{"id":864,"date":"2025-05-14T15:51:49","date_gmt":"2025-05-14T14:51:49","guid":{"rendered":"https:\/\/akweno.ao\/sempa\/?p=864"},"modified":"2025-05-14T15:51:49","modified_gmt":"2025-05-14T14:51:49","slug":"quando-o-trabalho-vira-crime-a-luta-das-mamas-zungueiras-contra-a-indiferenca-do-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/2025\/05\/14\/quando-o-trabalho-vira-crime-a-luta-das-mamas-zungueiras-contra-a-indiferenca-do-estado\/","title":{"rendered":"Quando o Trabalho Vira Crime: A Luta Das Mam\u00e1s Zungueiras Contra a Indiferen\u00e7a do Estado"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Angola profunda que muitos insistem em n\u00e3o ver, h\u00e1 uma guerra silenciosa travada todos os dias. \u00c9 uma guerra sem armas, mas com dor. Uma guerra onde as v\u00edtimas n\u00e3o aparecem nas manchetes, mas carregam o pa\u00eds nas costas. Essa guerra \u00e9 vivida pelas mam\u00e1s zungueiras mulheres que lutam, sofrem, resistem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas mulheres n\u00e3o vendem apenas produtos. Elas vendem esperan\u00e7a. Acordam antes do sol, caminham longas dist\u00e2ncias com bacias pesadas sobre a cabe\u00e7a e, mesmo diante da incerteza, voltam para casa com algo para alimentar os filhos. Muitas vezes, elas s\u00e3o o \u00fanico sustento do lar. Em milhares de casas angolanas, os pais est\u00e3o desempregados ou ganham sal\u00e1rios t\u00e3o baixos que mal cobrem o transporte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o elas que pagam a renda, a propina escolar, o saco de arroz, os medicamentos. Fazem o papel do Estado, do provedor e da resist\u00eancia. Mas, infelizmente, em Angola, o trabalho informal virou crime. E a luta dessas mulheres tem sido castigada pelas pr\u00f3prias autoridades que deviam proteg\u00ea-las.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agress\u00f5es, confisco de mercadorias, deten\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias, humilha\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Essas s\u00e3o cenas que se repetem diariamente em mercados, pra\u00e7as e paragens. Jovens agentes da pol\u00edcia muitos filhos de zungueiras espalham as mercadorias com brutalidade, como se combater a pobreza fosse uma miss\u00e3o de seguran\u00e7a nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caso de Tom\u00e1sia Nguera, em mar\u00e7o de 2021, no mercado dos Congoleses, \u00e9 emblem\u00e1tico. Esta vendedora perdeu a vida ao tentar salvar os seus produtos durante uma a\u00e7\u00e3o fiscal. Caiu, bateu com a cabe\u00e7a e n\u00e3o resistiu. A sua morte abalou a comunidade, mas nenhuma responsabiliza\u00e7\u00e3o firme foi apresentada. O sil\u00eancio das autoridades foi mais violento que o empurr\u00e3o que a matou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta do Estado tem sido a constru\u00e7\u00e3o de novos mercados. Mas muitos desses espa\u00e7os n\u00e3o oferecem condi\u00e7\u00f5es dignas: sem casas de banho funcionais, sem \u00e1gua pot\u00e1vel, sem seguran\u00e7a, sem clientela fixa e com taxas pesadas. O que seria uma solu\u00e7\u00e3o, tornou-se um novo obst\u00e1culo. As zungueiras voltam \u00e0s ruas n\u00e3o por escolha, mas por sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o mais grave: n\u00e3o h\u00e1 escuta. N\u00e3o h\u00e1 di\u00e1logo entre quem governa e quem sobrevive. As pol\u00edticas s\u00e3o feitas no topo, sem consultar quem est\u00e1 na base. Essa desconex\u00e3o \u00e9 o retrato de um pa\u00eds que ainda n\u00e3o entendeu que governar \u00e9, antes de tudo, proteger.<\/p>\n<p>Esta reflex\u00e3o \u00e9 um grito. Um apelo. Uma den\u00fancia.<\/p>\n<p>Apelamos ao Estado angolano:<\/p>\n<ul>\n<li>Crie um programa s\u00e9rio de apoio \u00e0 economia informal;<\/li>\n<li>Forme os fiscais e agentes da ordem para atuarem com humanidade;<\/li>\n<li>Isente as zungueiras mais vulner\u00e1veis de taxas insustent\u00e1veis;<\/li>\n<li>Ofere\u00e7a condi\u00e7\u00f5es reais nos mercados municipais.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Implemente espa\u00e7os de di\u00e1logo com associa\u00e7\u00f5es de zungueiras e l\u00edderes comunit\u00e1rios.<\/p>\n<p>As mam\u00e1s zungueiras s\u00e3o um espelho da resist\u00eancia feminina em Angola. Desprez\u00e1-las \u00e9 trair o povo. Ignor\u00e1-las \u00e9 negar o pr\u00f3prio futuro. A constru\u00e7\u00e3o de uma Angola justa come\u00e7a com o respeito pela mulher que vende para viver, n\u00e3o com a repress\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Elas n\u00e3o s\u00e3o o problema. S\u00e3o parte da solu\u00e7\u00e3o.<\/strong>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;] Na Angola profunda que muitos insistem em n\u00e3o ver, h\u00e1 uma guerra silenciosa travada todos os dias. \u00c9 uma guerra sem armas, mas com dor. Uma guerra onde as v\u00edtimas n\u00e3o aparecem nas manchetes, mas carregam o pa\u00eds nas costas. Essa guerra \u00e9 vivida pelas mam\u00e1s zungueiras mulheres que lutam, sofrem, resistem. Essas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":869,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[48],"tags":[49],"class_list":["post-864","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reflexoes-sociais","tag-angola"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/864","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=864"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/864\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/wp-json\/wp\/v2\/media\/869"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=864"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=864"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=864"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}