{"id":1223,"date":"2024-04-25T07:43:19","date_gmt":"2024-04-25T07:43:19","guid":{"rendered":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/?p=1223"},"modified":"2024-04-29T23:13:26","modified_gmt":"2024-04-29T23:13:26","slug":"algo-novo-na-literatura-angolana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/2024\/04\/25\/algo-novo-na-literatura-angolana\/","title":{"rendered":"Algo Novo Na Literatura Angolana"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um acontecimento digno de refer\u00eancia ocorreu na primeira semana deste m\u00eas de Dezembro, e, para meu espanto, pouca aten\u00e7\u00e3o despertou nos \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o social, tirando uns tr\u00eas par\u00e1grafos de uma not\u00edcia no Jornal de Angola, a anunci\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tratou-se do lan\u00e7amento da publica\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u201cTunda Vala \u2013 Agris Magazine\u201d, uma antologia de poemas, contos e textos ensa\u00edsticos dos integrantes do Movimento Litteragris.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O acontecimento \u00e9 digno de refer\u00eancia porque sinaliza o surgimento, no contexto da literatura angolana, nestes anos de m\u00f3rbida estagna\u00e7\u00e3o criativa e em mat\u00e9ria de ideias, de um grupo de jovens conscientes do seu papel e do seu valor enquanto praticantes da arte de escrever. Para os entender, antes de ir \u00e0 leitura dos seus textos criativos, fomos ao encontro do seu discurso program\u00e1tico, patente substantivamente no editorial e no \u201cManifesto Litteragris\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os jovens autores identificam-se como membros de uma mesma gera\u00e7\u00e3o e se prop\u00f5em a \u201cderrubar barreiras\u201d no caminho da inova\u00e7\u00e3o. O seu manifesto \u00e9 apresentado como uma s\u00famula \u201cdos princ\u00edpios est\u00e9ticos que norteiam as nossas actividades, enquanto movimento liter\u00e1rio\u201d e, \u00e9 importante sublinhar, \u201crespeitando e aceitando as po\u00e9ticas vigentes\u201d, sem perder de vista que a literatura \u00e9 um \u201cjogo eterno no decorrer do qual, aqueles que n\u00e3o souberem jogar, acabam sendo substitu\u00eddos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Movimento Litteragris define-se, ainda, como \u201cuma associa\u00e7\u00e3o formada por autores, mais ou menos da mesma \u00e9poca, que compartilhando analogamente o mesmo conceito de humanidade e de arte, estabelecem uma ideo-est\u00e9tica comum\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os jovens escritores declaram que \u201cdepois de um estudo profundo\u201d, conclu\u00edram pela exist\u00eancia, na Literatura Angolana, de tr\u00eas correntes liter\u00e1rias que \u201cimpregnaram-se como que raiz\u201d: o romantismo, segundo eles, cultivado por autores como Jos\u00e9 da Silva Maia Ferreira e Cordeiro da Mata; o neo-realismo, em que incluem Viriato Cruz, Agostinho Neto, Ant\u00f3nio Jacinto e Alexandre D\u00e1skalos; e o simbolismo, segundo eles, iniciado em meados da d\u00e9cada de 60 por Ruy Duarte de Carvalho, David Mestre e Jorge Macedo, \u201cadoptado como corrente primeira\u201d pelos poetas do p\u00f3s-independ\u00eancia (Jos\u00e9 Lu\u00eds Mendon\u00e7a, Eduardo Bonavena, Jo\u00e3o Maimona, Jo\u00e3o Tala, Lopito Feij\u00f3) &#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Feito o diagn\u00f3stico da Literatura Angolana, os novos autores \u201crompem os muros da timidez\u201d e prop\u00f5em uma po\u00e9tica que eles pr\u00f3prios consideram suis generis. Revelando algum conhecimento das vanguardas art\u00edstico-liter\u00e1rias dos s\u00e9culos XIX e XX e dos seus textos program\u00e1ticos, com realce para o simbolismo e o surrealismo, e das principais correntes filos\u00f3ficas de ent\u00e3o, como o intuicionismo de Henri Bergson e o positivismo de Auguste Comte, assumem que \u201ccontra todas as formas de aprisionamento (poesia de forma fixa, rima e outras categorias nefastas) \u201d adoptam o verso livre, a coloca\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo no fim do texto e o n\u00e3o uso da ap\u00f3strofe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os que perfilham o Manifesto Litterargis, \u201cno seu macro-instintivo exerc\u00edcio de cria\u00e7\u00e3o podem contemplar um momento actual, podem reviver por instante um facto antigo, e podem ainda, divinalmente, antecipar o futuro\u201d. Essa postura m\u00edstico-filos\u00f3fica leva-os, pretensamente, \u201ca ir mais al\u00e9m do concreto, mais al\u00e9m do palp\u00e1vel, para escrevermos as impercept\u00edveis armaduras do inexplic\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os jovens entendem que o sujeito poeta n\u00e3o tem mais uma p\u00e1tria definida. \u201cNum instante, pode ser daqui, noutro, de acol\u00e1, e no mesmo instante, tanto pode ser daqui como de acol\u00e1\u201d. E, n\u00e3o tendo uma ideologia pol\u00edtica, \u201ctem a sua pr\u00f3pria ideologia e faz a sua pr\u00f3pria pol\u00edtica\u201d. E, \u201cn\u00e3o tendo uma, \u00e9 sua pr\u00f3pria religi\u00e3o\u201d e liberta-se de tudo em prol da poesia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levantam-se contra a morte e \u201ct\u00eam os olhos como que holofotes centrados na posteridade\u201d, numa busca incessante da imortalidade, que ser\u00e1 poss\u00edvel alcan\u00e7ar \u201catrav\u00e9s de infinitas transgress\u00f5es a n\u00edvel dos escritos\u201d. Os autores do manifesto, perfeitamente claros na sua vis\u00e3o, proclamam aos c\u00e9us e aos homens: \u201cmais do que simples jovens, somos fil\u00f3sofos e poetas\u201d.