{"id":1209,"date":"2024-04-24T23:10:14","date_gmt":"2024-04-24T23:10:14","guid":{"rendered":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/?p=1209"},"modified":"2024-05-10T08:21:50","modified_gmt":"2024-05-10T08:21:50","slug":"a-ilusao-da-sociedade-intelectual-em-os-discursos-do-mestre-tamoda-de-uanhenga-xitu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/ulitteragris\/2024\/04\/24\/a-ilusao-da-sociedade-intelectual-em-os-discursos-do-mestre-tamoda-de-uanhenga-xitu\/","title":{"rendered":"A Ilus\u00e3o Da Sociedade Intelectual Em \u2018\u2018Os Discursos Do \u2018Mestre\u2019 Tamoda\u201d, De Uanhenga Xitu."},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<blockquote><p>O objectivo da literatura n\u00e3o \u00e9 o prazer, mas o conhecimento do homem e da realidade (\u00c1lvaro Lins, 1963, p. 159).<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O presente estudo pretende explorar, por meio da obra \u201cOs Discursos do &#8216;Mestre&#8217; Tamoda,\u201d uma perspectiva intrigante que aborda quest\u00f5es relacionadas ao colonialismo e intelectualismo, implicando na din\u00e2mica da sociedade intelectual actual. Nesta an\u00e1lise, mergulharemos na representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de &#8216;Mestre&#8217; Tamoda, examinando como essa figura emblem\u00e1tica personifica n\u00e3o apenas a conflituosidade inerente \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m a ilus\u00e3o da sociedade intelectual actual.<\/p>\n<p>Para melhorar a compreens\u00e3o que pretendemos transmitir por meio de nossa leitura, nossa transdu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria ser\u00e1 orientada pelo conceito sociol\u00f3gico de assimila\u00e7\u00e3o, tendo como base metodol\u00f3gica o materialismo filos\u00f3fico como teoria da literatura \u2013 Uma Teoria da Literatura Cient\u00edfica, Cr\u00edtica e Dial\u00e9ctica.<\/p>\n<p>Assimila\u00e7\u00e3o \u00e9 o processo social em virtude do qual indiv\u00edduos e grupos diferentes aceitam e adquirem padr\u00f5es comportamentais, tradi\u00e7\u00f5es, sentimentos e atitudes da outra parte (Lakatos, 1990, p. 88).<\/p>\n<p>A partir da cita\u00e7\u00e3o acima enfatizamos que a assimila\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f3meno social complexo que envolve n\u00e3o apenas a ado\u00e7am de comportamentos externos, mas tamb\u00e9m a internaliza\u00e7\u00e3o de sentimentos e atitudes associados \u00e0 cultura dominante. Esse processo pode ter implica\u00e7\u00f5es significativas para a identidade individual e colectiva, bem como para as din\u00e2micas culturais e sociais em uma sociedade.<\/p>\n<p>Considerando a assimila\u00e7\u00e3o, buscaremos determinar como ele proporciona o ambiente, os costumes, os tra\u00e7os grupais e as ideias sobre o funcionamento de uma sociedade, tanto no passado quanto no presente em \u2018\u2018Os Discursos do \u2018Mestre\u2019 Tamoda\u201d, de Uanhenga Xitu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A obra em quest\u00e3o \u00e9 uma novela que, estruturalmente, consiste em 6 cap\u00edtulos, sendo o sexto cap\u00edtulo o mais extenso e fastidioso. Em cada cap\u00edtulo, a personagem principal, \u201cTamoda\u201d, apresenta um discurso ou participa de conversas com outros personagens para demonstrar seu portugu\u00eas memorizado e dicionarizado.<\/p>\n<p>A personagem \u201cMestre\u201d Tamoda desempenha um papel significativo, representando, em primeiro lugar, a conflituosa situa\u00e7\u00e3o colonial e, em segundo lugar, a ilus\u00e3o da sociedade intelectual, conforme indicado pelo t\u00edtulo de nossa abordagem.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, cabe-nos apresentar a conflituosidade t\u00edpica de uma situa\u00e7\u00e3o colonial representada por \u201cMestre\u201d Tamoda, cuja l\u00f3gica de aprendizado corresponde a uma submiss\u00e3o imposta pelo colonizador. Essa l\u00f3gica opressora ignora a exist\u00eancia dos colonizados por meio da pol\u00edtica de assimila\u00e7\u00e3o, considerada uma tentativa de destruir a tradi\u00e7\u00e3o cultural das suas col\u00f3nias africanas e, por meio da sua europeiza\u00e7\u00e3o, criar uma elite privilegiada que colaboraria com os colonizadores.<\/p>\n<blockquote><p>Ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, num contexto pol\u00edtico e social europeu onde o princ\u00edpio da \u2018assimila\u00e7\u00e3o\u2019 fora substitu\u00eddo por uma cada vez maior autonomia e mesmo independ\u00eancia, o luso-tropicalismo de Gilberto Freyre (1933\/1992) \u2013 segundo o qual os portugueses teriam uma especial aptid\u00e3o para lidar com os povos dos tr\u00f3picos \u2013 transformou-se num instrumento de justifica\u00e7\u00e3o para a afirma\u00e7\u00e3o da especificidade do colonialismo portugu\u00eas (Sousa, 2008 p.55).