{"id":10359,"date":"2024-02-04T19:10:24","date_gmt":"2024-02-04T19:10:24","guid":{"rendered":"https:\/\/akweno.ao\/hsimbad\/?p=10359"},"modified":"2025-04-27T15:43:10","modified_gmt":"2025-04-27T15:43:10","slug":"o-que-e-ser-angolano-para-um-conceito-ontologico-de-angolano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/2024\/02\/04\/o-que-e-ser-angolano-para-um-conceito-ontologico-de-angolano\/","title":{"rendered":"\u201cO Que \u00e9 Ser Angolano?\u201d Para um Conceito Ontol\u00f3gico de Angolano"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"10359\" class=\"elementor elementor-10359\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-6156261 e-flex e-con-boxed e-con e-parent\" data-id=\"6156261\" data-element_type=\"container\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-088fd90 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"088fd90\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>\u00a0A cren\u00e7a em uma identidade nacional serviu de elemento impulsionador durante a luta de liberta\u00e7\u00e3o, tendo-se configurado<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-36916ad elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"36916ad\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0A cren\u00e7a em uma identidade nacional serviu de elemento impulsionador durante a luta de liberta\u00e7\u00e3o, tendo-se configurado como um chamado patri\u00f3tico para que muitos integrassem um conflito do qual os angolanos sa\u00edram vitoriosos em 1975. O presente ensaio, motivado por um repto lan\u00e7ado pelo Centro de Estudos UFOLO para Boa Governa\u00e7\u00e3o, visa analisar o sujeito angolano do ponto de vista ontol\u00f3gico e tem as suas bases fundamentadas na Antropologia Filos\u00f3fica, que \u00e9 basicamente um dom\u00ednio do conhecimento que busca pela ess\u00eancia do homem, permitindo um di\u00e1logo multidisciplinar at\u00e9 mesmo com alguns campos categoriais que n\u00e3o mant\u00e9m rela\u00e7\u00e3o directa com a Antropologia. Com efeito, vamos procurar apresentar um conceito longe de qualquer motiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou etnoc\u00eantrica. Por sua natureza reflexiva e pelas exig\u00eancias impostas pela pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o, o m\u00e9todo de abordagem ao qual recorremos \u00e9 o hipot\u00e9tico-dedutivo, admitindo que o \u201cdial\u00e9tico\u201d \u00e9 a t\u00f3nica de qualquer reflex\u00e3o filos\u00f3fica. Por conseguinte, \u00e9 preciso ter na devida conta, que se torna muito dif\u00edcil construir um conceito gen\u00e9rico a partir de individualidades, porquanto n\u00e3o se conceitua o angolano tendo como refer\u00eancia apenas o luandense ou os moradores do Kilamba, por exemplo; porquanto o angolano somos n\u00f3s, indiv\u00edduos circunscritos \u00e0s 18 prov\u00edncias e \u00e0 di\u00e1spora, cada um com caracter\u00edsticas espec\u00edficas, com diferentes estatutos et\u00e1rios e sociais. Por fim, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 estrutura do trabalho, em primeiro lugar, apresentaremos uma explica\u00e7\u00e3o filos\u00f3fico-gramatical do sintagma verbal, que \u00e9 t\u00e3o-somente o n\u00facleo da pergunta de partida; em seguida, ressaltaremos a import\u00e2ncia da literatura e das outras artes para a afirma\u00e7\u00e3o da identidade nacional; posteriormente, buscar-se-\u00e1 o conceito ontol\u00f3gico de \u201cangolano\u201d atrav\u00e9s de diferentes campos categoriais, colocando \u00eanfase no multiculturalismo como elemento congregador, finalizando-se com uma sugest\u00e3o que se consubstanciar\u00e1 na nega\u00e7\u00e3o das purezas \u00e9tnicas e raciais como factor de uma consci\u00eancia nacional congregadora.<\/p><p style=\"text-align: justify;\">\u00a0A pergunta \u201cO Que \u00e9 Ser Angolano?