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: left;\">Programa \u201cversus\u201d cria\u00e7\u00e3o<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reza um ditado que no inferno abundam as pessoas cheias de boas inten\u00e7\u00f5es. Logo, mais do que pelo seu discurso program\u00e1tico, um escritor deve ser avaliado pela sua obra criativa. No caso dos autores do Movimento Litteragris, resta-nos ent\u00e3o lan\u00e7ar um olhar sobre os seus poemas, contos e cr\u00f3nicas. Na antologia \u201cTunda Vala\u201d est\u00e3o reunidos 58 poemas, seis contos e cinco ensaios de um total de 26 autores nascidos em v\u00e1rias prov\u00edncias do pa\u00eds entre 1982 e 1995. O grupo de autores inclui homens e mulheres, estudantes universit\u00e1rios, do ensino m\u00e9dio e secund\u00e1rio, professores, jornalistas, enfermeiros, pasteleiros, educadores sociais\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os poemas, sendo diversos na tem\u00e1tica, encarnam a po\u00e9tica do Movimento e surgem, em muitos casos, como ap\u00eandices ou prolongamentos ilustrativos e program\u00e1ticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mariyeth Baptista Van-D\u00fanem, \u201cSil\u00eancios\u201d: \u201cA vida \u00e9 uma escalada de transgress\u00f5es \/ Ningu\u00e9m passar\u00e1 a posteridade com versos mortais\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ernesto Daniel, \u201cAgrisp\u00e1tria\u201d: \u201cCada verso \u00e9 uma meta \/ com que se constr\u00f3i \/ esta p\u00e1tria de cultivar poemas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luther Kiculo: \u201cUm olhar estr\u00e1bico \/ sobre o passado que se pensou eterno. \/\/ Passos resolutos em busca do reino perdido, \/ sagrar-se imortal ante a hipocrisia do aplauso. \/\/ Perfurar o tempo e alimentar tunda vala \/ sem esperar quedas pl\u00favio ou m\u00e9tricas \/ que nem s\u00e3o fitas de gera\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde j\u00e1, o que se pode dizer \u00e9 que, no contexto geral de mediocridade reinante no panorama das novas gera\u00e7\u00f5es (as excep\u00e7\u00f5es existem e est\u00e3o salvas!), com o Movimento Litteragris estamos diante de um naipe de autores cuja ainda brev\u00edssima obra revela uma genu\u00edna inquietude existencial e uma ambi\u00e7\u00e3o leg\u00edtima de romper barreiras e se darem a conhecer, em toda a sua idiossincrasia, como sujeitos do seu tempo, da sua \u00e9poca. Eles querem se fazer ouvir, do fundo da sua alma, e parecem muito conscientes dos caminhos que devem trilhar. E o facto de se constitu\u00edrem tamb\u00e9m em grupo de estudos de tem\u00e1ticas liter\u00e1rias e culturais indicia que est\u00e3o apostados em ir muito mais al\u00e9m da breve fama e a viajar pelos desertos da solid\u00e3o criativa, desertos esses que s\u00e3o lugares onde o homem (ou a mulher) se confronta com o abismo de si mesmo e do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A prop\u00f3sito destes jovens, apraz-me citar o fil\u00f3sofo e ensa\u00edsta portugu\u00eas Eduardo Louren\u00e7o: \u201cEsta gera\u00e7\u00e3o foi testemunha de uma debandada de valores torrenciais, mas chegou tarde para ser desfeita entre os escombros. (\u2026). Os escombros parecem-lhes naturais porque nasceram entre eles. T\u00eam de viver entre est\u00e1tuas partidas sem se poder servir delas nem as amar. Para dar um sentido \u00e0 vida, descobriram entre o mundo calcinado a est\u00e1tua miraculosamente intacta da Poesia. De todos os valores submersos mas de novo postos a flutuar pelos mesmos que os afundaram, s\u00f3 a Poesia lhes pareceu digna do seu culto. (\u2026). Nela se salvaram como poetas acreditando por leg\u00edtima convic\u00e7\u00e3o e natural interesse que atrav\u00e9s dela se salva o melhor dos homens\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong><em>(Eduardo Louren\u00e7o, Tempo e Poesia, Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua, Lisboa, 1987, p\u00e1gs. 65\/66).<\/em><\/strong><\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um acontecimento digno de refer\u00eancia ocorreu na primeira semana deste m\u00eas de Dezembro, e, para meu espanto, pouca aten\u00e7\u00e3o despertou nos \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o social, tirando uns tr\u00eas par\u00e1grafos de uma not\u00edcia no Jornal de Angola, a anunci\u00e1-lo.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[78],"ppma_author":[79],"class_list":["post-1223","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-outros","tag-fortuna-critica","author-isaquiel-cori"],"acf":[],"authors":[{"term_id":79,"user_id":0,"is_guest":1,"slug":"isaquiel-cori","display_name":"Isaquiel Cori","avatar_url":{"url":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/isaquiel-cori.jpeg","url2x":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/isaquiel-cori.jpeg"},"author_category":"","first_name":"","last_name":"","user_url":"","first_name_2":"","last_name_2":"","job_title":"","description":""}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1223","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1223"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1223\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1227,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1223\/revisions\/1227"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1223"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1223"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1223"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=1223"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}