<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de assimila\u00e7\u00e3o foi, sem d\u00favida, uma esp\u00e9cie de for\u00e7a influenciadora que contribuiu fortemente para a desestrutura\u00e7\u00e3o do pensamento. Isso fez com que as pessoas adoptassem uma mentalidade voltada para um tipo de modismo, levando ao surgimento dos &#8216;assimilados&#8217;.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a busca pela assimila\u00e7\u00e3o resultou na ado\u00e7am acr\u00edtica de ideias e comportamentos populares, muitas vezes \u00e0 custa da reflex\u00e3o individual e do pensamento cr\u00edtico. No seu contexto, isto \u00e9, no passado para ser tido como intelectual era preciso ser um assimilado, isso fruto da educa\u00e7\u00e3o colonial.\u00a0 Vejamos: \u2018\u2018Tamoda era aquele que est\u00e1 na Moda\u2019\u2019 (Uanhenga Xitu, 1984, p. 33).<\/p>\n<p>Segundo o Diploma Legislativo n\u00ba 237 de 1931,<\/p>\n<blockquote><p>as condi\u00e7\u00f5es para se tornar um assimilado era: Ter abandoando inteiramente os usos e costumes da ra\u00e7a negra; falar e escrever correctamente a l\u00edngua portuguesa; adaptar a monogamia e exercer profiss\u00e3o, arte ou of\u00edcio compat\u00edvel com a civiliza\u00e7\u00e3o europeia, ou ter rendimento que sejam suficientes para prover aos seus alimentos, compreendendo sustento, habita\u00e7\u00e3o e vestu\u00e1rio, para si e sua fam\u00edlia (p\u00e1g. 09-10).<\/p><\/blockquote>\n<p>Ao observarmos mais de perto, essa pol\u00edtica impactou profundamente a capacidade das pessoas de desenvolverem perspectivas independentes. A conformidade era valorizada, e ser &#8216;Tamoda&#8217;, para usar a express\u00e3o da obra, significava estar alinhado com as tend\u00eancias em voga, em vez de buscar compreender a complexidade e a diversidade das ideias presentes na sociedade.<\/p>\n<p>Assim, a pol\u00edtica de assimila\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas moldou o pensamento colectivo, mas tamb\u00e9m limitou a capacidade de questionar e explorar alternativas. Os &#8216;assimilados&#8217; eram, em muitos aspectos, v\u00edtimas dessa mentalidade, conformando-se com padr\u00f5es estabelecidos em vez de explorar novos horizontes intelectuais.<\/p>\n<p>Portanto, essa din\u00e2mica revela como a busca pela assimila\u00e7\u00e3o pode minar a originalidade e restringir a capacidade de compreender a realidade de maneira diversificada e profunda. Ela reflecte a import\u00e2ncia de promover um ambiente intelectualmente diverso e estimulante, no qual a individualidade e a cr\u00edtica construtiva possam florescer.<\/p>\n<p>A lei promulgada em 1921 em Portugal (Estatuto do ind\u00edgena) dividiu os povos da \u00c1frica entre ind\u00edgenas e assimilados. Os assimilados podiam, por exemplo, adquirir propriedade e n\u00e3o eram obrigados pelas autoridades a trabalhar em obras p\u00fablicas. Por\u00e9m, tinham que prestar o servi\u00e7o militar e trabalhar para o servi\u00e7o p\u00fablico, apresentar forma\u00e7\u00e3o escolar em portugu\u00eas, comprovar a posse de bens e manter uma vida crist\u00e3.<\/p>\n<p>No mesmo estatuto, no n\u00famero 1 do seu artigo 1\u00ba, diz que<\/p>\n<blockquote><p>o fato de os nativos das prov\u00edncias portuguesas da \u00c1frica continental se encontrarem ainda em determinado grau inferior de civiliza\u00e7\u00e3o implica a necessidade de se estabelecer um ordenamento jur\u00eddico adequado \u00e0 possibilidade de efectiva\u00e7\u00e3o de poderes e deveres por parte desses nativos.<\/p><\/blockquote>\n<p>Os estatutos e diplomas criados eram, na verdade, uma forma de romper abruptamente com a civiliza\u00e7\u00e3o ou forma de ser e estar dos africanos, especificamente os angolanos. Essas pol\u00edticas coloniais eram controversas e frequentemente vistas como uma tentativa de assimila\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, que desconsiderava e subjugava as culturas e tradi\u00e7\u00f5es locais, enquanto sobrevalorizava as normas europeias e suas formas de ser e estar. Essa imposi\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios, como a necessidade de abandonar completamente os usos e costumes da ra\u00e7a negra, falar e escrever correctamente a l\u00edngua portuguesa, adoptar a monogamia e exercer uma profiss\u00e3o ou ocupa\u00e7\u00e3o compat\u00edvel com a civiliza\u00e7\u00e3o europeia, foi parte de uma estrat\u00e9gia colonial que visava transformar profundamente a sociedade e a cultura locais. No entanto, essas pol\u00edticas eram frequentemente percebidas como prejudiciais e coercivas, pois desvalorizavam a riqueza das culturas e tradi\u00e7\u00f5es africanas, impondo padr\u00f5es estrangeiros.