{"id":11666,"date":"2024-02-18T17:20:45","date_gmt":"2024-02-18T17:20:45","guid":{"rendered":"https:\/\/heldersimbad.org\/?p=11666"},"modified":"2025-04-27T15:43:09","modified_gmt":"2025-04-27T15:43:09","slug":"texto-de-apresentacao-do-livro-os-funerais-de-manguituka-o-terrivel-bandido-outros-mambos-de-albino-carlos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/2024\/02\/18\/texto-de-apresentacao-do-livro-os-funerais-de-manguituka-o-terrivel-bandido-outros-mambos-de-albino-carlos\/","title":{"rendered":"Texto de Apresenta\u00e7\u00e3o do livro Os Funerais de Manguituka, o terr\u00edvel bandido &amp; outros mambos de Albino Carlos"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"11666\" class=\"elementor elementor-11666\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-6d66f8e e-flex e-con-boxed e-con e-parent\" data-id=\"6d66f8e\" data-element_type=\"container\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-0a11874 e-flex e-con-boxed e-con e-parent\" data-id=\"0a11874\" data-element_type=\"container\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-f4aa40e elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"f4aa40e\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>Em <em>Os Funerais de Manguituka, o terr\u00edvel bandido &amp; outros mambos<\/em><strong>, <\/strong>Albino Carlos apresenta-nos um conjunto de 11 contos que reflectem a sociedade angolana do p\u00f3s-Independ\u00eancia, desde a guerra fratricida at\u00e9 a actualidade. Albino Carlos encontra nas suas reminisc\u00eancias de petiz e nas suas viv\u00eancias de homem adulto, assim como nas viagens que efectuou, a possibilidade de construir narrativas memoriativas. Nisso, a tend\u00eancia descritivista de jornalista e as t\u00e9cnicas apuradas a partir das leituras de narrativas de conceito m\u00e1gico e animista v\u00e3o conformar a sua escrita, marcadamente ins\u00f3lita, ora apenas pela desautomatiza\u00e7\u00e3o da linguagem ora pela decifra\u00e7\u00e3o dos enredos. Por imperativo de p\u00e1ginas, vamos situar a nossa abordagem em apenas tr\u00eas narrativas.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-d864660 elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"d864660\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/heldersimbad.org\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/apresen-albino-ban1.png\" title=\"\" alt=\"\" loading=\"lazy\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-7a0a5b7 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"7a0a5b7\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 1- \u201cOs Funerais de Manguituka, o Terr\u00edvel Bandido\u201d \u00e9 um conto que emerge num contexto proverbial, ou seja, a trama gira em torno do prov\u00e9rbio \u201c<em>\u00fbfa kia\u00edba, ufuman\u00easa \u00e1 f\u00fandi, <\/em>dizia o povo: quem tem m\u00e1 morte, faz acautelar a<br \/>quem o enterra\u201d (p.13). Com efeito, temos um protagonista, anti-her\u00f3i, cuja morte por execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria e sabendo-se \u00e0 partida quem a efectivara, em vez de gerar rep\u00fadio, consterna\u00e7\u00e3o e como\u00e7\u00e3o, constitui-se como um acto de liberta\u00e7\u00e3o para uma comunidade que age contrariamente aos seus costumes, no que toca ao tratamento dado aos mortos; entretanto, justificado pelo j\u00e1 referido prov\u00e9rbio e pelas ac\u00e7\u00f5es do protagonista, um psicopata que mesmo depois de morto continuaria a ser temido.<\/p><p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A narrativa traz resqu\u00edcio de eventos que se d\u00e3o com alguma regularidade no nosso quotidiano onde, por conta de uma educa\u00e7\u00e3o fragilizada e da extrema pobreza que gra\u00e7a a maior parte das fam\u00edlias, se cometem crimes hediondos por raz\u00f5es impens\u00e1veis, algumas das quais elencadas pelo narrador a prop\u00f3sito de uma das v\u00edtimas mortais de Manguituka:<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-8bb3b19 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"8bb3b19\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"padding-left: 120px;\">O motivo da briga deles, uns diziam Massoxi ca\u00e7umbulou mbora a sande de chouri\u00e7o de Manguituka; outros sabulavam Manguituka queria roubar sapatilhas