{"id":1397,"date":"2025-06-30T13:40:58","date_gmt":"2025-06-30T12:40:58","guid":{"rendered":"https:\/\/sempasebastiao.com\/?p=1397"},"modified":"2025-06-30T13:40:58","modified_gmt":"2025-06-30T12:40:58","slug":"assinaram-a-paz-mas-riram-de-quem-sofre-o-congo-o-rwanda-e-o-teatro-de-washington","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/2025\/06\/30\/assinaram-a-paz-mas-riram-de-quem-sofre-o-congo-o-rwanda-e-o-teatro-de-washington\/","title":{"rendered":"Assinaram a Paz, Mas Riram de Quem Sofre: o Congo, o Rwanda e o Teatro de Washington"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<h6 style=\"text-align: left;\">1. Introdu\u00e7\u00e3o: quando a paz n\u00e3o \u00e9 justi\u00e7a<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 27 de junho de 2025, um acordo foi assinado em Washington entre a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo e o Rwanda, com a media\u00e7\u00e3o do presidente norte-americano Donald Trump. O tratado visava encerrar os conflitos armados no Leste do Congo, territ\u00f3rio profundamente ferido por d\u00e9cadas de guerra e pela atua\u00e7\u00e3o do grupo rebelde M23, apoiado por Kigali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 primeira vista, parecia uma solu\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica. Mas uma an\u00e1lise cuidadosa revela que este n\u00e3o \u00e9 um tratado de paz no verdadeiro sentido da palavra. \u00c9, antes, um contrato pol\u00edtico que beneficia os mais fortes e compromete, mais uma vez, a soberania da RDC e a dignidade do seu povo.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: left;\">2. O conte\u00fado do acordo e o que est\u00e1 ausente<\/h6>\n<p style=\"text-align: left;\">O texto do acordo estabelece pontos como:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 a retirada das tropas ruandesas em 90 dias;<br \/>\n\u2013 a cessa\u00e7\u00e3o m\u00fatua de apoio a grupos armados;<br \/>\n\u2013 a cria\u00e7\u00e3o de um mecanismo conjunto de seguran\u00e7a com observadores internacionais;<br \/>\n\u2013 promessas de investimentos ocidentais no setor mineiro;<br \/>\n\u2013 a reintegra\u00e7\u00e3o seletiva de combatentes;<br \/>\n\u2013 o retorno dos refugiados com apoio humanit\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, o documento n\u00e3o apresenta cl\u00e1usulas de responsabiliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 previs\u00e3o de san\u00e7\u00f5es para o n\u00e3o cumprimento das obriga\u00e7\u00f5es. Nenhum artigo estabelece o que ocorrer\u00e1 se uma das partes violar os compromissos. Trata-se, portanto, de um acordo sem mecanismos de defesa legal para proteger o povo congol\u00eas de novas agress\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, o grupo M23, protagonista da viol\u00eancia recente, sequer \u00e9 mencionado formalmente, o que compromete a credibilidade do texto.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: left;\">3. O que o Rwanda realmente ganha<\/h6>\n<p style=\"text-align: left;\">O Rwanda sai fortalecido. Ao aceitar o acordo, conquista:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 legitimidade internacional como ator de estabilidade regional;<br \/>\n\u2013 acesso continuado aos recursos minerais do Kivu, agora por meio de vias diplom\u00e1ticas;<br \/>\n\u2013 o direito de permanecer presente na RDC atrav\u00e9s de estruturas de \u201ccoopera\u00e7\u00e3o em seguran\u00e7a\u201d;<br \/>\n\u2013 a reconstru\u00e7\u00e3o de sua imagem externa, transformando-se de agressor em parceiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A narrativa que se imp\u00f5e \u00e9 a de que Kigali est\u00e1 a colaborar. Na pr\u00e1tica, legitima-se uma ocupa\u00e7\u00e3o indireta, um dom\u00ednio suave e estrat\u00e9gico que dispensa armas, mas mant\u00e9m o controle.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: left;\">4. O que os Estados Unidos ganham<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os interesses norte-americanos no acordo s\u00e3o claros. Ao mediar o processo, os Estados Unidos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 garantem acesso privilegiado aos minerais estrat\u00e9gicos da RDC, especialmente coltan, cobalto e ouro;<br \/>\n\u2013 bloqueiam a influ\u00eancia econ\u00f4mica e diplom\u00e1tica da China na regi\u00e3o;<br \/>\n\u2013 fortalecem a imagem de Donald Trump como mediador de conflitos num ano eleitoral nos EUA;<br \/>\n\u2013 favorecem empresas privadas ligadas a c\u00edrculos pol\u00edticos, interessadas em contratos de explora\u00e7\u00e3o mineral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Congo, assim, transforma-se novamente num campo de batalha de interesses estrangeiros, mascarados sob o nome de \u201cajuda internacional\u201d.