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito da educa\u00e7\u00e3o, Tamoda n\u00e3o era apenas um assimilado de acordo com a instru\u00e7\u00e3o colonial, mas tamb\u00e9m uma idealiza\u00e7\u00e3o do ensino angolano para angolanos, pois seus seguidores viam nele a alegria de aprender, em contraste com os professores oficiais. Embora as discuss\u00f5es come\u00e7assem na escola e envolvessem os professores, os alunos preferiam esclarecer suas d\u00favidas com \u201cMestre\u201d Tamoda, pois as discuss\u00f5es dos professores n\u00e3o estimulavam a reflex\u00e3o dos jovens. Atentemos:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cEsqueceram-se que as suas discuss\u00f5es p\u00fablicas quer religiosas quer acad\u00e9micas criavam na mentalidade dos jovens uma confus\u00e3o. (\u2026) Ventilavam alguns alunos que foram consultar o Mestre Tamoda, qual era a sua opini\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a compet\u00eancias dois professores (\u2026)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 (Uanhenga Xitu, 1984, p. 23).\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>O excerto acima ilustra como \u201cMestre\u201d Tamoda era visto como uma figura influente e persuasiva na vida dos jovens de sua comunidade, moldando suas opini\u00f5es e perspectivas de uma maneira que muitas vezes os levava a questionar as vis\u00f5es convencionais ou tradicionais apresentadas pelos professores.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 importante salientar que, ao entrar no processo de assimila\u00e7\u00e3o, \u201cTamoda\u201d regrediu porque a escola, na \u00e9poca, tornou-se um ve\u00edculo de transmiss\u00e3o da ideologia que consistia em saber ler, escrever e contar \u00e0 maneira dos portugueses, impedindo assim o desenvolvimento de uma massa cr\u00edtica que poderia evoluir para uma oposi\u00e7\u00e3o ao regime. Se falasse ou escrevesse a sua maneira era visto como desrespeito ou insulto a classe alta de Portugal. Vejamos:<\/p>\n<blockquote><p>\u2013 \u201cFora! Rua! Este tipo est\u00e1 a dizer babuzeiras, \u00e9 uma ofensa, senhores, falar-se aqui em coisas disparatadas da noiva, um negro que aproveita o teatro para ofender a classe fina e distinta fundadora da Col\u00f3nia e representativa de Portugal! Bolas, isso \u00e9 o c\u00famulo\u201d (Uanhenga Xitu, 1984, p.164).<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas \u201cTamoda\u201d, em jeito de ruptura recorre \u00e0 mania de decorar dicion\u00e1rios e discursos para se sentir inserido na categoria daqueles considerados \u201cassimilados\u201d ou com algum grau de instru\u00e7\u00e3o, na medida em que procurava exibir-se em locais p\u00fablicos, como festas ou lugares com grandes aglomera\u00e7\u00f5es. Atentemos:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cRui conhecia bem o seu antigo instruendo. Mas pensava que lhe tivesse passado a mania de decorar os discursos e dicion\u00e1rios para exibir em festas e lugares de grande aglomera\u00e7\u00e3o\u201d (Uanhenga Xitu, 1984, p. 30).<\/p><\/blockquote>\n<p>O excerto demostra a ideia de que \u201cTamoda\u201d n\u00e3o se tornou ou n\u00e3o era um intelectual aut\u00eantico, mas sim algu\u00e9m que usava o conhecimento de forma superficial para impressionar os outros em eventos sociais. Isso demonstra que, em vez de promover uma compreens\u00e3o profunda e cr\u00edtica, o sistema educacional da \u00e9poca incentivou pr\u00e1ticas vazias de aprendizado, onde a ostenta\u00e7\u00e3o de erudi\u00e7\u00e3o, muitas vezes alcan\u00e7ada por meio da memoriza\u00e7\u00e3o, do abandono da identidade cultural e da educa\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, era mais valorizada do que o verdadeiro entendimento. A passagem serve como um exemplo concreto desse fen\u00f3meno no contexto da obra liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Desta feita, cabe-nos agora discutir a \u201cIlus\u00e3o da Sociedade Intelectual\u201d, na qual exploraremos o conceito de assimila\u00e7\u00e3o de forma ressignificada, visando obter novas interpreta\u00e7\u00f5es de um conceito antigo e, assim, enquadrar a obra em quest\u00e3o no nosso contexto.