de Massoxi; uns avan\u00e7avam era maka de bola,(pp.16-15)<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-a9fd3e7 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"a9fd3e7\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>Se tivermos em conta o actual quadro dos direitos humanos, o vil\u00e3o (Manguituka) transformar-se-ia em v\u00edtima e entrar\u00edamos naquele conflito moral que se d\u00e1 na nossa, em que o povo estima quando \u00e9 abatido um marginal altamente perigoso. Dentro do quadro evocado, o texto configurar-se-ia como uma cr\u00edtica \u00e0s ac\u00e7\u00f5es da pol\u00edcia e uma das quest\u00f5es muito discutidas relativamente \u00e0 suspei\u00e7\u00e3o de haver esquadr\u00f5es da morte dentro da Pol\u00edcia Nacional seria levantada. Por conseguinte, nesta conven\u00e7\u00e3o extrajudicial entre povo e pol\u00edcia abrir-se-ia espa\u00e7os para vaidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da ordem p\u00fablica:<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-7d97bc9 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"7d97bc9\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"padding-left: 120px;\">Se alguma alma caridosa se dignou a acompanh\u00e1-lo at\u00e9 \u00e0 \u00faltima morada, fizera-o for\u00e7adamente arregimentada pela pol\u00edcia na sua sede de protagonismo medi\u00e1tico, cuidando que porque-porque e bonho-bonho e <em>kapuete kamundanda e kabolokosso. <\/em>(p.13)<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-6bd5a4a elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"6bd5a4a\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>O narrador n\u00e3o apresenta abertamente o autor do assassinato do anti-her\u00f3i. Tem-se este entendimento pela conjuntura da obra e, sobretudo, pelo excerto abaixo descrito, em que a presen\u00e7a de um pelot\u00e3o de fuzilamento do Esquadr\u00e3o da Morte e um poder de fogo s\u00f3 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia nacional ou das for\u00e7as armadas se evidenciam:<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-eb8d4e0 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"eb8d4e0\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"padding-left: 120px;\">De modos que Manguituka teve uma morte digna de um verdadeiro filho da puta: colocado perante um improvisado pelot\u00e3o de fuzilamento do Esquadr\u00e3o da Morte, foi crivado por uma carga de fogo que dava para dizimar uma manada de elefantes. p.16<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-cb9515d elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"cb9515d\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>\u201cOs Funerais de Manguituka, o Terr\u00edvel Bandido\u201d \u00e9 a demonstra\u00e7\u00e3o de como o que \u00e9 designado como tradi\u00e7\u00e3o se fossiliza na dita modernidade. Pela categoria da verosimilhan\u00e7a, este universo dieg\u00e9tico aponta para Angola actual. No entanto, a religiosidade africana, baseada no princ\u00edpio do vitalismo, como diria Placide Templs (2001), ou animismo, conforme em Harry Garuba, apesar do predom\u00ednio do racionalismo cartesiano de heran\u00e7a colonial, continua a predominar. Esta natureza h\u00edbrida da nossa sociedade tamb\u00e9m conforma a linguagem do texto em que podemos vislumbrar um entrela\u00e7ar de vozes que partem da linguagem po\u00e9tica, passando pela proverbial, at\u00e9 aos falares populares de indiv\u00edduos com o mesmo estatuto et\u00e1rio do autor, na medida em que tal socioleto n\u00e3o \u00e9 transversal \u00e0s gera\u00e7\u00f5es subsequentes.<\/p><p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No \u00e2mbito das po\u00e9ticas do ins\u00f3lito, a narrativa \u00e9 estruturada conceptualmente dentro dos princ\u00edpios da prosa animista. O assombro resulta da cren\u00e7a de que mesmo depois da morte continua haver a possibilidade de um morto ressurgir, e as coisas inanimadas podem ganhar vida por uma ac\u00e7\u00e3o sobrenatural. Logo no in\u00edcio da narrativa o leitor \u00e9 introduzido numa situa\u00e7\u00e3o de perturba\u00e7\u00e3o da ordem natural:<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-2251895 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"2251895\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"padding-left: 