{"id":1285,"date":"2024-04-29T14:15:08","date_gmt":"2024-04-29T14:15:08","guid":{"rendered":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/?p=1285"},"modified":"2024-04-29T14:17:16","modified_gmt":"2024-04-29T14:17:16","slug":"isunji","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/2024\/04\/29\/isunji\/","title":{"rendered":"ISUNJI"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>H\u00e1 nomes que s\u00e3o fogos pendurados na pata da gente. Queimam-nos a cada passo que marcamos. S\u00e3o pragas, carmas, estigmas no corpo, como os seios siameses dum texto que li.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dedos do rel\u00f3gio infringem de dor a empanturrada barriga de Capombo: o sufoco da idade quarenta a torturar-lhe de cansa\u00e7o o corpo, os gemidos de parto da gravidez de quinze meses e o beb\u00e9 preso na jaula do ventre a negar-lhe o mundo, a enlouquecem cada vez mais. Toda calamidade do universo nos l\u00e1bios de Capombo, rugindo feroz como uma leoa ferida, e soltando estridentes gritos na boca da rua como uma crian\u00e7a faminta. Um rio d\u00e1gua quente invade de preocupa\u00e7\u00f5es o rosto do bairro. Uma corda misteriosa prende a lua. O tempo \u00e9 uma bicicleta sem rodas, estagnada no meio da noite. Tudo \u00e9 medo, susto, assombros, fugidelas, como um bagre astuto que escapa do anzol sufocante da morte. Nem a kimbandeira Guida, de marca ancestral, bisneta da av\u00f3 Umba, conseguia trazer ao mundo o misterioso beb\u00e9 escondido no pal\u00e1cio umbilical da m\u00e3e. Parece que conhecia de perto, pelos sentidos, os martelos do mundo, a ca\u00edrem a dois metros de c\u00f3lera no esferovite corpo da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dona Capombo estendida no ch\u00e3o da velha varanda, com todas as ora\u00e7\u00f5es gastas e s\u00faplicas comidas pelas longas horas de espera, pedia a qualquer anjo, a qualquer deus, que milagrasse ao mundo \u2013 a vinda de seu filho. Don Carvalho, por sua vez, prometia a todos os santos e est\u00e1tuas que, se sua esposa desse \u00e0 luz, daria um quinteto de sua riqueza aos mais favorecidos e, como pior dos sacrif\u00edcios, cortaria um p\u00e9 de suas pernas e daria de comer aos famintos porcos da vizinha Albertina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0De repente, o beb\u00e9 chutou os dedos das m\u00e3os para fora, e a pequena vizinhan\u00e7a que acompanhava de ouvidos o desfile dos acontecimentos, qual cachorros vadios, puseram-se a correr por destinos incertos. Alguns vizinhos at\u00e9 abandonaram o bairro para se escapar da ineditagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 Isso \u00e9 praga! Qual \u00e9 o crime que ela criminou? \u2013 Indagou a velha Ingo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0Nunca nos olhos de Isunji ou da humanidade sob jugo de uma col\u00f3nia, um beb\u00e9 juntaria todas as ferramentas de guerra e mudasse o curso da hist\u00f3ria, proclamando a independ\u00eancia da nascen\u00e7a. \u00c9 uma ruptura, um novo r\u00f3tulo de nascen\u00e7a, um beb\u00e9 a nascer com os dedos das m\u00e3os?!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Velha Ingo, parteira de v\u00e1rias esta\u00e7\u00f5es, com 53 s\u00f3is a morrem como praga nos seus chineses olhos, pediu que as curiosas jovens com idades de chamas acesas no labirinto das pernas, abandonassem o local. Mal as suas pegadas foram cobertas pela areia arrastada pelo vento, os dedos das m\u00e3os, no formato de uma asa, sa\u00edam para fora. Ali\u00e1s, afinal n\u00e3o eram dedos das m\u00e3os, nem formatos de uma asa tinham. Como as luzes incendiavam de escurid\u00e3o, quase que nada se via. Viu-se depois, quando no enraivecido expulso de Capombo, uma coisa meio estranha foi parar \u00e0s m\u00e3os da velha Ingo: Cabe\u00e7a humana, tronco meio peixe, meio humano. Na verdade, era um beb\u00e9 peixe, um peixe beb\u00e9 ou bepeixe a pedir \u00e1gua apontando as barbatanas das m\u00e3os para o rosto do pai. Com espanto e admira\u00e7\u00e3o, Don Carvalho desmaiou e levantou. Capombo, com o corpo no embalo da fadiga gritou-lhe:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u2013 Ch\u00e9 Carvalho, caralho! Acorda, porras! Porqu\u00ea que voc\u00ea desmaiou? Fui eu que nasci, ouviste?<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O beb\u00e9 pediu \u00e1gua quando Carvalho tomou logo consci\u00eancia, gritou:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u2013 Ham!<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u2013 O beb\u00e9 pediu \u00e1gua?