\u201d traz na sua cadeia sem\u00e2ntica uma per\u00edfrase verbal que se resume essencialmente no infinitivo do verbo \u201cser\u201d. Trata-se de um verbo com bifurca\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas cuja abordagem sem\u00e2ntica mereceu a devida aten\u00e7\u00e3o de importantes fil\u00f3sofos, designadamente, Arist\u00f3teles, Descartes, Hegel, Heidegger, Sartre, etc., cada um, apesar de poss\u00edveis similitudes, com abordagens particulares. A abordagem filos\u00f3fica em torno do \u201cser\u201d reside entre o idealismo e o materialismo. Interpretando as palavras de Japiass\u00fa e Marcondes (2001), o idealismo hegeliano, por exemplo, conceitua o ser por via de uma anton\u00edmia que o reduz ao grau zero da exist\u00eancia, ou seja, a nada: \u201co ser, o imediato indeterminado, \u00e9, na realidade, nada, nem mais nem menos que nada\u201d; ao passo que para Arist\u00f3teles, o \u201cser\u201d \u00e9 entendido como uma subst\u00e2ncia, isto \u00e9, \u201caquilo que \u00e9 a coisa\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify;\">\u00a0A vis\u00e3o de Hegel resulta de um idealismo que faz lembrar o cepticismo pirr\u00f3nico, porquanto o que se observa, na verdade, \u00e9 a fobia de um fil\u00f3sofo que suspende o ju\u00edzo por for\u00e7a duma falsa premissa, \u201co imediato indeterminado\u201d, que gera uma conclus\u00e3o inadequada. Assim, Arist\u00f3teles, em compara\u00e7\u00e3o a Hegel, estar\u00e1 mais pr\u00f3ximo da verdade; no entanto, \u00e9 preciso perceber que o sintagma \u201cO que \u00e9 ser?\u201d, para al\u00e9m de remeter \u201c\u00e0quilo que a coisa \u00e9\u201d, implica um processo, ou seja, a \u201ccoisa\u201d em desenvolvimento. \u00c9, portanto, sobre esse prisma que procuraremos responder a pergunta de partida \u2013 \u2018\u2018O Que \u00e9 Ser Angolano?\u2019\u2019.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-9d701c1 e-flex e-con-boxed e-con e-parent\" data-id=\"9d701c1\" data-element_type=\"container\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-8a34d5b elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"8a34d5b\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: justify;\">A defesa de uma identidade nacional \u00e9 um imperativo existencial para quem durante s\u00e9culos passou por um processo de coloniza\u00e7\u00e3o. A dicotomia \u201ccolonizador\/colonizado\u201d deu azo ao par antag\u00f3nico \u201cimpostor\/reivindicador\u201d e \u00e9 neste \u00e2mbito que come\u00e7am as primeiras discuss\u00f5es sobre identidade nacional. Trata-se de um debate que saltou das entrelinhas das obras liter\u00e1rias de autores como Agostinho Neto, Ant\u00f3nio Jacinto e Viriato da Cruz e do pacifismo da Antrofilosofia impl\u00edcita nas abordagens de M\u00e1rio Pinto de Andrade e s\u00edmiles para se constituir num chamado para a luta que se impunha. Portanto, para uma melhor abordagem concatenada a esta tem\u00e1tica faz-se imprescind\u00edvel reconhecer os princ\u00edpios e as ac\u00e7\u00f5es do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, pois, o lema \u201cvamos descobrir Angola\u201d viria a transformar-se no maior grito na frente cultural e ideol\u00f3gica, na medida em que, para al\u00e9m de perseguir uma literatura que ignorasse o c\u00e2none colonial em prol de uma literatura com identidade pr\u00f3pria e que espelhasse as \u201cAngolas\u201d mais long\u00ednquas afastando qualquer preconceito, atrav\u00e9s da Casa dos Estudantes do Imp\u00e9rio, serviu posteriormente de importante instrumento ideol\u00f3gico para prossecu\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia Nacional.