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: left;\">5. E a RDC, o que recebe?<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">A RDC recebe, em troca, uma promessa de pausa nas hostilidades e apoio t\u00e9cnico e financeiro. No entanto, perde:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 soberania sobre partes do seu territ\u00f3rio;<br \/>\n\u2013 o poder de decidir com autonomia sobre os seus recursos;<br \/>\n\u2013 a confian\u00e7a de milh\u00f5es de congoleses que esperavam por justi\u00e7a real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A assinatura do acordo foi feita longe do Parlamento congol\u00eas, sem debate p\u00fablico, sem consulta \u00e0 sociedade civil, sem participa\u00e7\u00e3o dos deslocados, das v\u00edtimas ou dos sobreviventes da guerra.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: left;\">6. A repeti\u00e7\u00e3o de erros hist\u00f3ricos<\/h6>\n<p style=\"text-align: left;\">Este acordo repete erros cometidos em acordos anteriores:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2013 o Acordo de Lusaka, de 1999, falhou por falta de aplica\u00e7\u00e3o e responsabiliza\u00e7\u00e3o;<br \/>\n\u2013 o Acordo de Pret\u00f3ria, de 2002, previa retirada das tropas ruandesas, mas n\u00e3o impediu novas incurs\u00f5es;<br \/>\n\u2013 o Di\u00e1logo de Sun City, no mesmo ano, deu lugar \u00e0 partilha de poder com senhores da guerra, alimentando novos ciclos de viol\u00eancia;<br \/>\n\u2013 o Acordo de Luanda, tamb\u00e9m de 2002, n\u00e3o teve acompanhamento s\u00e9rio por parte da Uni\u00e3o Africana ou da ONU.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos esses acordos falharam pelo mesmo motivo: falta de vontade real de fazer justi\u00e7a e aus\u00eancia de mecanismos de prote\u00e7\u00e3o do povo congol\u00eas.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: left;\">7. Tshisekedi: proteger o Estado ou proteger o poder?<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">O presidente F\u00e9lix Tshisekedi assume neste acordo o papel de um negociador que aceita concess\u00f5es perigosas para garantir o apoio dos aliados internacionais. A sua decis\u00e3o pode ser interpretada como pragm\u00e1tica ou como rendi\u00e7\u00e3o. No momento em que a sua legitimidade interna enfraquece e a contesta\u00e7\u00e3o cresce, o acordo serve como escudo diplom\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de proteger o Estado congol\u00eas ou de proteger o poder presidencial? A hist\u00f3ria julgar\u00e1, mas os sinais indicam que o povo foi colocado em segundo plano.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: left;\">8. Conclus\u00e3o: o povo ausente da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria<\/h6>\n<p>[\/vc_column_text][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este acordo n\u00e3o foi feito pelo povo, nem para o povo. Foi assinado entre sistemas, n\u00e3o entre consci\u00eancias. O sofrimento do Leste, as mortes silenciosas, as aldeias queimadas, as mulheres violentadas e as crian\u00e7as sem escola n\u00e3o foram levados em conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se constr\u00f3i paz verdadeira sem justi\u00e7a, sem verdade e sem participa\u00e7\u00e3o popular. Os mesmos que pilharam o Congo voltam agora a propor solu\u00e7\u00f5es que lhes garantam acesso aos mesmos recursos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto os poderosos escrevem acordos em escrit\u00f3rios climatizados, o povo congol\u00eas continua a viver entre o sil\u00eancio das armas e o barulho dos interesses estrangeiros.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Cita\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nAs palavras de paz n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f4nimo de justi\u00e7a quando escritas com tinta estrangeira e sangue local. A verdadeira paz s\u00f3 floresce onde o povo \u00e9 o autor do seu pr\u00f3prio destino.<br \/>\n<strong>\u2014 Sempa Sebasti\u00e3o<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;] 1. Introdu\u00e7\u00e3o: quando a paz n\u00e3o \u00e9 justi\u00e7a No dia 27 de junho de 2025, um acordo foi assinado em Washington entre a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo e o Rwanda, com a media\u00e7\u00e3o do presidente norte-americano Donald Trump. 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