<\/p>\n<p>A assimila\u00e7\u00e3o ressignificada implica enquadrar \u201cMestre\u201d Tamoda de forma plural, quer dizer, como uma sociedade que reproduz de forma l\u00fadica o que os intelectuais propagam. Sobre isso \u00e9 necess\u00e1rio responder ao di\u00e1logo que aparece na obra. Vejamos:<\/p>\n<blockquote><p>\u201c\u2013 B\u00b4amba kiebi? (o que est\u00e3o a dizer?) \u2013 Perguntou um velho<\/p>\n<p>\u2013 Exti (exi): Sabissi (dizem: sabe-se)<\/p>\n<p>\u2013 Sabissi, Sabi? (o sabe-se, \u00e9 chave?)<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, av\u00f3, \u00e9 o portugu\u00eas do Tamoda<\/p>\n<p>\u2013 Kuambe tata, putu ia ubeka u\u00e9? (Vejam l\u00e1, este Tamoda, \u00e9 dele sozinho?)\u201d<\/p>\n<p>(Uanhega Xitu, 1984, p. 27).<\/p><\/blockquote>\n<p>Em resposta \u00e0 quest\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9, mas tornou-se parte da comunidade a partir do momento em que as crian\u00e7as e jovens come\u00e7aram a praticar. Pois na assimila\u00e7\u00e3o, os indiv\u00edduos ou grupos minorit\u00e1rios s\u00e3o submetidos \u00e0 influ\u00eancia de uma sociedade majorit\u00e1ria, frequentemente atrav\u00e9s de indiv\u00edduos singulares que aparentemente conseguem influenciar as massas, exigindo a aceita\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o. Isso implica no abandono e na nega\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria natureza, resultando em despersonaliza\u00e7\u00e3o e, consequentemente, em sofrimento ps\u00edquico, muitas vezes com a concord\u00e2ncia t\u00e1cita. Portanto, a assimila\u00e7\u00e3o de \u201cTamoda\u201d \u00e0 comunidade ocorreu \u00e0 medida que as crian\u00e7as e jovens come\u00e7aram a praticar seu \u201cportugu\u00eas\u201d, mas diferentemente da assimila\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, esta foi uma assimila\u00e7\u00e3o t\u00e1cita, amplamente aceita e legitimada pela sociedade.<\/p>\n<p>Sendo assim, come\u00e7amos por questionamos, o que realmente est\u00e1 na moda? Respondemos categoricamente, os intelectuais. Ora, basta olharmos e examinar a estrutura da nossa realidade social e pensar com Gustava Bueno (2012):<\/p>\n<blockquote><p>os intelectuais nos s\u00e3o apresentados como indiv\u00edduos que t\u00eam uma certa notoriedade \u2013 que pode chegar at\u00e9 ter um nome famoso \u2013 falam regularmente para um p\u00fablico an\u00f3nimo e indiferenciado. Com que crit\u00e9rio? Sem d\u00favida, com respeito \u00e0s profiss\u00f5es estabelecidas na sociedade. O p\u00fablico-alvo dos intelectuais n\u00e3o \u00e9 um p\u00fablico profissionalmente determinado \u2013 o intelectual, como tal, n\u00e3o fala com m\u00e9dicos ou advogados; Ele n\u00e3o fala com metal\u00fargicos, nem matem\u00e1ticos, nem sapateiros. N\u00e3o \u00e9 que ele fale com pessoas que exactamente n\u00e3o deveriam ser nada disso, mas que ele fala com pessoas que podem ter algum desses cargos ou nenhum. Ele fala, para colocar em palavras que hoje soam muito fortes, mas que s\u00e3o as palavras do Iluminismo, ele fala com o &#8220;vulgar&#8221;, como dizia Feij\u00f3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>Bueno distingue tr\u00eas formatos de intelectuais, s\u00e3o eles:<\/p>\n<ul>\n<li>Formato-1, a classe dos intelectuais, baseada em qual tend\u00eancia social ou ideol\u00f3gico cada indiv\u00edduo representa. Portanto, os intelectuais s\u00e3o considerados como fazendo parte de correntes ideol\u00f3gicas espec\u00edficas desde o in\u00edcio, e essas correntes se op\u00f5em umas \u00e0s outras dentro da classe dos intelectuais;<\/li>\n<li>Formato-2, a classe dos intelectuais desempenhada pelo papel distinto na estrutura da sociedade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 parte que \u00e9 considerada n\u00e3o intelectual. No Formato-2, a classe dos intelectuais n\u00e3o \u00e9 definida em oposi\u00e7\u00e3o a outra parte da mesma classe, mas em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 parte n\u00e3o intelectual do conjunto social;<\/li>\n<li>Formato-3: aqui, os intelectuais s\u00e3o considerados como todos os indiv\u00edduos da esp\u00e9cie Homo sapiens. Nesse formato, cada indiv\u00edduo dessa esp\u00e9cie pode ser chamado distributivamente de intelectual. A classe dos intelectuais no Formato-3 \u00e9 uma classe mais ampla, com um escopo antropol\u00f3gico ou psicol\u00f3gico, e n\u00e3o mais uma parte do organismo social no sentido hist\u00f3rico ou social. Ela n\u00e3o \u00e9 uma \u201cparte\u201d do todo social, mas uma categoria que abrange toda a esp\u00e9cie humana.