{"id":1277,"date":"2024-04-29T13:47:59","date_gmt":"2024-04-29T13:47:59","guid":{"rendered":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/?p=1277"},"modified":"2024-04-29T14:07:45","modified_gmt":"2024-04-29T14:07:45","slug":"o-escravo-da-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/2024\/04\/29\/o-escravo-da-liberdade\/","title":{"rendered":"O Escravo Da Liberdade"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No canto das paredes, no esqueleto adjacente da casa, em clima meio embriagado, descia-me a solid\u00e3o. Os p\u00e9s aplaudiam a terra como se o peito do p\u00e9 arrefecesse o equil\u00edbrio das m\u00e3os. Sentado, num mon\u00f3logo ao vento, cantava a can\u00e7\u00e3o dos combatentes. Pintei meu interior \u00e0 cor da puberdade. Sorri leviano. No rosto campava-me a distrac\u00e7\u00e3o dos gl\u00f3bulos vegetarianos. Os rumores, a sombra, os pensamentos terrestres, tudo gozava \u00e0 apari\u00e7\u00e3o da real idade real. Debru\u00e7ando sobre o estado dissolvente, bem no meu cantinho, observando a vida no mais profundo, cogito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes daquele dia, morri. Acabei de viver um dia sem me despedir. Cansei-me de olhar bem perto sem poder de perto tocar o que vi. Estava entre as pernas, enjoado de tanto trabalhar. O resultado era, sen\u00e3o, beijar o escorregadio e el\u00e1stico nutriente qu\u00edmico quase sem cheiro. Um grupo de fantasmas, dentre a multid\u00e3o, l\u00e1 estava eu, num esperma abra\u00e7ando \u2018\u2018Z\u00f3ide\u2019\u2019 sem no\u00e7\u00e3o do mundo. Plantei-me nu com vento enquanto o vento no convento soprava levianamente. Germinava entre as matas queimadas e uma enorme Tunda Vala. Os arbustos estavam sendo cortados. Entre as paredes, sentia-me molhado como se de boca aberta um c\u00e3o desesperadamente discutisse de tanta sede. Era quase um buraco negro de camadas vermelhas e uma trompa bem no meio do caminho. O buraco era t\u00e3o fundo que fazia eco ao gritar \u2013 embora fosse escuro, corr\u00edamos para chegar ao z\u00e9nite do portal mais estranho que o torneio d\u00b4onde v\u00ed(emos). Corremos e corremos\u2026 e de repente:<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 P\u00e1ra! N\u00e3o p\u00e1ra!<\/p>\n<p>\u2013 O que foi?!<\/p>\n<p>\u2013 Nada n\u00e3o\u2026eu ainda n\u00e3o gozei.<\/p>\n<p>\u2013 Tudo bem\u2026 vamos a isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parecia-me que a Tunda Vala estava conversando. Ela mexia-se de um lado para o outro: \u2013 P\u00e1ra, p\u00e1ra! \u2013 era mesmo um desejo de curiosidade subindo a minha mente. Foi quando depois duns minutos, n\u00f3s escorreg\u00e1vamos enquanto derramava entre as paredes vermelhas cobertas de arbustos, \u00e1guas melosas por todo o lado. Ao olhar para tr\u00e1s percebi que todos quanto estavam na mesma corrida comigo haviam desaparecido. Entrei t\u00e3o r\u00e1pido que nem deu pra perceber. Foi quando gritei t\u00e3o forte: Socoooorrooooooooo&#8230;<\/p>\n<p>O eco ecoava ecoando profundamente sem nenhum feedback. Tornei-me num recluso, num prisioneiro sem ter cometido qualquer crime. Eu estava bem l\u00e1, fechado durante cinco meses. Empurrava as laterais daquelas grades e escorregadas camadas num formato bola. Enquanto isso, do outro lado da margem, ouvia-se barulho e movimentos estranhos. Estava estranho num mundo estranho! O que se pode esperar?!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles eram ingratos. Nunca senti falta de nada, mas, dentre todo aquele l\u00edquido vermelho, a fome penetrava no est\u00f4mago. Mais quatro meses, sem reclamar, decidem libertar-me das correntes do medo \u2013 entendi que n\u00e3o haviam encontrado crime algum em mim. Ao sair, deu uma vontade de chorar. Vi gigantes, homens de longos cabelos iguais aos das suas esposas. Entre sombras e penumbras, em meios sorrisos rasgados, o espa\u00e7o parecia-se com o c\u00e9u donde sa\u00ed. Neste exacto momento, chorei as primeiras palavras:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00eas s\u00e3o mesmo loucos! Tirem-me estas cordas!