{"id":1534,"date":"2025-08-06T06:54:50","date_gmt":"2025-08-06T05:54:50","guid":{"rendered":"https:\/\/sempasebastiao.com\/?p=1534"},"modified":"2025-08-06T06:54:50","modified_gmt":"2025-08-06T05:54:50","slug":"tribuna-entre-balas-e-bocas-caladas-o-grito-que-angola-nao-conseguiu-esconder-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/2025\/08\/06\/tribuna-entre-balas-e-bocas-caladas-o-grito-que-angola-nao-conseguiu-esconder-2\/","title":{"rendered":"Tribuna | Entre Balas E Bocas Caladas: O Grito Que Angola N\u00e3o Conseguiu Esconder"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]Durante tr\u00eas dias, Angola deixou cair a m\u00e1scara do sil\u00eancio institucional. Os t\u00e1xis pararam, o povo gritou, e o Estado respondeu com o que sabe usar melhor quando a palavra lhe falta: repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Vinte e duas mortes (22). Cento e noventa e sete feridos (197). Mais de 1.200 deten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E tudo isso num protesto que nasceu do volante, mas que rapidamente ganhou corpo como clamor de um pa\u00eds inteiro sufocado.<\/p>\n<p>Quando a televis\u00e3o p\u00fablica se v\u00ea obrigada a reconhecer n\u00fameros t\u00e3o violentos, \u00e9 porque a realidade j\u00e1 gritou mais alto do que o controlo da narrativa.[\/vc_column_text][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"has-text-align-center has-text-color has-link-color wp-elements-e6a25c846690067f4a6387f519cd45a1\"><strong><em>Nem mesmo durante os longos anos do consulado de Jos\u00e9 Eduardo dos Santos, com todas as suas repress\u00f5es e limita\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, Angola registou um n\u00famero t\u00e3o alto de mortes civis durante manifesta\u00e7\u00f5es.<\/em><\/strong><\/p>\n<p class=\"has-text-align-center has-text-color has-link-color wp-elements-4a4b800b269d2eaf70d755de436122ac\"><strong><em>O que aconteceu desta vez ultrapassou todos os marcos anteriores em termos de viol\u00eancia institucional contra cidad\u00e3os desarmados<\/em><\/strong><strong>.<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>[\/vc_column_text][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]Como jornalista e cidad\u00e3o atento \u00e0 l\u00f3gica do poder, n\u00e3o posso escrever esta tribuna com neutralidade fingida.<\/p>\n<p>O que vimos nesses tr\u00eas dias foi o reflexo cru de um governo que perdeu a escuta e de um povo que, cansado de esperar, decidiu agir ainda que, por vezes, de forma desordenada.[\/vc_column_text][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<h6><strong>O PRESIDENTE QUE FALOU TARDE, O POVO QUE GRITOU PRIMEIRO<\/strong><\/h6>\n<p>No auge do caos, o Presidente da Rep\u00fablica guardou sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias inteiros de mortos e deten\u00e7\u00f5es sem uma palavra oficial.<\/p>\n<p>E quando finalmente falou, o tom era frio, burocr\u00e1tico, cheio de chav\u00f5es. Faltou empatia, sobrou c\u00e1lculo.<\/p>\n<p>Na pol\u00edtica, o sil\u00eancio tamb\u00e9m \u00e9 uma linguagem e o sil\u00eancio de Jo\u00e3o Louren\u00e7o nesses dias foi lido como abandono.<\/p>\n<p>Em vez de escutar os gritos dos taxistas, dos jovens, dos trabalhadores exaustos, a Presid\u00eancia esperou que o sangue secasse no asfalto para ent\u00e3o formular um discurso seguro.<\/p>\n<p>Esse distanciamento \u00e9 perigoso. Um l\u00edder que n\u00e3o aparece no momento certo perde autoridade moral, mesmo que mantenha o controlo militar.[\/vc_column_text][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<h6><strong>QUANDO A JUVENTUDE SE LEVANTA E ALGUNS PERDEM O RUMO<\/strong><\/h6>\n<p>Sim, houve vandalismo.<\/p>\n<p>Sim, houve saques.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m houve protesto leg\u00edtimo, organizado, pac\u00edfico e foi esse que o Estado esmagou com mais brutalidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos confundir as a\u00e7\u00f5es de alguns com a inten\u00e7\u00e3o de todos.<\/p>\n<p>\u00c9 fun\u00e7\u00e3o do Estado separar o justo do injusto, n\u00e3o esmagar tudo com o mesmo cassetete.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 algo que tamb\u00e9m precisamos dizer com coragem \u00e0 juventude:<\/p>\n<p>pilhar n\u00e3o \u00e9 protestar. Queimar n\u00e3o \u00e9 resistir. Saquear n\u00e3o \u00e9 construir.<\/p>\n<p>Quando destru\u00edmos o pouco que temos, criamos o deserto que depois nos ser\u00e1 imposto como destino.<\/p>\n<p>A Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo j\u00e1 passou por isso entre 1990-1992.<\/p>\n<p>A pilhagem generalizada destruiu Kinshasa por dentro: investidores fugiram, empresas fecharam, o desemprego disparou.<\/p>\n<p>O Haiti tornou-se um s\u00edmbolo mundial do que acontece quando a f\u00faria perde dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E j\u00e1 vimos isso tamb\u00e9m no Burkina Faso e na Costa do Marfim.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 sempre o mesmo: medo, fuga de capitais, recess\u00e3o profunda.[\/vc_column_text][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"has-text-align-center has-text-color has-link-color wp-elements-e580cf9ca153d51b26ffeff2c3410399\"><strong><em>A<\/em><\/strong>\u00a0J<strong><em>uventude angolana, n\u00e3o sejamos c\u00famplices da nossa pr\u00f3pria ru\u00edna.<\/em><\/strong><\/p>\n<p class=\"has-text-align-center has-text-color has-link-color wp-elements-761a99c6cb21c15a8bf778d00c8200dd\"><strong><em>Protestar \u00e9 um direito. Destruir \u00e9 perder o rumo.