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Dentre os tr\u00eas formatos de intelectuais, a que se enquadra com a nossa abordagem \u00e9 a do formato 2, pois nesse contexto, a classe de intelectuais pode abranger dois grupos muito diferentes de actividades: os tecn\u00f3logos (engenheiros, m\u00e9dicos, etc.) e os ide\u00f3logos (escritores\/ artistas, pol\u00edticos, etc.).<\/p>\n<p>Dentro do formato, a distin\u00e7\u00e3o entre esses grupos torna-se operativa em situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, como em uma sociedade totalit\u00e1ria uniforme. Em uma sociedade totalit\u00e1ria desse tipo, uma classe de \u201ctrabalhadores intelectuais\u201d pode ser estabelecida, incluindo cientistas, tecn\u00f3logos, artistas e ide\u00f3logos, como funcion\u00e1rios ou burocratas do Estado. Essa classe recebe um certo <em>status<\/em> unificado com base em habilidades espec\u00edficas, como habilidades lingu\u00edsticas, cient\u00edficas, administrativas e comportamentais.<\/p>\n<p>\u201cA ilus\u00e3o da sociedade intelectual\u201d que estamos a construir, definimos segundo o \u2018\u2018Tamoda\u2019\u2019, segundo o qual \u00e9 \u2018\u2018(\u2026) exogmastismo deambulante\u2026 (\u2026) Quer dizer mania das pessoas que ficam a mostrar nos meios das pessoas que passa-e-voltam, para mostrar que eles sabem mais\u2019\u2019 (Uanhenga Xitu, 1984, p. 23 e 24).<\/p>\n<p>Se a sociedade intelectual \u00e9 um exerc\u00edcio incessante de exibicionismo de conhecimento, onde as pessoas frequentemente competem para mostrar que sabem mais do que os outros, como afirmado por \u201cTamoda\u201d, ent\u00e3o a primeira classe de intelectuais impostores em nossa sociedade, sem d\u00favida, engloba os pol\u00edticos, polit\u00f3logos e juristas, categorizados no formato-2, segundo a classifica\u00e7\u00e3o de Bueno. Estes indiv\u00edduos muitas vezes recebem uma forma\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria e se alinham com uma ideologia espec\u00edfica. Embora tenham escolhido as ci\u00eancias sociais ou humanas como seu campo de estudo, nem sempre se dedicam a examinar a estrutura da realidade ou a resolver problemas genu\u00ednos do povo.<\/p>\n<p>Na maioria das vezes, eles transformam quest\u00f5es partid\u00e1rias, que t\u00eam pouca relev\u00e2ncia para a vida das pessoas comuns, em debates acalorados entre os ide\u00f3logos. Um exemplo disso \u00e9 observado frequentemente na m\u00eddia, onde comentaristas pol\u00edticos se prendem a discursos partid\u00e1rios, em vez de se concentrarem nas preocupa\u00e7\u00f5es reais da popula\u00e7\u00e3o. Sobre isso Maestro (2017) argumenta,<\/p>\n<blockquote><p>Embora estes \u00faltimos sempre t\u00eam outra prefer\u00eancia mais efetiva: a\u00a0cr\u00edtica ideol\u00f3gica, digna sob o r\u00f3tulo m\u00edtico de\u00a0compromisso.\u00a0Isso acontece com frequ\u00eancia: os\u00a0<a href=\"http:\/\/www.academiaeditorial.com\/web\/para-que-sirven-los-intelectuales\/\">intelectuais<\/a>\u00a0, em vez de se comprometerem com a verdade e a cr\u00edtica, s\u00e3o simples\u00a0colaboradores\u00a0do poder.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso levanta quest\u00f5es sobre a verdadeira fun\u00e7\u00e3o dos intelectuais na sociedade, e se eles est\u00e3o cumprindo seu papel de esclarecer e resolver os problemas que afectam as pessoas em seu dia a dia, ou se est\u00e3o mais preocupados em manter agendas pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>A literatura, enquanto forma de arte, quando passa pelo processo de transdu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, revela o conhecimento e as ideias contidas na obra estudada. Ainda dentro desse processo de identifica\u00e7\u00e3o da ilus\u00e3o da sociedade intelectual, a segunda classe inclui os professores que representam tanto o ensino geral quanto as universidades, em sua maioria, cuja forma\u00e7\u00e3o, em vez de libertar, oprime e muitas vezes ensina a ideia err\u00f3nea de que a ci\u00eancia \u00e9 apenas um conjunto de palavras do dicion\u00e1rio, em vez de representar a realidade.<\/p>\n<p>Quantos professores n\u00e3o se sentem honrados e glorificados quando seus alunos reproduzem exactamente o que o professor pensa ou algum autor for\u00e7adamente escolhido pelo professor? Atentemos: \u201cEle era meu disc\u00edpulo no <em>sungui<\/em>, onde, com a cacofonia carregada de suma intelig\u00eancia, tinha decorado muitas das palavras em portugu\u00eas do meu dicion\u00e1rio\u201d (Uanhenga Xitu, 1984, p. 40).