<\/p>\n<p>Tinha raz\u00e3o quando pensei em gigantes. Estava fora de mim, admirado com a situa\u00e7\u00e3o. Chorando, chorava sem parar enquanto o sistema todo estava sorrindo e festejando. Era uma m\u00e9dia de cinco gigantes. Nunca tinha sentido o prazer biol\u00f3gico, mas, naquele dia, caguei. Caguei-me por completo e eles limpavam-me por inteiro e sem hesitar.<\/p>\n<p>\u2013 Corta-lhe o cord\u00e3o umbilical porque hoje vamos festejar!<\/p>\n<p>\u2013 Com certeza, querida.<\/p>\n<p>\u2013 Vai avisar que ele j\u00e1 veio ao mundo.<\/p>\n<p>\u2013 Deixa comigo, meu bem! \u00c9 pra j\u00e1.<\/p>\n<p>O ambiente estava a ficar interessante. Mordia-me do cora\u00e7\u00e3o ao ponto mais alto da felicidade. Gritando, gritei silenciosamente: \u2013 Cambadas de gigantes. Eu vi mais de mil montanhas, arbustos gigantes, uma enorme fogueira. Eles sorriam e felicitavam. Achei que seria maltratado e posto numoutra cela. Revirou a hist\u00f3ria.\u00a0 Trataram-me como se fosse um Rei.<\/p>\n<p>Este mundo onde vim parar \u00e9 muito ca\u00f3tico. Bem naquele dia em que pensei em pensar em acostumar-me com a ideia de viver no mundo deles, virgulei meu \u00e2mago. A comida vinha de um \u00f3vulo com uma pontinha aonde saia um l\u00edquido branco que eles chamavam de leite. Era sem sabor. Enquanto chupilingava as \u00e1guas brancas, em volta dum jango, conversavam sobre o futuro.<\/p>\n<p>\u2013 Sinto que esta crian\u00e7a vai nos dar tudo que quisermos.<\/p>\n<p>\u2013 Puxa vida, ele saiu mesmo o pai.<\/p>\n<p>\u2013 Ainda duvidas? \u2013 perguntou Z\u00f3ide.<\/p>\n<p>\u2013 Claro que n\u00e3o, Vajandanda. Era s\u00f3 para te ouvir.<\/p>\n<p>\u2013 Tenha cuidado com as palavras. O meu filho vai-me sustentar, quando crescer vai servir como minha protec\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios momentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 nome me deram. Chamaram-me de crian\u00e7a, e o mais intrigante \u00e9 que minutos depois chamaram-me noutro nome, filho. Eu n\u00e3o entendia mais. N\u00e3o sabia se era crian\u00e7a ou se era filho. A partir daquele momento passei a ser kaxiko de mim mesmo. Gostava mais quando \u00e9ramos uns l\u00edquidos em grupo, nem sabia sequer que precisaria de um tecto para morrer lentamente. \u2013 \u00c9 chato viver e servir a mim mesmo, quanto mais aos outros?! Eu sou alma. O que fiz para merecer tanto desconforto? Acredite que quando me tornei homem, passei a trabalhar sem parar, era mesmo kaxiko dos homens. Eu era uma alma improvisada num corpo humano. Confesso-vos que uma das empresas que mais me lixava \u00e9 o lixo do meu corpo. Trabalhei quase uma eternidade e o sal\u00e1rio \u00e9 a ingratid\u00e3o, mesmo depois da minha exist\u00eancia, de corpo ao sol me rebento reflectindo sobre o descompasso e a metade da injusti\u00e7a que agruparia o meu interior.<\/p>\n<p>Calei os dedos para n\u00e3o inventar o que a boca n\u00e3o seguraria dizer. Depois de tanta hist\u00f3ria, hoje a Tunda Vala expirou, atingiu a menopausa, j\u00e1 n\u00e3o chorava mais l\u00e1grimas de sangue, nem cozinhava mais maxanana, nem molho de kasakaya. Outras almas decidiram ficar em coma e coma morrendo de asfixia.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Hoje estou onde estou. Nem sei onde estou!<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Aqui, onde estou, \u00e9 o limite dos sonhos, realidade dura!<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Espero a decis\u00e3o do Gigante dos Gigantes!<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Eles dizem que v\u00eam do p\u00f3 e ao p\u00f3 voltar\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Morri em mim mesmo, libertei-me de mim!<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Agora entendo por que a terra come e o c\u00e9u chora!<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Estou voando.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No canto das paredes, no esqueleto adjacente da casa, em clima meio embriagado, descia-me a solid\u00e3o. Os p\u00e9s aplaudiam a terra como se o peito do p\u00e9 arrefecesse o equil\u00edbrio das m\u00e3os. 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