{"id":1293,"date":"2024-04-29T14:29:16","date_gmt":"2024-04-29T14:29:16","guid":{"rendered":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/?p=1293"},"modified":"2024-04-29T14:30:16","modified_gmt":"2024-04-29T14:30:16","slug":"a-linguagem-do-silencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/2024\/04\/29\/a-linguagem-do-silencio\/","title":{"rendered":"A Linguagem Do Sil\u00eancio"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquelas bandas de Canjinji, apareceu misteriosamente a verdadeira poesia carnal: rosto deusificado, olhos multicolores, cabelos negros de Kianda e um corpo todo esponjoso. Era a Kayeye, um fogo de mulher, uma criatura perfeita aos olhos humanos. Mas como a perfei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 coisa do ser humano, faltava-lhe uma voz, uma voz que ficou presa nas garras do sil\u00eancio, desde que veio ao feroz mundo. Mas a mudez n\u00e3o anulava a sua abundante beleza, pois simplesmente com o seu olhar virginal hipnotizava uma infinidade de homens, cujo desejo maior era comer a ma\u00e7\u00e3 da reincarnada Eva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua benevolente alma, Kayeye carregava uma maldita maldi\u00e7\u00e3o que lhe rasgava o desejo excitante da vida. De t\u00e3o bela que era, de t\u00e3o sensual que era, de t\u00e3o af\u00e1vel que era, ningu\u00e9m lhe podia proferir palavras ofensivas, imundas ou desrespeitosas, sen\u00e3o a maldi\u00e7\u00e3o erguer-se-ia e estender-se-ia para todos os que ali viviam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dia desses em que a lua decidiu n\u00e3o aparecer, Kayeye saiu em passos camale\u00f3nicos, transbordando a beleza do seu maragn\u00edfico corpo por toda aquela regi\u00e3o. Numa esquina de nome &#8220;Cinquentinha&#8221;, passou por um grupinho de jovens que curtiam um banzelo a mandar umas cucas pro peito. Um deles chamado Kwangwangwa, masturbado num simples olhar, resolveu cham\u00e1-la e f\u00ea-lo de todas as formas poss\u00edveis, mas Kayeye continuou sua traject\u00f3ria que n\u00e3o tinha come\u00e7o nem fim. Kwangwangwa por sua vez, irritado por ser ignorado diante dos kambas, j\u00e1 consumido pelo que consumia, gritou em alta voz:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 Hum, tipo num caga! Puta de merda!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De repente, tudo parou, o c\u00e9u escureceu-se e o sil\u00eancio reinou. Nesse instante, Kayeye desapareceu e, com ela, todas as vozes. Todos perderam a fala e come\u00e7aram a comunicar atrav\u00e9s de gestos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na noite deste mesmo tenebroso dia, Kayeye apareceu no centro de Canjinji sob forma de uma gigante pedra de cristal, cravada com a seguinte mensagem: \u00abQuem n\u00e3o fala tamb\u00e9m comunica\u00bb. Em seguida, reapareceu a Kwangwangwa, enquanto este estendia as bolas no seu quartinho de chapa, tentando buscar as vozes que se tinham evaporado com a misteriosa beleza de Kayeye. Desta vez, sob forma de uma pena de galinha, Kayeye pincelou no tecto, onde justamente olhava Kwangwangwa, deixando mais uma mensagem: \u00abA salva\u00e7\u00e3o est\u00e1 em tuas m\u00e3os\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kwangwangwa levantou-se assustado, j\u00e1 com uma faca na m\u00e3o, procurava a misteriosa pena, mas encontrou apenas um nada, um vazio que o engolia. Desesperado, arrojou-se no ch\u00e3o e logo lembrou-se da mensagem que Kayeye o deixou. Rapidamente, abriu as m\u00e3os, onde encontrou mais uma mensagem: \u00abV\u00e1 agora ao cemit\u00e9rio, desenterra a cova de um daqueles que andou a estigar os que n\u00e3o falam e queime o seu esqueleto. Aproveite o p\u00f3, jogue-o ao cair da madrugada com o cantar do galo e tudo se restituir\u00e1\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, mesmo vibrando de medo, Kwangwangwa sa\u00edu e fez tudo o que Kayeye lhe tinha orientado. Mas nenhum galo cantou, pois o sil\u00eancio encarregou-se de levar consigo tudo o que era som. Portanto, a maldi\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio ali se instalou e tudo virou um vazio, restando apenas Kayeye sob a forma daquela gigante pedra de cristal com a sua pedag\u00f3gica mensagem: \u00abQuem n\u00e3o fala tamb\u00e9m comunica\u00bb.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Naquelas bandas de Canjinji, apareceu misteriosamente a verdadeira poesia carnal: rosto deusificado, olhos multicolores, cabelos negros de Kianda e um corpo todo esponjoso. 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