<\/p>\n<p>O excerto acima ilustra a ideia discutida no texto anterior. O excerto demonstra que o aluno mencionado era muito habilidoso em memorizar palavras em portugu\u00eas do dicion\u00e1rio, mas essa habilidade se manifestava de forma mec\u00e2nica e vazia, ou seja, o aluno descrito no excerto estava simplesmente repetindo as palavras e frases do dicion\u00e1rio sem realmente entender ou aplicar o significado delas.<\/p>\n<p>Isso se relaciona com a discuss\u00e3o anterior sobre professores que ensinam de forma opressiva, enfatizando a memoriza\u00e7\u00e3o de conceitos em detrimento da compreens\u00e3o profunda e cr\u00edtica. O trecho sugere que, em vez de promover a verdadeira compreens\u00e3o e reflex\u00e3o, alguns professores podem incentivar os alunos a decorar informa\u00e7\u00f5es de forma superficial, o que n\u00e3o contribui para o desenvolvimento do pensamento cr\u00edtico e da capacidade de aplicar o conhecimento \u00e0 realidade.<\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 importante destacar um ensino que vai al\u00e9m da memoriza\u00e7\u00e3o e que promove a compreens\u00e3o profunda e significativa do conte\u00fado, o que \u00e9 relevante para a discuss\u00e3o sobre a ilus\u00e3o da sociedade intelectual e a influ\u00eancia dos professores nesse contexto, porque do contr\u00e1rio \u201cTamoda\u201d representa a ignor\u00e2ncia e contradi\u00e7\u00e3o, algu\u00e9m que alega saber tudo. Vejamos: \u201cMas, \u00f3 Sim\u00e3o, voc\u00ea tamb\u00e9m j\u00e1 conhece as leis, voc\u00ea estudou como eu com os advogados?\u201d (Uanhenga Xitu, 1984, p. 58).<\/p>\n<p>Esse excerto revela a atitude de alguns &#8216;mestres&#8217; e intelectuais que se recusam a aceitar correc\u00e7\u00e3o, mesmo quando est\u00e3o errados, devido ao orgulho. Isso destaca um comportamento que \u00e9 prejudicial n\u00e3o apenas para o pr\u00f3prio aprendizado, mas tamb\u00e9m para a sociedade em geral, pois impede o crescimento e a evolu\u00e7\u00e3o do conhecimento.<\/p>\n<p>\u201cTamoda\u201d, pelo excesso de confian\u00e7a, por querer ser sempre o centro das aten\u00e7\u00f5es, pode ser diagnosticado com o transtorno de personalidade histri\u00f3nica, com base no\u00a0Manual Diagn\u00f3stico e Estat\u00edstico de Transtornos Mentais,\u00a0<em>5\u00aa Edi\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0 (<a href=\"https:\/\/www.msdmanuals.com\/pt\/casa\/dist%C3%BArbios-de-sa%C3%BAde-mental\/considera%C3%A7%C3%B5es-gerais-sobre-cuidados-com-a-sa%C3%BAde-mental\/classifica%C3%A7%C3%A3o-e-diagn%C3%B3stico-das-doen%C3%A7as-mentais\">DSM-5<\/a>, 2014), publicado pela Associa\u00e7\u00e3o Americana de Psiquiatria, segundo os crit\u00e9rios diagn\u00f3sticos, consiste em \u201cum padr\u00e3o difuso de emocionalidade e busca de aten\u00e7\u00e3o em excesso que surge no in\u00edcio da vida adulta e est\u00e1 presente em v\u00e1rios contextos\u201d (p. 667). O qual pode ser caracterizado com os exemplos seguir, tanto do diagnosticado em paralelo com alguns trechos da obra.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<ul>\n<li>a) Desconforto em situa\u00e7\u00f5es em que n\u00e3o \u00e9 o centro das aten\u00e7\u00f5es;<\/li>\n<\/ul>\n<p>\u2013 \u201cFui desclassificado e intermitentemente desfeituado e entulhado de ofensas na banheira que a minha cachim\u00f3nia n\u00e3o pode aguentar, mesmo com a minha polimatia\u201d (Uanhega Xitu, 1984, p. 159).<\/p>\n<ul>\n<li>b) Exibe mudan\u00e7as r\u00e1pidas e express\u00e3o superficial das emo\u00e7\u00f5es;<\/li>\n<\/ul>\n<p>\u2013 \u201c(\u2026) Continue, senhor Tamoda, que est\u00e1 a ir muito bem. (Palmas: apoiado, apoiadas vindas da parte da raia mi\u00fada). Tamoda que at\u00e9 a\u00ed ficara mudo, ganhou \u00e2nimo, olhou para os presentes e os noivos e continuou:\u201d (Uanhenga Xitu, 1984, p.165).<\/p>\n<ul>\n<li>c) Usa reiteradamente a apar\u00eancia f\u00edsica para atrair a aten\u00e7\u00e3o para si;<\/li>\n<\/ul>\n<p>\u2013 \u201cE retomando a palavra, de improviso, endireitou a gravata, lungulando (esticando) o pesco\u00e7o e de uma forma caracter\u00edstica, s\u00f3 dele, Tamoda:\u201d (Uanhenga Xitu, 1984, p.165).<\/p>\n<ul>\n<li>d) Tem um estilo de discurso que \u00e9 excessivamente impressionista e carente de detalhes.<\/li>\n<\/ul>\n<blockquote><p>\u2013\u201cNubento e Nubenta:<\/p>\n<p>Altas dignidades e Vossas Senhorias convidados neste sumptuos\u00edssimo enlace matrimonial, fa\u00e7o votos que a muchacharia agora enla\u00e7ada n\u00e3o devem ser prochonetes nem andarem na panilhagem dessolinizando o que aqui fica com toda a nossa erudi\u00e7\u00e3o abundante\u201d (Uanhenga Xitu, 1984, p.163).