29Mai

Durante a minha presença em Paris, onde participei na Cimeira Saude AfricaEuropa, tive a oportunidade de me encontrar com vários irmãos angolanos residentes aqui em Franca. Em diferentes momentos, alguns aproximaram-se de mim não por acaso, mas movidos por dor e necessidade.
Falaram comigo como se falam com alguém de confiança. Falaram como se estivessem a espera de alguém que os ouvisse.

E eu ouvi.

Ouvi com atenção. Dei-lhes tempo. E, mais importante, dei-lhes escuta.

Não se tratou de um encontro politico, nem de uma entrevista formal. Foi um gesto humano. E o que ouvi foi profundo: angolanos cansados, angustiados, desorientados e desamparados.

1. AS QUEIXAS E AS DORES DA COMUNIDADE

O motivo principal? As dificuldades constantes na Embaixada de Angola em Franca para tratar documentos basicos como:

  • Renovacao do cartao consular;
  • Declaracoes de nacionalidade;
  • Reemissao de passaportes;
  • Apoio para regressar ao pais para quem perdeu o titre de sejour (titulo de residencia); – E, em muitos casos, falta de orientacao minima e de acolhimento respeitoso.

Relatos de pessoas que estao ha meses a tentar resolver simples processos. Pessoas que choram, que voltam para casa de maos vazias depois de filas e esperas.
Pessoas que vivem um sentimento profundo de abandono institucional.

2. UM APELO QUE NAO E ACUSAÇÃO, MAS UM DEVER DE CONSCIÊNCIA

O que trago aqui nao e um ataque. Nao e uma denuncia vazia.

E um apelo com base em testemunhos reais, feitos por cidadãos que pediram, inclusive, para que seus nomes não fossem mencionados, por receio de represálias ou constrangimentos futuros.

Falaram comigo com confianca e esperanca. Esperanca de que alguem, ao menos, escrevesse. E aqui estou. A cumprir o papel do jornalista: ouvir onde ninguem quer escutar e falar onde muitos se calam.

3. A FUNCAO DA EMBAIXADA NAO E DECORAR O PAIS, E PROTEGER O SEU POVO

A Embaixada de Angola em Franca e uma extensao do Estado.
Nao e apenas uma representacao politica ou diplomatica e uma casa do povo angolano no exterior.
Logo, o seu dever e servir, proteger e orientar os cidadaos, especialmente aqueles que se encontram em situacoes frageis ou de risco legal e humanitario.

Um cartao consular nao e apenas um papel e dignidade. Um atendimento claro nao e apenas protocolo e respeito.

4. O QUE PEDIMOS AS AUTORIDADES

Pedimos que olhem com mais seriedade para a situação dos angolanos na diáspora, sobretudo aqui em Franca.
Pedimos que haja:
Melhoria no funcionamento dos serviços consulares;

  • Clareza nos procedimentos;
  • Atendimento humano e acessível;
  • Abertura de canais reais de escuta e apoio;
  • E acima de tudo, respeito institucional por quem representa a bandeira fora da pátria.
5. CONCLUSÃO: O SILÉNCIO DO POVO E O PESO DO ESTADO

E duro ver cidadãos a sofrer por algo que e seu por direito.

E doloroso saber que, muitas vezes, quem esta longe da pátria sofre mais por parte da própria pátria do que dos estrangeiros.

“Nenhum cidadão deve ser deixado para tras muito menos fora da sua pátria.”

Que esta tribuna seja recebida com espirito de responsabilidade.
Não para julgar, mas para despertar. Não para ofender, mas para corrigir.
Porque uma Angola justa começa também pelo modo como cuida dos seus filhos onde quer que eles estejam.