120px;\">No dia da morte de Manguituka, o terr\u00edvel bandido, ningu\u00e9m derramou uma l\u00e1grima, sequer. O c\u00e9u gemia sob o peso de um enrodilhado de nuvens cinzentas figurando rostos de animais aterrorizados que olhavam para baixo. (p.13)<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-20388ca elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"20388ca\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>O cemit\u00e9rio, mais do que um lugar sagrado para honrar os entes queridos, por si s\u00f3, j\u00e1 \u00e9 um lugar onde atravessam muitas narrativas ligadas a actividades paranormais. \u00c9 exactamente neste lugar onde o espa\u00e7o psicol\u00f3gico e o espa\u00e7o f\u00edsico se confundem nas cabe\u00e7as das personagens:<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-e07ca38 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"e07ca38\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"padding-left: 120px;\">Naquela tarde solarenga, pesava sob o cemit\u00e9rio o cheiro acre da morte e o rumor dos golpes da p\u00e1; o coveiro e as escassas testemunhas, afogados no pr\u00f3prio medo, cada um mais receoso do que cada qual de que Manguituka acordasse e desatasse aos tiros e \u00e0s catanadas, todos procuravam apagar da mem\u00f3ria qualquer vest\u00edgio da lembran\u00e7a de Manguituka nos sussurros secos das pazadas que compactavam o ch\u00e3o de terra da sua campa rasa, que quem tem m\u00e1 morte faz acautelar a pessoa que o enterra. (p.14)<\/p><p style=\"padding-left: 120px;\">no dia do enterro de Manguituka, o maldito, como sabemos, todas as pessoas presentes abandonaram o cemit\u00e9rio na agita\u00e7\u00e3o do <em>kukulo kukulo<\/em>, todos<br \/>nervosos na sua \u00e2nsia de bazar dali o quanto antes, ir ao cemit\u00e9rio \u00e9 acordar os esp\u00edritos. (p.17)<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-c709ed3 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"c709ed3\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 2- Contra a crise de valores que assola o nosso pa\u00eds, onde a fun\u00e7\u00e3o social das figuras concebidas como tradicionais vai-se degradando, no segundo conto, o autor traz a m\u00edtica figura de Cinganji, elemento cultural da etnia Ovimbundu associado \u00e0 exalta\u00e7\u00e3o cultural, aos rituais de circuncis\u00e3o e, por vezes, usado, n\u00e3o s\u00f3 no espa\u00e7o rural onde o seu simbolismo \u00e9 melhor preservado, como tamb\u00e9m nos meios urbanos, para a anima\u00e7\u00e3o em eventos festivos de recep\u00e7\u00e3o de entidades protocolares e n\u00e3o s\u00f3. Esta entidade faz parte das constru\u00e7\u00f5es antropom\u00f3rficas dos povos africanos. Est\u00e1 para os bakamas, entre os Ibindas. Ambas entidades costumavam a ser respeitadas e temidas por conta de um conjunto de narrativas mitol\u00f3gicas constru\u00eddas \u00e0 sua volta:<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-320accc elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"320accc\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"padding-left: 120px;\">Quem n\u00e3o teme o Cinganji? At\u00e9 o dem\u00f3nio faz o sinal de cruz, \u00e0 tempestuosa apari\u00e7\u00e3o de t\u00e3o ilustre mascarado. (p.22)<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-e9da44b elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"e9da44b\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>Albino Carlos faz uma descri\u00e7\u00e3o l\u00edrica sobre o impacto desta entidade nas comunidades, reconhecendo o sentido sacrossanto atribu\u00eddo pela comunidade, mas sem deixar de lado a sua real vis\u00e3o, de um sujeito h\u00edbrido, de um racionalismo sincr\u00e9tico que emerge da cultura cartesiana, mas \u00e9 profundamente impactado pela cultura bantu. No entanto, como vive nesta era de profunda dissolu\u00e7\u00e3o do inconsciente animista, n\u00e3o deixa de reconhecer a dimens\u00e3o mitol\u00f3gica do ser em quest\u00e3o. Neste sentido, tem a necessidade de se servir de um verso de Fernando Pessoa, extra\u00eddo do poema de exalta\u00e7\u00e3o her\u00f3ica \u201c<strong>Ulisses\u201d<\/strong>: \u201cO mito \u00e9 o nada que \u00e9 tudo<strong>\u201d<\/strong>.