<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas aqui n\u00e3o se trata de Tamoda, mas da nossa sociedade, na qual delimitamos os intelectuais no formato-2. Para chegar a essa conclus\u00e3o, \u00e9 importante considerar estudos de psic\u00f3logos, embora n\u00e3o estejamos plenamente satisfeitos, pois existe o fen\u00f3meno, mas faltam estudos concretos na nossa realidade. A literatura nos ajuda a compreender os dramas humanos, e um dos dramas vivenciados actualmente pelos nossos artistas \u00e9 a \u00e2nsia de destacar-se com a sua arte. Portanto, a terceira classe inclui os nossos artistas, muitos dos quais v\u00eaem o talento ser substitu\u00eddo pelo exibicionismo barato ou recorrem a uma pseudo arte, como o pl\u00e1gio. Esses casos sempre existiram na literatura angolana, mas agora ganham mais visibilidade, principalmente entre os jovens que falsificam as suas obras em busca de vantagens econ\u00f3micas, visibilidade, fama ou prest\u00edgio.<\/p>\n<p>Para o fil\u00f3sofo grego Her\u00e1clito de \u00c9feso (aproximadamente 535-475 a.C.), n\u00e3o se pode percorrer duas vezes o mesmo rio e n\u00e3o se pode tocar duas vezes uma subst\u00e2ncia mortal no mesmo estado. Sendo tudo mut\u00e1vel, a perman\u00eancia \u00e9 uma ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse sentido, apenas o fluxo do movimento \u00e9 real; entretanto, a perman\u00eancia da percep\u00e7\u00e3o inicial a respeito da identidade das coisas iguais a si mesmo constitui uma ilus\u00e3o. Essa vis\u00e3o enriquecedora \u00e9 essencial para a compreens\u00e3o do estado da nossa arte, j\u00e1 que reconhecemos a inadequa\u00e7\u00e3o de tentar adaptar e perceber um mesmo objecto de maneira herm\u00e9tica. Portanto, dois artistas podem abordar o mesmo tema, mas n\u00e3o da mesma forma.<\/p>\n<p>Tamoda em nosso contexto apresenta-se como um impostor, de certa forma, um actor, um hip\u00f3crita, um anti-intelectual, na medida em que exige de n\u00f3s uma forma de racioc\u00ednio encontra v\u00e1rios referentes reias em nossa sociedade. Portanto, \u2018\u2018Tamoda\u2019\u2019 \u00e9 subversivo na medida que se lermos os excertos a seguir na voz do narrador. Atentemos: \u2018\u2018Tamoda n\u00e3o \u00e9 um mestre para ler pap\u00e9is quando se dirige ao p\u00fablico e, mais, quando n\u00e3o s\u00e3o por si escritos. Prefere as suas pr\u00f3prias palavras (\u2026)\u201d ((Uanhenga Xitu, 1984, p. 162).<\/p>\n<p>Agora, em representa\u00e7\u00e3o dos intelectuais \u2018\u2018Tamoda\u2019\u2019 \u00e9 dentro rela\u00e7\u00e3o <em>ad hominem<\/em> um n\u00e1ufrago, ou seja, s\u00f3 aceita principalmente aquilo que ele somente diz ou uma autoridade que compartilha da mesma opini\u00e3o, atacando o homem e n\u00e3o a ideia com o pretexto de n\u00e3o querer ser repetidor de Arist\u00f3teles ou Cheik Anta Diop. Mas nisso n\u00e3o h\u00e1 nenhum m\u00e9rito. Porque mesmo que voc\u00ea diga algo novo que \u00e9 falso n\u00e3o h\u00e1 nenhuma originalidade nisso.<\/p>\n<p>A \u201cilus\u00e3o da sociedade intelectual\u201d pode ser definida como a ideia err\u00f3nea ou a apar\u00eancia superficial de intelectualismo, erudi\u00e7\u00e3o ou conhecimento em uma sociedade ou grupo de pessoas. Essa ilus\u00e3o ocorre quando indiv\u00edduos ou grupos buscam exibir conhecimento ou erudi\u00e7\u00e3o de maneira ostensiva, muitas vezes superficial, com o objectivo de impressionar os outros, em vez de buscar uma compreens\u00e3o profunda e genu\u00edna do conhecimento.<\/p>\n<p>\u201cMestre Tamoda\u201d, como personagem na obra, representa uma figura complexa que pode ser interpretada de v\u00e1rias maneiras. Sua busca por conhecimento e sua maneira de exibi-lo atrav\u00e9s da memoriza\u00e7\u00e3o de dicion\u00e1rios e discursos revelam uma busca por status intelectual que, na verdade, mascara uma compreens\u00e3o superficial e vazia do conhecimento.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da personagem de Tamoda, a obra permitiu-nos explorar a ideia da \u201cilus\u00e3o da sociedade intelectual\u201d, destacando como as pessoas podem se esfor\u00e7ar para parecerem intelectuais sem realmente entenderem profundamente o que est\u00e3o dizendo. Isso tamb\u00e9m \u00e9 reflexo de um contexto colonial em que a educa\u00e7\u00e3o muitas vezes enfatizava a assimila\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es culturais do colonizador.