1rvore, barbuda de intelig\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Antes de o Pirilampo ter contado alguns passos leves, a \u00c1rvore falou baixinho:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u2013 Esse wi \u00e9 sulano. Fala mbora o rascunho do portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Pirilampo arriscou-se e chegou. Encontrou os inquilinos que viviam num comboio pronto para uma boa sobreviv\u00eancia. Apontaram-lhe um carro com as pernas separadas do tronco: um antebra\u00e7o perdido, enrugado de feridas e velho, por lhe terem batido duas esta\u00e7\u00f5es chuvosas. Ent\u00e3o, o Carro disse-lhe que sua cama era o tecto de casa, para fazer peso e proteger as chapas da ventania.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Pirilampo, por sua vez, arrogou-lhe e aprontou-o bem com pregos e martelo. No dia seguinte, visitou o mercado do Roque Santeiro com o seu companheiro Carro, cujas traseiras, em andamento, agradeciam pulando os muros com o pneu bem calibrado, enquanto o escarro do Pirilampo estava sendo pintado a vermelho pelos seus pulm\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 Agora todos n\u00f3s estamos numa s\u00f3 palma, esticando a l\u00edngua materna para o portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Foi assim que come\u00e7ou o uniforme \u00f3dio&#8230;<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na era da proibi\u00e7\u00e3o das queimaduras da fauna, estavam os bichos e os animais tradicionais iluminados pela inova\u00e7\u00e3o do bolo das conviv\u00eancias. 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