{"id":1281,"date":"2024-04-29T14:09:43","date_gmt":"2024-04-29T14:09:43","guid":{"rendered":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/?p=1281"},"modified":"2024-04-29T14:11:34","modified_gmt":"2024-04-29T14:11:34","slug":"as-baladas-poeticas-do-rocha-pinto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/2024\/04\/29\/as-baladas-poeticas-do-rocha-pinto\/","title":{"rendered":"As Baladas Po\u00e9ticas Do Rocha Pinto"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um encontro perigoso entre a vida e morte. S\u00e3o 4:00 da manh\u00e3 e os donos da energia acabaram de cortar na Avenida 21 de Janeiro, Rocha Pinto, ruas excitadas, mas as mangueiras quase sempre secas. Na rua, o bairro, as casas como se estivessem uma por cima de outra. Uma arquitetura para os que s\u00f3 precisam de abrigo. Talvez \u00e9 aqui onde todas as coisas passam, mas n\u00e3o as pessoas em seguran\u00e7a. Aqui falta tudo. At\u00e9 a vida nos escapa por entre os dedos como se fosse vultos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outros donos vigiam as ruas, os becos, quem sai cedo sabe que sua vida \u00e9 um sem\u00e1foro que s\u00f3 marca o vermelho, alias, n\u00e3o importa o tempo, a vida e a morte andas juntos, eis o sem\u00e1foro marcando verde e vermelho, sempre. A vida \u00e9 essa realidade contradit\u00f3ria. Os donos da rua s\u00e3o crian\u00e7as e jovens alguns com sonhos, outros nem por isso, ent\u00e3o realizam cedo os seus sonhos cobrando dos outros os seus pertencentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estas cr\u00f3nicas e viv\u00eancias do sombrio pa\u00eds e triste nunca impossibilitaram Igra\u00e7a de ir contra a madrugada obter os produtos que ir\u00e3o alimentar os seus filhos e seu neg\u00f3cio. A minha Igra\u00e7a sobre salta da sua cama, o brilho de um c\u00e9u limpo f\u00e1-la sentir que s\u00e3o 6:00 da manh\u00e3. Mesmo t\u00edmido, a clara presen\u00e7a que traz a alvorada, envolve-se com olhos numa t\u00edmida disputa de amor e \u00f3dio, ao desadormecer as p\u00e1lpebras ou se rendem ou lutam contra o sono.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela acha sempre que est\u00e1 atrasada para ir abastecer continuamente as manh\u00e3s no mercado do Triangulo com a sua muamba. Eu durmo na sala, oi\u00e7o tudo, finjo dem\u00eancia porque minha conversa \u00e9 com retracto antes de enfrentar o mundo. Naquele dia tive saudades dessa rotina, o corpo fora da ordem da casa \u00e9 den\u00fancia da aus\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Regressando \u00e0 casa, a rua em que sigo caminhando outras vidas acontecem. O tempo estava dif\u00edcil para todos, at\u00e9 para os donos das ruas, mais uma noite de ronda sem sucesso que n\u00e3o conseguem tirar p\u00e3o. Ent\u00e3o eu apareci como o \u00faltimo milagre antes que os primeiros raios de sol sa\u00edrem da incubadora e iluminassem o dia do bairro. O l\u00edder deles Cicatriz na Cara \u00e9 respeitado e mais conhecido pela sua viol\u00eancia animista. Foi ele que tirou p\u00e3o e estripou um vendedor ambulante de telefones da Moagem, a poucos metros do Col\u00e9gio dos azulados localizados perto do mesmo local.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu vinha a chegar de longe ao longo da rua 3, magro, t\u00edmido e com poucos sorrisos. Ele expediu sua equipe em duas partes, uma na Igreja do Senhor na Terra e umoutra na entrada da Pedonal da Moagem. Atento, j\u00e1 tinha entendido os movimentos no c\u00edrculo deles e que a armadilha estava se fechando ao redor dele. Eu n\u00e3o conseguia imaginar-me estar morto cedo e perder os meus m\u00edseros 1000 esta manh\u00e3, para n\u00e3o ser intimidado improvisei uma estrat\u00e9gia de sa\u00edda em campo. Avistei de longe um carro que fazia um cortejo f\u00fanebre. Juntei-me a uma m\u00e3e que chorava amargamente o seu filho, passei a chorar tamb\u00e9m l\u00e1grimas frias enquanto acompanhava a interpreta\u00e7\u00e3o de uma can\u00e7\u00e3o f\u00fanebre directamente do folclore Kimumbu para fingir que recebi a not\u00edcia do falecimento de um ente querido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8220;Eu que j\u00e1 n\u00e3o tenho irm\u00e3o como fico\u201d!<\/em> Entonava com a minha voz melodiosa. Junto com a voz, a banda Palata, Kimumbu de triste mem\u00f3ria, minha voz soava como uma crian\u00e7a de coro. O primeiro flanco do grupo do lado da igreja que se aproximou daquela senhora visivelmente arrastada pela tristeza e melancolia. Ent\u00e3o disse um deles: <em>&#8220;deixem a mamoite passar. Est\u00e1 sem be\u00e7aca, est\u00e1 gato.