<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 Qual beb\u00e9? O nosso?! Ai meu deus! Desmaiou e acordou com os olhos cheios de sentimentos distorcidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0Era mesmo um bepeixe falante, a chorar e a questionar se os filhos eram obras da natureza ou de Deus afinal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os vizinhos, com os olhos apontados na curiosidade, num piscar de l\u00e1bios, j\u00e1 tinham espalhado a not\u00edcia pela rua afora. Velha Ingo, com as experi\u00eancias no dorso do tempo, manteve a situa\u00e7\u00e3o calma e controlada, mas com a agulha do medo profundamente a picar-lhe o cora\u00e7\u00e3o. Devolveu o beb\u00e9 \u00e0 m\u00e3e e, com desculpas para se desfazer da ensanguentada roupa, desapareceu a vapor, esquecendo-se da crise da idade e, depois, a noite correu como uma lebre na meta do amanhecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">T\u00e3o logo os olhos do sol espreitavam no morro do amanhecer, um mar salgado de tumultos invadia a boca do bairro num mist\u00e9rio que o comandava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os conselheiros de Isunji decidiram estender sobre a esteira da mesa o problema da fam\u00edlia Carvalho. Afinal, Isunji n\u00e3o era qualquer local. Era uma cidade, embora no interior do pa\u00eds, tivesse a cabe\u00e7a erguida na Europa. S\u00e3o 24 casas com suas fazendas, est\u00e1bulos, armaz\u00e9ns e celeiros deixados pelos portugueses em meados dos anos 74. Tinha mesmo classe, uma classe europeizada que at\u00e9 quase n\u00e3o se falava a nativa l\u00edngua. Todos foram arrastados pelas correntes lingu\u00edsticas do portugu\u00eas, a n\u00e3o ser a palavra <em>isunji<\/em> (azar), em mem\u00f3ria da morte do pastor Kalupeteka. Um devoto crist\u00e3o e precursor de Isunji, que foi engolido por um camale\u00e3o. Narra-se que o pastor Kalupeteka ofendera um camale\u00e3o que imitara a cor preta da sua B\u00edblia e o camale\u00e3o enfurecido com o palavr\u00e3o, engoliu-o e depois abriu as asas e voou. Dizem que nunca mais apareceu. Era um camale\u00e3o voador da terra dos meninos gigantes. Um reino, algures entre marte e alguma coisa, habitado por camale\u00f5es de todas as esp\u00e9cies, desde camale\u00f5es meninos a camale\u00f5es gigantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a permiss\u00e3o da fam\u00edlia Carvalho, tinham de livrar a cidade de uma praga vindoura. Entretanto, o conselho decidiu p\u00f4r fim \u00e0 estranha e sofr\u00edvel vida do beb\u00e9. Qual espanto a invadir o quarto para o premeditado acto. O beb\u00e9, tal um remoinho evaporou da cama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um p\u00e2nico dominou a \u00e1rea. O bairro ajoelhou-se em perd\u00e3o rezando dois mil Pai Nosso e quinhentas Ave-Maria. Vizinha Albertinha, com a dispensa ro\u00edda pela mis\u00e9ria, foi cobrar do Don Carvalho a sua perna para alimentar os porcos. Afinal, a promessa \u00e9 uma corda de sisal pendurada no pesco\u00e7o. Para cumprir a cadeia da promessa e n\u00e3o perder a perna, Don Carvalho doou terras \u00e0 vizinha Albertina para que cultivasse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rel\u00f3gio \u00e9 uma carruagem. Puxou o tempo para vinte e tr\u00eas anos mais tarde, quando Isunji \u00e9 atacada pelos camale\u00f5es da terra dos meninos gigantes pela for\u00e7a da seca e da fome. Famintos e sedentos disparavam acesas l\u00ednguas e destru\u00edam com o peso dos seus corpos as casas, as coisas, como quem quisesse deixar em cinzas uma aldeia no tempo da guerra. Carregavam no est\u00f4mago uma fome antiga, e o povo com o f\u00f4lego da morte na ponta do cora\u00e7\u00e3o clamava por socorro, metendo-se em fuga para escapar da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Como um Cristo a ressuscitar dos mortos com uma manta branca a cobrir-lhe o corpo, vinha confusa, entre o c\u00e9u e a terra, uma bela jovem com cabelos lisos a banhar-lhe as costas, e com uma metralhadora de \u00e1guas entre as m\u00e3os. Era a bepeixe, agora mo\u00e7apeixe a entornar os rios d\u00e1gua fria e a congelar os camale\u00f5es voadores. Com o golpe de um rio, afugentou com o seu tempestuoso sopro os gigantes camale\u00f5es, e com as suas poderosas m\u00e3os, reuniu o vento e lan\u00e7ou-o para a vulc\u00e2nica montanha na margem esquerda de Isunji. Capombo reconheceu pelas m\u00e3os de barbatanas, j\u00e1 adultas, e pelos olhos de nuvens, que era sua filha, a quem reservara o nome de D\u00e1lia antes da nascen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cidade ajoelhou-se diante de D\u00e1lia, pedindo bu\u00e9 de perd\u00e3o \u00e0 rainha do rio Kusonhi: rio mais fundo que o rio Kwanza e mais largo que a Praia-dos-Generais. D\u00e1lia, de p\u00e9, entre as \u00e1guas que trazia consigo, beijou os pais e, num vulto, desapareceu, deixando nas mem\u00f3rias a ideia de que todos os filhos s\u00e3o importantes.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 nomes que s\u00e3o fogos pendurados na pata da gente. Queimam-nos a cada passo que marcamos. 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