<\/p><p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tal como \u201c<strong>Ulisses\u201d<\/strong>, Cinganji aqui aportou, uma entidade divina num corpo f\u00edsico; podendo ser apenas um homem mascarado, aceitamo-lo como Cinganji e isto nos basta. \u201cAssim a lenda se escorre. A entrar na realidade<strong>\u201d, <\/strong>diria Fernando Pessoa.\u00a0\u00a0 Entretanto, \u00e9 preciso esclarecer que este sentido sacrossanto n\u00e3o \u00e9 percebido por todos e figuras como Cinganji, bakama, entre outras, no mundo contempor\u00e2neo, s\u00e3o alvos, n\u00e3o de profana\u00e7\u00e3o, porquanto, n\u00e3o se lhes reconhece mais essa dimens\u00e3o divina, mas sim, de alguma viol\u00eancia simb\u00f3lica devido o nosso fraco sentido de preserva\u00e7\u00e3o cultural e a liquidez do mundo actual. Isto est\u00e1 associada \u00e0 longa guerra civil e a indefini\u00e7\u00e3o de um ensino dominado pelo inconsciente colonial. Sobre a primeira raz\u00e3o, mudando fatalisticamente o modo de representa\u00e7\u00e3o da narrativa, introduzido pela frase \u201cMatem os vossos \u00eddolos\u201d<em>, <\/em>que Guns N\u00b4Roses usou em 1992, numa camisola abaixo da imagem de Jesus Cristo, numa <em>tourn\u00e9e<\/em> em Tokyo<em>,<\/em> o autor agrega \u00e0 longa descri\u00e7\u00e3o do Cinganji, um evento de rusga durante a guerra civil em que um Cinganji \u00e9 espancado por um soldado que o interpelara.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p><p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em suma, o conto configura uma cr\u00edtica a dessacraliza\u00e7\u00e3o das nossas figuras tradicionais, da queda da \u201cUanga\u201d, enquanto institui\u00e7\u00e3o que regula comportamentos atrav\u00e9s do medo sobrenatural.<\/p><p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 3- Por fim, no nono conto, \u201cO Pombo Branco\u201d, como em \u201cUanga\u201d, de \u00d3scar Ribas, Albino Carlos revela alegoricamente o triunfo do amor sobre qualquer forma de maldade. Dois melhores amigos, Dy\u00e1-bufo e Binayaye, entram numa contenda ap\u00f3s o sumi\u00e7o misterioso de um pombo branco muito cobi\u00e7ado. Como a trama \u00e9 regida simbolicamente pelas leis da prosa animista, Binayaye \u00e9 punido severamente por um cazumbi, de acordo com o diagn\u00f3stico do quimbanda , que o prescreveu como receita, entre outros elementos, \u201cuma galinha preta, um galo branco, uma pomba preta, um pombo branco\u201d. \u00a0O rar\u00edssimo pombo branco \u00e9 o centro do problema e, num verdadeiro acto de altru\u00edsmo por parte de Dy\u00e1-bufo, vir-se-ia a constituir-se como a salva\u00e7\u00e3o.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-da04078 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"da04078\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>Tempels, Placide 2001,\u00a0<em>La philosophie bantoue<\/em>, ed., de A. J. Smet<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Os Funerais de Manguituka, o terr\u00edvel bandido &amp; outros mambos, Albino Carlos apresenta-nos um conjunto de 11 contos que reflectem a sociedade angolana do<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[159],"tags":[165],"ppma_author":[174],"class_list":["post-11666","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-critica-literaria","tag-critica-literaria"],"aioseo_notices":[],"authors":[{"term_id":174,"user_id":2,"is_guest":0,"slug":"simbad","display_name":"H\u00e9lder Simbad","avatar_url":{"url":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/autor_hsimbad-n-1.png","url2x":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/autor_hsimbad-n-1.png"},"author_category":"1","first_name":"H\u00e9lder","last_name":"Simbad","user_url":"","job_title":"","description":""}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11666","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11666"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11666\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13054,"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11666\/revisions\/13054"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11666"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11666"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11666"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=11666"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}