{"id":1515,"date":"2025-08-01T06:37:27","date_gmt":"2025-08-01T05:37:27","guid":{"rendered":"https:\/\/sempasebastiao.com\/?p=1515"},"modified":"2025-08-01T06:37:27","modified_gmt":"2025-08-01T05:37:27","slug":"tribuna-entre-balas-e-bocas-caladas-o-grito-que-angola-nao-conseguiu-esconder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/2025\/08\/01\/tribuna-entre-balas-e-bocas-caladas-o-grito-que-angola-nao-conseguiu-esconder\/","title":{"rendered":"Tribuna | Entre Balas E Bocas Caladas: O Grito Que Angola N\u00e3o Conseguiu Esconder"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante tr\u00eas dias, Angola deixou cair a m\u00e1scara do sil\u00eancio institucional. Os t\u00e1xis pararam, o povo gritou, e o Estado respondeu com o que sabe usar melhor quando a palavra lhe falta: repress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vinte e duas mortes ( 22 ). Cento e noventa e sete feridos ( 197 ). Mais de 1.200 deten\u00e7\u00f5es.<br \/>\nE tudo isso num protesto que nasceu do volante, mas que rapidamente ganhou corpo como clamor de um pa\u00eds inteiro sufocado.<br \/>\nQuando a televis\u00e3o p\u00fablica se v\u00ea obrigada a reconhecer n\u00fameros t\u00e3o violentos, \u00e9 porque a realidade j\u00e1 gritou mais alto do que o controlo da narrativa.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem mesmo durante os longos anos do consulado de Jos\u00e9 Eduardo dos Santos, com todas as suas repress\u00f5es e limita\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, Angola registou um n\u00famero t\u00e3o alto de mortes civis durante manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que aconteceu desta vez ultrapassou todos os marcos anteriores em termos de viol\u00eancia institucional contra cidad\u00e3os desarmados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como jornalista e cidad\u00e3o atento \u00e0 l\u00f3gica do poder, n\u00e3o posso escrever esta tribuna com neutralidade fingida.<br \/>\nO que vimos nesses tr\u00eas dias foi o reflexo cru de um governo que perdeu a escuta e de um povo que, cansado de esperar, decidiu agir ainda que, por vezes, de forma desordenada.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<h6>O PRESIDENTE QUE FALOU TARDE, O POVO QUE GRITOU PRIMEIRO<\/h6>\n<p>No auge do caos, o Presidente da Rep\u00fablica guardou sil\u00eancio.<br \/>\nTr\u00eas dias inteiros de mortos e deten\u00e7\u00f5es sem uma palavra oficial.<br \/>\nE quando finalmente falou, o tom era frio, burocr\u00e1tico, cheio de chav\u00f5es. Faltou empatia, sobrou c\u00e1lculo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na pol\u00edtica, o sil\u00eancio tamb\u00e9m \u00e9 uma linguagem e o sil\u00eancio de Jo\u00e3o Louren\u00e7o nesses dias foi lido como abandono.<br \/>\nEm vez de escutar os gritos dos taxistas, dos jovens, dos trabalhadores exaustos, a Presid\u00eancia esperou que o sangue secasse no asfalto para ent\u00e3o formular um discurso seguro.<\/p>\n<p>Esse distanciamento \u00e9 perigoso. Um l\u00edder que n\u00e3o aparece no momento certo perde autoridade moral, mesmo que mantenha o controlo militar.<\/p>\n<h6>QUANDO A JUVENTUDE SE LEVANTA E ALGUNS PERDEM O RUMO<\/h6>\n<p>Sim, houve vandalismo.<br \/>\nSim, houve saques.<br \/>\nMas tamb\u00e9m houve protesto leg\u00edtimo, organizado, pac\u00edfico e foi esse que o Estado esmagou com mais brutalidade.<br \/>\nN\u00e3o podemos confundir as a\u00e7\u00f5es de alguns com a inten\u00e7\u00e3o de todos.<br \/>\n\u00c9 fun\u00e7\u00e3o do Estado separar o justo do injusto, n\u00e3o esmagar tudo com o mesmo cassetete.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 algo que tamb\u00e9m precisamos dizer com coragem \u00e0 juventude:<br \/>\npilhar n\u00e3o \u00e9 protestar. Queimar n\u00e3o \u00e9 resistir. Saquear n\u00e3o \u00e9 construir.<br \/>\nQuando destru\u00edmos o pouco que temos, criamos o deserto que depois nos ser\u00e1 imposto como destino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo j\u00e1 passou por isso entre 1991 e 1993.<br \/>\nA pilhagem generalizada destruiu Kinshasa por dentro: investidores fugiram, empresas fecharam, o desemprego disparou.