{"id":1313,"date":"2025-06-06T08:42:46","date_gmt":"2025-06-06T07:42:46","guid":{"rendered":"https:\/\/sempasebastiao.com\/?p=1313"},"modified":"2025-06-06T08:42:46","modified_gmt":"2025-06-06T07:42:46","slug":"angola-em-miniaturas-quando-o-oleo-e-o-acucar-se-medem-em-ouncas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/sempa2\/2025\/06\/06\/angola-em-miniaturas-quando-o-oleo-e-o-acucar-se-medem-em-ouncas\/","title":{"rendered":"Angola em Miniaturas: Quando o \u00d3leo e o A\u00e7\u00facar se Medem em Oun\u00e7as"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recentemente, ao passar por algumas cantinas da cidade de Luanda, deparei-me com uma imagem profundamente inquietante. Numa delas, vi \u00f3leo de cozinha embalado em pequenos pacotes de 5 on\u00e7as. Noutra, a\u00e7\u00facar acondicionado na mesma medida. \u00c0 primeira vista, parece uma adapta\u00e7\u00e3o comercial qualquer. Mas, na verdade, essa pr\u00e1tica revela um fen\u00f4meno mais grave: a normaliza\u00e7\u00e3o da escassez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses pacotes de 5 on\u00e7as o equivalente a aproximadamente 147 mililitros de \u00f3leo ou 140 gramas de a\u00e7\u00facar n\u00e3o s\u00e3o mera conveni\u00eancia. Representam a fratura do poder de compra, a decad\u00eancia do consumo b\u00e1sico e o empobrecimento silencioso da popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 como se a sobreviv\u00eancia estivesse sendo repartida em pequenas fra\u00e7\u00f5es, como migalhas negociadas \u00e0 margem da dignidade.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: left;\">A miniaturiza\u00e7\u00e3o da sobreviv\u00eancia<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de um novo tipo de viol\u00eancia: discreta, sem manchetes, mas devastadora. Estamos a assistir \u00e0 miniaturiza\u00e7\u00e3o da sobreviv\u00eancia. Quando os bens essenciais passam a ser vendidos em por\u00e7\u00f5es \u00ednfimas, n\u00e3o se trata de inova\u00e7\u00e3o de mercado trata-se da institucionaliza\u00e7\u00e3o da precariedade. O cidad\u00e3o \u00e9 for\u00e7ado a ajustar a sua fome \u00e0 medida do que pode pagar, e n\u00e3o mais \u00e0 medida do que precisa para viver com dignidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1 isto uma pol\u00edtica de conten\u00e7\u00e3o da pobreza ou um espelho da sua expans\u00e3o?<\/p>\n<h6 style=\"text-align: left;\">Onde est\u00e1 o Estado?<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso interpelar as autoridades p\u00fablicas: onde est\u00e1 o Estado diante desse cen\u00e1rio?<br \/>\nQual \u00e9 o papel do Minist\u00e9rio do Com\u00e9rcio, da Defesa do Consumidor, da Economia e Planeamento, diante dessa tend\u00eancia? Quem regula esse novo \u201cmercado das sobras\u201d?<br \/>\nPermitir que o essencial se transforme em mercadoria fracionada \u00e0 beira da mis\u00e9ria \u00e9 legitimar a degrada\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se, aqui, de muito mais do que apenas economia. \u00c9 uma quest\u00e3o de justi\u00e7a social. \u00c9 uma den\u00fancia do abandono estrat\u00e9gico das camadas populares, que sobrevivem entre improvisos e desespero, enquanto os indicadores macroecon\u00f4micos s\u00e3o celebrados em discursos oficiais.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<h6 style=\"text-align: left;\">A fal\u00e1cia da acessibilidade<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">A venda de \u00f3leo ou a\u00e7\u00facar em pacotes de 5 on\u00e7as \u00e9 apresentada como uma solu\u00e7\u00e3o &#8220;acess\u00edvel&#8221; para os pobres. Mas essa acessibilidade \u00e9 uma fal\u00e1cia. O que se vende n\u00e3o \u00e9 inclus\u00e3o \u00e9 resigna\u00e7\u00e3o. O que se compra n\u00e3o \u00e9 dignidade \u00e9 sobreviv\u00eancia m\u00ednima. \u00c9 o s\u00edmbolo de um pa\u00eds que produz riqueza, mas cujos filhos vivem sob a gest\u00e3o da escassez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa pr\u00e1tica revela tamb\u00e9m um tipo de oportunismo cruel, que lucra com a mis\u00e9ria e naturaliza o inaceit\u00e1vel. N\u00e3o podemos aceitar que o empobrecimento seja mascarado por estrat\u00e9gias de embalagem.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: left;\">Um apelo \u00e0 consci\u00eancia nacional<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso romper o sil\u00eancio.<br \/>\nHoje, vendem-se alimentos b\u00e1sicos em medidas reduzidas. Amanh\u00e3, ser\u00e1 o sab\u00e3o cortado em cent\u00edmetros, o arroz embalado em envelopes, e talvez o combust\u00edvel vendido em gotas.<br \/>\nSe n\u00e3o houver uma rea\u00e7\u00e3o institucional, popular e cr\u00edtica, estaremos a caminho de um modelo de sociedade onde a dignidade ser\u00e1 proporcional \u00e0 quantidade que se pode comprar e n\u00e3o ao valor humano de cada cidad\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 urgente repensar as prioridades nacionais. O povo angolano merece pol\u00edticas p\u00fablicas sustent\u00e1veis, medidas sociais eficazes, e um governo que reconhe\u00e7a que a fome disfar\u00e7ada de &#8220;acessibilidade&#8221; \u00e9 uma das formas mais perigosas de viol\u00eancia social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque, se aceitarmos calados essas pequenas por\u00e7\u00f5es, amanh\u00e3 tamb\u00e9m aceitaremos metade dos nossos direitos.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;] Recentemente, ao passar por algumas cantinas da cidade de Luanda, deparei-me com uma imagem profundamente inquietante. Numa delas, vi \u00f3leo de cozinha embalado em pequenos pacotes de 5 on\u00e7as. Noutra, a\u00e7\u00facar acondicionado na mesma medida. \u00c0 primeira vista, parece uma adapta\u00e7\u00e3o comercial qualquer. 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