<\/p><p>\u00a0<\/p><p style=\"text-align: justify;\">Conv\u00e9m tamb\u00e9m destacar conjuntos musicais como os N\u2019gola Ritmos e outros cuja contribui\u00e7\u00e3o art\u00edstica favoreceu igualmente a constru\u00e7\u00e3o de uma identidade nacional firme. Destaca-se o contributo das artes porque foi atrav\u00e9s delas que se come\u00e7ou a ganhar uma consci\u00eancia nacional e descobriu-se que todas as tentativas de se desvanecer o homem africano, que habita nesta circunscri\u00e7\u00e3o que hoje tomamos por Angola, falharam. A luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional s\u00f3 se fundamenta nessa consci\u00eancia de ser, pois, sem ela, ser\u00edamos eternos \u201cescravizados\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify;\">O conceito ontol\u00f3gico de \u201cangolano\u201d remete-nos, como j\u00e1 referimos acima, ao exclusivo dom\u00ednio da Antropologia Filos\u00f3fica, que obriga a colocar em permanentes di\u00e1logos, diferentes campos categoriais, dentre os quais vale ressaltar o Direito, a Sociologia e a Psicologia, sendo que, a Antropologia Filos\u00f3fica j\u00e1 implica a Antropologia assim como a Filosofia, que por sua vez, integra a Ontologia.<\/p><p>\u00a0<\/p><p style=\"text-align: justify;\">A Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica de Angola, no seu n\u00famero 2 do Artigo 2.\u00ba, reconhece a condi\u00e7\u00e3o do angolano como um ser particular, quando, em mat\u00e9ria de promo\u00e7\u00e3o e defesa dos direitos e liberdades fundamentais, garante a promo\u00e7\u00e3o e a defesa dos direitos e liberdades fundamentais do homem, quer como \u201cindiv\u00edduo quer como membro de grupos sociais organizados\u201d. No \u00e2mbito do Direito, responder o que \u00e9 \u201cser angolano\u201d n\u00e3o se afigura uma tarefa que exige do pensador argumentos complexos, e, sem delongas, angolano ser\u00e1 aquele que, do ponto de vista legal, estabelece um v\u00ednculo de nacionalidade com o territ\u00f3rio angolano por via de um documento exarado pelo Minist\u00e9rio de Justi\u00e7a (Bilhete de Identidade ou Passaporte). Outrossim, interpretando os n\u00fameros 1, 2 e 3 do Artigo 9.\u00ba, dedicado \u00e0 quest\u00e3o da nacionalidade, angolano ser\u00e1 qualquer cidad\u00e3o nascido em Angola e civilmente registado como angolano, bem como aqueles que, tendo obedecido a todos os crit\u00e9rios legais, requerem a nacionalidade angolana por diversas ordens. Com a independ\u00eancia de Angola, muitos cidad\u00e3os nascidos em outros pontos gozaram dessa prerrogativa em raz\u00e3o do envolvimento na Luta de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional. No entanto, hoje, as raz\u00f5es s\u00e3o diversas e rondam entre o plano financeiro e o eventualmente afectivo. Contudo, \u00e9 preciso perceber que s\u00f3 o crit\u00e9rio do Direito n\u00e3o \u00e9 suficiente para se definir o angolano. Ser angolano, sem desprimor aos \u00f3rg\u00e3os de justi\u00e7a, vai muito mais al\u00e9m do que a exibi\u00e7\u00e3o de um documento de identifica\u00e7\u00e3o porque este pode nem sequer existir. Trata-se de um postulado que provaremos com factos vivenciados por todos os angolanos que j\u00e1 tiveram a oportunidade de circular um pouco pelo pa\u00eds. Sabe-se que nem todo o angolano est\u00e1 integrado dentro do sistema de identifica\u00e7\u00e3o, ou seja, nem todos t\u00eam uma C\u00e9dula ou Bilhete de Identidade e ainda assim, quando interpelados por um agente da Pol\u00edcia Nacional, d\u00e1-se-lhes um desconto mesmo havendo em Angola um n\u00famero consider\u00e1vel de cidad\u00e3os de outras nacionalidades. Isto ocorre porque existem uma s\u00e9rie de caracter\u00edsticas que permitem identificar o angolano dentro e at\u00e9 mesmo fora do territ\u00f3rio nacional. Um outro facto ocorreu com uma prima na prov\u00edncia de Cabinda que, apesar de ter nascido nessa prov\u00edncia, fez toda a vida estudantil na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, tendo regressado a Cabinda logo a seguir ao fim do conflito armado em Angola. Certo dia, teve