&#8221;<\/em> O outro grupo ao me ver varrido pelas m\u00e1s not\u00edcias, tamb\u00e9m, disse: \u201c <em>na Cara, aqui tamb\u00e9m n\u00e3o tem p\u00e3o para lhe tirar esse wi \u00e9 s\u00f3 um rab\u00e3o&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu ouvindo eles natural mente, acelerei o meu ritmo musical e choro, desta vez acompanhado de gestos mais espectaculares, tirei a mochila e levantei os bra\u00e7os e atirei-me ao ch\u00e3o. Cicatriz na Cara e o seu gangue descobriram que n\u00e3o conseguiriam p\u00e3o de mim, experimentado e testado pela melancolia e ainda chorando l\u00e1grimas frias. \u201c<em>Passam, passam r\u00e1pido para n\u00e3o estragarem os outros p\u00e3es que vir\u00e3o\u201d,<\/em> dizia ele \u00e0 medida que eu passava perto dele e segurando fortemente a minha mochila no peito. Eu s\u00f3 queria chegar a casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Igra\u00e7a tamb\u00e9m tem um mundo a enfrentar, o mundo \u00e9 o nosso bairro. A caminho da rua esse mundo acontece, alguns b\u00eabados ainda estavam a espumar o seu \u00e1lcool nos bares do Apetece, as m\u00fasicas surgem de todos os cantos da rua e de formas incertas, dum lado um bom Kuduro, doutro a Kizomba, uma mistura que faz um novo estilo sem identifica\u00e7\u00e3o, s\u00f3 castigo para os ouvidos. Ela ri com todos, faz quest\u00e3o de acenar as pessoas como gesto de sauda\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 a pra\u00e7a o lugar onde os mortos adoram marcar encontros, as pessoas de sei l\u00e1 onde l\u00e1 se cruzam, passam-se por meros olhares? Um mercado improvisado por de baixo da ponte, \u00e9 l\u00e1 onde comem muita gente, \u00e9 l\u00e1 onde tamb\u00e9m morrem mulheres que tentam salvar suas casas da epidemia da fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os do Col\u00e9gio Azul chegam e a\u00ed come\u00e7a um verdadeiro romance, ora dram\u00e1tico, ora hist\u00f3rico ou nada. Naquele dia, n\u00e3o era o dia de sorte, quando o Col\u00e9gio Azul chegou o pandem\u00f3nio come\u00e7ou, o correr desorganizado, elas n\u00e3o sabiam se salvam as vidas ou os est\u00f4magos dos filhos. Uma delas viu-se a perder tudo e como n\u00e3o podia perder mais nada, encheu-se de coragem para n\u00e3o perder o est\u00f4mago dos filhos. Clamou que a deixassem ir, era uma confus\u00e3o, todas elas ao verem aquele gesto decidiram enfrentar os do Col\u00e9gio Azul. Um deles para tentar acalmar os \u00e2nimos usa o pretexto da sua falsa autoridade e fere mortalmente uma mulher, uma m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos, absolutamente todos, o bairro se encheu de f\u00faria, os jovens, os donos das ruas, as vendedeiras formaram uma linha de frente contra os do Col\u00e9gio Azul. A atmosfera cinzenta estendeu-se at\u00e9 o sol morrer com caos, tiros, medo, inseguran\u00e7a. Uma atmosfera n\u00e3o mais cinzenta que os sentimentos da fam\u00edlia, das vendedeiras e dos homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Assim construiu-se mais um cap\u00edtulo desta longa tragedia naquele bairro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E no final do dia, Igra\u00e7a s\u00f3 quer voltar para casa descansar do estresse da pra\u00e7a e talvez abra\u00e7ar os filhos, como todas as mulheres que levam suas casas enfermas com a epidemia da fome para trazer rem\u00e9dios para os est\u00f4magos. Amanh\u00e3 ser\u00e1 mais um dia de poesia concreta que esta mulher enfrenta para levar p\u00e3o a casa. Ela cansada, na sua humilde varanda, bebendo uma cerveja, olhos profundos e com uma tristeza que brilha por ver os seus filhos ali com ela, sorri. Os seus g\u00e9meos cassulas no colo fazem o mundo parecer melhor e esquecer as baladas po\u00e9ticas do Rocha Pinto.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 M\u00e3e, o que significa ser m\u00e3e?<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 Significa estar com voc\u00eas aqui, agora!<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um encontro perigoso entre a vida e morte. S\u00e3o 4:00 da manh\u00e3 e os donos da energia acabaram de cortar na Avenida 21 de Janeiro, Rocha Pinto, ruas excitadas, mas as mangueiras quase sempre secas. 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