{"id":1289,"date":"2024-04-29T14:19:27","date_gmt":"2024-04-29T14:19:27","guid":{"rendered":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/?p=1289"},"modified":"2024-04-29T14:20:52","modified_gmt":"2024-04-29T14:20:52","slug":"zengi-e-a-sereia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/2024\/04\/29\/zengi-e-a-sereia\/","title":{"rendered":"Zengi e a Sereia"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dia tr\u00f4pego, ferozmente, avizinhava-se no munic\u00edpio do Bembe. As nuvens acordaram magras, desgrenhadas, enrugadas e feias, amea\u00e7ando espremer os excitados seios, cujo leite desembocaria numa boa chuvada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sereia surgiu de um ovo que tentava fazer travessia dum incerto lugar para o sistema interplanet\u00e1rio, onde seria fecundado por um mitol\u00f3gico deus com reinado de pedra. Mas, as colis\u00f5es s\u00edsmicas entre os seres alados do espa\u00e7o amorteceram-na ao ponto de cair naquele maldito espa\u00e7o \u2013 Nkixi. Talvez tenha sido este o motivo da sua beleza que ardia, esfarelando os homens de alucina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lulendo provinha do mar. Era um deus ressuscitado do eterno esquecimento para governar Nkixi. Poderoso e forte, que nem Mandume, arrastava tudo e todos ao longo da sua passagem. No seu percurso, seu corpo disparava pesado chumbo, matando as crian\u00e7as que se aproximavam; as casas ca\u00edam de medo, porque, segundo a lenda, ele vinha com terrenos do ventre da sua m\u00e3e, por isso, s\u00f3 estes poderiam existir e eram, para ele, dejectos exclusivamente seus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os homens, para n\u00e3o morrer, adulavam, pintando-o de honra e gl\u00f3rias, at\u00e9 certo ponto desmesuradas, mas convinha, porque era uma das mendic\u00e2ncias para que se ganhasse a vida e o p\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certo dia, a sereia banhava-se despida por cima da \u00e1gua, e Zengi atingiu-a com a flecha da sua beleza. Da\u00ed, nasceu o amor e a guerrilha, que entrela\u00e7aria ambos e mais um terceiro, o deus do mar, que considerava Makyese, a sereia, ser propriedade sua por ter a vida anf\u00edbia, apesar de ter vindo de outro planeta. Zengi conflu\u00eda na mesma alega\u00e7\u00e3o, dizendo que a beldade tinha alma terrena, mas Lulendo altercava, inflamando-se de furor porque os terrenos tamb\u00e9m o pertenciam. Nisto, o caos estava instalado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na noite em que a lua lacrimejava de prazer, devido ao coito conjugal, Zengi e Makyese bebiam-se com profundo olhar \u2013 apaixonados. E eis que \u00e0 porta, um murm\u00fario fez-se corp\u00f3reo, dando entrada, em remoinho, ao possesso ser de Lulendo at\u00e9 ao quarto onde o casal se enrolava em beijos. Do pano de sonho, Makyese despertou-se e bradou para o homem:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u201cCuidado, Zengi!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Zengi caiu em espiral, escapando do fulminado olhar de Lulendo. Sem poder nem magia, invadido na sua propriedade pr\u00f3pria, o coitado tentava encontrar o corpo no pr\u00f3prio corpo, enquanto a beldade travava uma mo\u00e7\u00e3o de for\u00e7as com o opositor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais valente, pois a sua for\u00e7a, \u00e0 dimens\u00e3o c\u00f3smica, derivava da cosmogonia, pela qual se debatia, defendendo o povo, Makyese conseguiu reduzir Lulendo ao tamanho de migalhas de p\u00e3o, mas este recomp\u00f4s-se, entre tanto, j\u00e1 esvaziado de for\u00e7as. Ele chorava amargamente debaixo da potente perna da mulher, percebendo que n\u00e3o deixaria a terra por heran\u00e7a a seus filhos e familiares.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Cora\u00e7\u00e3o de humano, cora\u00e7\u00e3o de manteiga. Zengi, visceralmente recomposto, empurrou a mulher pelos ombros, salvando o coitadinho que se esva\u00eda debaixo do p\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O pobre deus, sem um fio de dignidade, esqueceu-se do buraco por onde entrara e acasalou a humilde bola com a parede, onde os pensamentos choviam em turbilh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 beira mar, Lulendo bateu as palmas, jogou tr\u00eas ovos de rajada \u00e0 extens\u00e3o da \u00e1gua, e o barco que o conduziria ao meio do mar apareceu, mas o condutor estava ultrapassado em doses de estucadas m\u00e1goas, porque o deus perdera a guerra e a terra, sendo substitu\u00eddo por outro mais carrasco que ele, por\u00e9m, d\u00e9bil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois do pesadelo com Lulendo, a paz voltaria a reinar no ninho do casal, se Zengi n\u00e3o se tivesse derretido pelo olhar flor de uma humana igual, o que causou a sua loucura, emanada das leis matrimoniais entre uma sereia e um ser humano. E Makyese voltou ao seu primeiro ber\u00e7o para rejuvenescer, porque era uma mitol\u00f3gica criatura em constante vir a ser.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dia tr\u00f4pego, ferozmente, avizinhava-se no munic\u00edpio do Bembe. 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