de ser retirada de um cami\u00e3o afecto \u00e0 Pol\u00edcia Fronteiri\u00e7a, no qual iam cidad\u00e3os estrangeiros que seriam repatriados para a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo. Tal facto sucedeu porque existe um conjunto de caracter\u00edsticas que permitem identificar o angolano naquela parcela territorial mesmo se reconhecendo a proximidade fronteiri\u00e7a. No entanto, conv\u00e9m mais uma vez real\u00e7ar a import\u00e2ncia do documento de identifica\u00e7\u00e3o nessas situa\u00e7\u00f5es, porquanto n\u00e3o foram as caracter\u00edsticas end\u00f3genas, sen\u00e3o um documento civil que a salvou daquele equ\u00edvoco. Portanto, ela \u00e9 angolana porque nasceu em Angola; no entanto, culturalmente e at\u00e9 mesmo linguisticamente ela apresentava a estrutura de uma cidad\u00e3 congolesa, porquanto n\u00e3o se conseguia comunicar em Portugu\u00eas nem em Ibinda.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-b33cc66 e-flex e-con-boxed e-con e-parent\" data-id=\"b33cc66\" data-element_type=\"container\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-17cd7c6 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"17cd7c6\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: justify;\">Por conseguinte, as rela\u00e7\u00f5es sociais ensinam-nos que a identidade \u00e9 forjada na intera\u00e7\u00e3o do sujeito com a sociedade sem que aquele perca a sua ess\u00eancia. Sobre a necessidade de socializa\u00e7\u00e3o, v\u00e1rios pensadores convergem na ideia segundo a qual o homem \u00e9 um ser social, tratando-se, na verdade, duma condi\u00e7\u00e3o que implica integra\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o. A cr\u00edtica sociol\u00f3gica encerra uma dimens\u00e3o que tende a remeter exclusivamente para o presente. Todos os indiv\u00edduos que participam da sociedade angolana, quer sejam nacionais ou estrangeiros, constituem o n\u00facleo dessa sociedade. Deste ponto de vista, a pergunta \u201cO Que \u00e9 Ser Angolano?\u201d pressup\u00f5e algum envolvimento directo do ser na sociedade. Mediante os factos expostos, se a defini\u00e7\u00e3o do angolano implica reconhecer a di\u00e1spora, o crit\u00e9rio sociol\u00f3gico ser\u00e1 impotente para compreender ontologicamente o sujeito angolano.<\/p><p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista ps\u00edquico, o angolano ser\u00e1 um sujeito que vive o drama do estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico em virtude do longo processo de coloniza\u00e7\u00e3o, de d\u00e9cadas de guerra civil e das diferentes conjunturas socioecon\u00f3micas por que o pa\u00eds passou e passa. Qualquer angolano adulto, face a ontologia que perseguimos, \u00e9 afectado pelo menos por um desses problemas que acab\u00e1mos de elencar. Deste ponto de vista, o crit\u00e9rio do Direito consubstanciado na atribui\u00e7\u00e3o da nacionalidade por via do registo civil acaba sendo obliterado na medida em que existem cidad\u00e3os que s\u00e3o, \u00e0 luz da justi\u00e7a, angolanos e, no entanto, n\u00e3o se v\u00eam afectado por nenhum desses problemas. Conv\u00e9m ressaltar ainda que a m\u00e1xima segundo a qual \u201co angolano \u00e9 um povo pac\u00edfico\u201d remete, na verdade, n\u00e3o para uma caracter\u00edstica inapta, sen\u00e3o para um resultado provocado pelos traumas aos quais nos referimos. Outrossim, em termos comportamentais, reconhece-se que o angolano \u00e9 um povo alegre e acolhedor.<\/p><p style=\"text-align: justify;\">Face a nova configura\u00e7\u00e3o geo-humana provocada por eventos historicamente conhecidos, devemos destacar o multiculturalismo como um conceito que procura suprimir (reduzir) as assimetrias entre as minorias (\u00e9tnicas, raciais \u2026) e as sociedades maiorit\u00e1rias atrav\u00e9s de pol\u00edticas de integra\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, conv\u00e9m ressaltar que o conceito de \u201cminoria\u201d que aqui implicitamente expusemos n\u00e3o encerra uma componente num\u00e9rica, na medida em que as elites geralmente se apresentam em menor n\u00famero e ainda assim se sobrep\u00f5em \u00e0s maiorias.