<\/em><\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>[\/vc_column_text][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<h6><strong>OPOSI\u00c7\u00c3O: OPORTUNISMO N\u00c3O \u00c9 LIDERAN\u00c7A<\/strong><\/h6>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 apenas o governo que precisa ser confrontado.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tamb\u00e9m tem uma responsabilidade que n\u00e3o pode continuar a ser ignorada.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil aparecer nas c\u00e2maras depois da trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>\u00c9 confort\u00e1vel emitir comunicados de solidariedade quando o povo j\u00e1 sangrou.<\/p>\n<p>O dif\u00edcil \u00e9 assumir o papel de educador pol\u00edtico, de formador de consci\u00eancia, de organizador pac\u00edfico da indigna\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser apenas uma m\u00e1quina de rea\u00e7\u00e3o tem de ser um instrumento de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E, infelizmente, muitos l\u00edderes opositores preferem fazer aproveitamento pol\u00edtico do sofrimento alheio.<\/p>\n<p>Alimentam a raiva, empurram os jovens para o confronto, mas quando chega a repress\u00e3o, s\u00e3o os pobres que pagam a fatura.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o os filhos dos pol\u00edticos que est\u00e3o na linha da frente das balas.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o os l\u00edderes que morrem nas ruas \u00e9 o jovem da zunga, \u00e9 o taxista da periferia, \u00e9 a m\u00e3e que vende p\u00e3o com o filho \u00e0s costas.<\/p>\n<p>E quando essa m\u00e3e perde o filho ou v\u00ea o seu pequeno neg\u00f3cio destru\u00eddo, ningu\u00e9m da oposi\u00e7\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 para reergu\u00ea-la.[\/vc_column_text][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center has-text-color has-link-color wp-elements-81fe81d91388f0ccc12092b672e4a246\"><strong><em>\u00c9 preciso coragem para governar, mas \u00e9 preciso ainda mais coragem para ser oposi\u00e7\u00e3o com \u00e9tica.<\/em><\/strong><\/p>\n<p class=\"has-text-align-center has-text-color has-link-color wp-elements-46d18cdee3241cadb9dfa61875bf8421\"><strong><em>A pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 palco de manipula\u00e7\u00e3o da dor. O povo n\u00e3o \u00e9 massa de manobra para vencer elei\u00e7\u00f5es.<\/em><\/strong><\/p>\n<p class=\"has-text-align-center has-text-color has-link-color wp-elements-fc75324326e68289da70e9e2dc2e2152\"><strong><em>A oposi\u00e7\u00e3o precisa sair do discurso f\u00e1cil e assumir o seu papel hist\u00f3rico com seriedade e vis\u00e3o.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>[\/vc_column_text][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<h6><strong>CONCLUS\u00c3O \u2013 UM FUTURO A SER RECONSTRU\u00cdDO COM MATURIDADE<\/strong><\/h6>\n<p>Este momento que vivemos n\u00e3o pode ser desperdi\u00e7ado como mais um epis\u00f3dio de f\u00faria passageira nem reduzido a estat\u00edsticas est\u00e9reis.<\/p>\n<p>Vinte e duas vidas foram ceifadas, e com elas, sonhos, fam\u00edlias, hist\u00f3rias e esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>A juventude n\u00e3o pode continuar a ser apenas carne de canh\u00e3o da frustra\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>O Estado n\u00e3o pode continuar a olhar o seu pr\u00f3prio povo como inimigo.<\/p>\n<p>E a oposi\u00e7\u00e3o precisa decidir se quer liderar uma mudan\u00e7a aut\u00eantica ou apenas explorar politicamente as feridas do povo.<\/p>\n<p>Todos temos responsabilidades. Todos temos escolhas a fazer. E todas essas escolhas definir\u00e3o que pa\u00eds Angola ser\u00e1 daqui a cinco, dez ou cinquenta anos.<\/p>\n<p>A justi\u00e7a n\u00e3o pode ser adiada, o di\u00e1logo n\u00e3o pode ser reprimido e a mem\u00f3ria n\u00e3o pode ser apagada.<\/p>\n<p>O povo angolano j\u00e1 sacrificou demais. Agora, precisa ser ouvido, respeitado e inclu\u00eddo.<\/p>\n<p>\u00c9 com a escuta que se governa. \u00c9 com a lucidez que se protesta. E \u00e9 com a consci\u00eancia que se vota.<\/p>\n<p>Angola n\u00e3o precisa de mais m\u00e1rtires. Precisa de l\u00edderes com coragem moral, juventude com vis\u00e3o e institui\u00e7\u00f5es com alma.[\/vc_column_text][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<strong>Fonte do artigo:\u00a0<a href=\"https:\/\/voja24.com\/2025\/08\/06\/tribuna-entre-balas-e-bocas-caladas-o-grito-que-angola-nao-conseguiu-esconder\/\">Portal VOJA24<\/a><\/strong>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante tr\u00eas dias, Angola deixou cair a m\u00e1scara do sil\u00eancio institucional. Os t\u00e1xis pararam, o povo gritou, e o Estado respondeu com o que sabe usar melhor quando a palavra lhe falta: repress\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1537,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[68],"tags":[],"class_list":["post-1534","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fortuna-critica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1534","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1534"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1534\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1537"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1534"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1534"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1534"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}