<\/p>\n<p>\u201cMestre\u201d Tamoda serve como um ponto de reflex\u00e3o sobre a busca pelo conhecimento e pelo status intelectual, destacando a diferen\u00e7a entre uma verdadeira compreens\u00e3o e a ilus\u00e3o de intelectualismo. Sua personagem nos convida a questionar o valor de parecer intelectual em compara\u00e7\u00e3o com a busca por um entendimento genu\u00edno do mundo ao nosso redor.<\/p>\n<p>Os bons intelectuais s\u00e3o poucos; a maioria \u00e9 p\u00e9ssima e revela o que a democracia transformou em demagogia. O louco sempre precisa de apoio social, ou seja, da cumplicidade da sociedade. Portanto, a sociedade s\u00f3 aceita um indiv\u00edduo com problemas mentais que possa ser controlado e dominado.<\/p>\n<p>O leitor de \u201cMestre Tamoda\u201d deve ter a no\u00e7\u00e3o de que est\u00e1 experimentando uma patologia l\u00fadica que se sobrep\u00f5e \u00e0 sociedade. Ou seja, \u201cTamoda\u201d, mais do que ser apenas um personagem engra\u00e7ado, representa os elementos caracter\u00edsticos da nossa sociedade.<\/p>\n<p>Da mesma forma que \u201cTamoda\u201d dependia das actividades l\u00fadicas dos seus seguidores para conduzir os seus discursos e exibir a sua falsa intelectualidade, na nossa sociedade, por exemplo, os falsos profetas ou pastores tamb\u00e9m dependem de pessoas com pouca f\u00e9 para enganar; os pol\u00edticos ou governantes necessitam que as massas permane\u00e7am politicamente ignorantes para perpetuar a demagogia e garantir os votos; os coaches precisam de pessoas emocionalmente vulner\u00e1veis para disseminar discursos placebos; os professores anacr\u00f3nicos instruem formosamente que seus alunos decorem as mat\u00e9rias, entre outros exemplos.<\/p>\n<p>Se, por um lado, admitimos que, em primeira inst\u00e2ncia, a finalidade da Literatura \u00e9 o prazer est\u00e9tico (&#8230;). E o objecto de ensino da Literatura ser\u00e1, portanto, educar o gosto e ampliar a capacidade de compreender o mundo. \u00c9 importante de nossa parte acrescentar que a Cr\u00edtica Liter\u00e1ria deve fazer a purga\u00e7\u00e3o, mediar os gostos, quer dizer, ensinar a amar o que deve ser amado e odiar o que deve ser odiado. Porque, para uma pessoa sem educa\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, \u2018\u2018Os Discursos do \u2018Mestre\u2019 Tamoda\u201d ser\u00e1 apenas um livro muito engra\u00e7ado com um maluco como personagem principal. Mas que o diga ele mesmo: \u201c\u2212 Eles leram mas est\u00e3o equivocados num \u00e2ngulo agudo. S\u00e3o vangl\u00f3rios. Voc\u00eas pensam que todo o olho aberto v\u00ea? N\u00e3o me enfadam\u2026\u201d (Uanhenga Xitu, 1984, p. 23).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/h6>\n<h6><strong>Livros:<\/strong><\/h6>\n<p>Lakatos, E. M. (1990). Sociologia Geral I (6a ed. rev. e ampl.). Atlas.<\/p>\n<p>Sousa, L\u00facio. (2008). ANTROPOLOGIA CULTURAL. Universidade Aberta. Pal\u00e1cio Ceia, Rua da Escola Polit\u00e9cnica, 147 1269-001 Lisboa \u2013 Portugal www.univ-ab.pt e-mail: <a href=\"mailto:cvendas@univ-ab.pt\">cvendas@univ-ab.pt<\/a>.\u00a0 ISBN: 978-972-674-551-8<\/p>\n<p>XITU, Uanhenga (1984). Os Discursos do &#8216;Mestre&#8217; Tamoda, edi\u00e7\u00e3o realizada para o INALD pela Editora Ulisses, Lisboa.<\/p>\n<p>Maestro, Jes\u00fas G. (2017). Cr\u00edtica de la Raz\u00f3n Literaria, Editorial Academia del Hispanismo.<\/p>\n<p>Manual Diagn\u00f3stico e Estat\u00edstico de Transtornos Mentais (2014) [recurso eletr\u00f4nico]: DSM-5, American Psychiatric Association.<\/p>\n<p><strong>Documentos Governamentais:<\/strong><\/p>\n<p>Regulamento do Recenseamento e Cobran\u00e7a do Imposto Ind\u00edgena, aprovado por Diploma Legislativo n\u00ba 237, de 26 de Maio de 1931. Luanda, 1931.<\/p>\n<p>Estatuto dos Ind\u00edgenas Portugueses das Prov\u00edncias da Guin\u00e9, Angola e Mo\u00e7ambique, Decreto-Lei n\u00ba 39.668, de 20 de Maio de 1964.<\/p>\n<p><strong>Artigos e Outros Recursos Online:<\/strong><\/p>\n<p>Bueno, Gustavo (2012). Intelectuais: os novos impostores. [Dispon\u00edvel em: Gustavo Bueno, Os Intelectuais: os Novos Impostores, As Catoblepas 130:2, 2012 (nodulo.org)].<\/p>\n<p>Material de Apoio, traduzido e adaptado com acr\u00e9scimos e supress\u00f5es \u2013 por H\u00e9lder Simbad, teoricamente orientado pela &lt;&lt;Did\u00e1ctica da Ponte&gt;&gt;, 2021.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presente estudo pretende explorar, por meio da obra \u201cOs Discursos do &#8216;Mestre&#8217; Tamoda,\u201d uma perspectiva intrigante que aborda quest\u00f5es relacionadas ao colonialismo e intelectualismo, implicando na din\u00e2mica da sociedade intelectual actual. 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