<br \/>\nO Haiti tornou-se um s\u00edmbolo mundial do que acontece quando a f\u00faria perde dire\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE j\u00e1 vimos isso tamb\u00e9m no Burkina Faso e na Costa do Marfim.<br \/>\nO resultado \u00e9 sempre o mesmo: medo, fuga de capitais, recess\u00e3o profunda.<\/p>\n<blockquote><p>Juventude angolana, n\u00e3o sejamos c\u00famplices da nossa pr\u00f3pria ru\u00edna.<\/p><\/blockquote>\n<p>Protestar \u00e9 um direito. Destruir \u00e9 perder o rumo.[\/vc_column_text][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<h6>OPOSI\u00c7\u00c3O: OPORTUNISMO N\u00c3O \u00c9 LIDERAN\u00c7A<\/h6>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 apenas o governo que precisa ser confrontado.<br \/>\nA oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tamb\u00e9m tem uma responsabilidade que n\u00e3o pode continuar a ser ignorada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 f\u00e1cil aparecer nas c\u00e2maras depois da trag\u00e9dia.<br \/>\n\u00c9 confort\u00e1vel emitir comunicados de solidariedade quando o povo j\u00e1 sangrou.<br \/>\nO dif\u00edcil \u00e9 assumir o papel de educador pol\u00edtico, de formador de consci\u00eancia, de organizador pac\u00edfico da indigna\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser apenas uma m\u00e1quina de rea\u00e7\u00e3o tem de ser um instrumento de transforma\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE, infelizmente, muitos l\u00edderes opositores preferem fazer aproveitamento pol\u00edtico do sofrimento alheio.<br \/>\nAlimentam a raiva, empurram os jovens para o confronto, mas quando chega a repress\u00e3o, s\u00e3o os pobres que pagam a fatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o s\u00e3o os filhos dos pol\u00edticos que est\u00e3o na linha da frente das balas.<br \/>\nN\u00e3o s\u00e3o os l\u00edderes que morrem nas ruas \u00e9 o jovem da zunga, \u00e9 o taxista da periferia, \u00e9 a m\u00e3e que vende p\u00e3o com o filho \u00e0s costas.<br \/>\nE quando essa m\u00e3e perde o filho ou v\u00ea o seu pequeno neg\u00f3cio destru\u00eddo, ningu\u00e9m da oposi\u00e7\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 para reergu\u00ea-la.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 preciso coragem para governar, mas \u00e9 preciso ainda mais coragem para ser oposi\u00e7\u00e3o com \u00e9tica.<\/p><\/blockquote>\n<p>A pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 palco de manipula\u00e7\u00e3o da dor. O povo n\u00e3o \u00e9 massa de manobra para vencer elei\u00e7\u00f5es.<br \/>\nA oposi\u00e7\u00e3o precisa sair do discurso f\u00e1cil e assumir o seu papel hist\u00f3rico com seriedade e vis\u00e3o.<\/p>\n<h6>CONCLUS\u00c3O \u2013 UM FUTURO A SER RECONSTRU\u00cdDO COM MATURIDADE<\/h6>\n<p>Este momento que vivemos n\u00e3o pode ser desperdi\u00e7ado como mais um epis\u00f3dio de f\u00faria passageira nem reduzido a estat\u00edsticas est\u00e9reis.<br \/>\nVinte e duas vidas foram ceifadas, e com elas, sonhos, fam\u00edlias, hist\u00f3rias e esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>A juventude n\u00e3o pode continuar a ser apenas carne de canh\u00e3o da frustra\u00e7\u00e3o social.<br \/>\nO Estado n\u00e3o pode continuar a olhar o seu pr\u00f3prio povo como inimigo.<br \/>\nE a oposi\u00e7\u00e3o precisa decidir se quer liderar uma mudan\u00e7a aut\u00eantica ou apenas explorar politicamente as feridas do povo.<\/p>\n<p>Todos temos responsabilidades. Todos temos escolhas a fazer. E todas essas escolhas definir\u00e3o que pa\u00eds Angola ser\u00e1 daqui a cinco, dez ou cinquenta anos.<\/p>\n<p>A justi\u00e7a n\u00e3o pode ser adiada, o di\u00e1logo n\u00e3o pode ser reprimido e a mem\u00f3ria n\u00e3o pode ser apagada.<br \/>\nO povo angolano j\u00e1 sacrificou demais. Agora, precisa ser ouvido, respeitado e inclu\u00eddo.<\/p>\n<p>\u00c9 com a escuta que se governa. \u00c9 com a lucidez que se protesta. E \u00e9 com a consci\u00eancia que se vota.<\/p>\n<p>Angola n\u00e3o precisa de mais m\u00e1rtires. Precisa de l\u00edderes com coragem moral, juventude com vis\u00e3o e institui\u00e7\u00f5es com alma.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;] Durante tr\u00eas dias, Angola deixou cair a m\u00e1scara do sil\u00eancio institucional. 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