<\/p><p style=\"text-align: justify;\">Em nossos dias, o multiculturalismo reflecte indubitavelmente a configura\u00e7\u00e3o das sociedades contempor\u00e2neas. O reconhecimento deste tra\u00e7o antropofilos\u00f3fico implica a aceita\u00e7\u00e3o imediata do princ\u00edpio diversidade na unidade, v\u00e1rias vezes defendidos romanticamente por pol\u00edticos em campanha. Em contrapartida, a n\u00e3o-aceita\u00e7\u00e3o do multiculturalismo como princ\u00edpio de unidade pode constituir um dos factores de variad\u00edssimas tens\u00f5es sociais e pol\u00edticas. Ademais, sabe-se que a hist\u00f3ria universal est\u00e1 repleta de genoc\u00eddios que se efectivaram por raz\u00f5es \u00e9tnicas, raciais e religiosas. Ainda neste quesito, em rela\u00e7\u00e3o a n\u00e3o-aceita\u00e7\u00e3o da ideia de multiculturalismo como princ\u00edpio de unidade na diversidade, se analisarmos racionalmente os 27 anos de guerra civil em Angola (1975-2002), independentemente do envolvimento de for\u00e7as estrangeiras, notaremos que, embora a ideia de \u201cnacionalismo\u201d viesse explicitada nas suas denomina\u00e7\u00f5es por via do lexema \u201cnacional\u201d, pelas ac\u00e7\u00f5es do passado e pelo que hoje ainda representam, a base \u00e9 essencialmente \u00e9tnica, embora um dos partidos, no caso o Movimento Popular para a Liberta\u00e7\u00e3o de Angola, n\u00e3o evidenciasse explicitamente este facto, defendendo ideais supostamente mais liberais e integradoras, que permitiram que na sua frente revolucion\u00e1ria figurassem, diferentemente dos outros hist\u00f3ricos (Frente Nacional para Liberta\u00e7\u00e3o de Angola e Uni\u00e3o Nacional para Independ\u00eancia Total de Angola), indiv\u00edduos de diferentes etnias e ra\u00e7as e triunfasse, sendo o primeiro e o \u00fanico a dirigir os destinos do pa\u00eds. No entanto, sabe-se que no seio do partido triunfante houveram tamb\u00e9m fric\u00e7\u00f5es com consequ\u00eancias graves derivadas da rejei\u00e7\u00e3o do \u201coutro\u201d.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-92e7176 e-flex e-con-boxed e-con e-parent\" data-id=\"92e7176\" data-element_type=\"container\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-d671442 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"d671442\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p style=\"text-align: justify;\">Esta unidade, que \u00e9, na verdade, um processo, ser\u00e1 mais vis\u00edvel quando se decidir real\u00e7ar atrav\u00e9s de pr\u00e1ticas coerentes a posi\u00e7\u00e3o de Agostinho Neto defendida aquando da proclama\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia em que sugeria \u201cum vigoroso combate contra o analfabetismo em todo o territ\u00f3rio nacional\u201d, bem como a promo\u00e7\u00e3o e a difus\u00e3o de \u201cuma educa\u00e7\u00e3o livre, enraizada na (s) cultura (s) do povo angolano\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify;\">O processo de coloniza\u00e7\u00e3o for\u00e7ou elos, imp\u00f4s conviv\u00eancia entre indiv\u00edduos que historicamente pertenceram a diferentes reinos, tribos; e, portanto, falavam diferentes l\u00ednguas e apresentavam algumas pr\u00e1ticas culturais diferentes, embora se reconhe\u00e7a os tra\u00e7os comuns que pressupunham um \u00fanico ponto de partida.<\/p><p style=\"text-align: justify;\">Por conseguinte, quando nos torn\u00e1mos v\u00edtimas de um mesmo opressor, torn\u00e1mo-nos irm\u00e3os, cri\u00e1mos um <em>corpus<\/em> compacto; apesar das diferen\u00e7as, a ideia de liberdade transformou-nos em consangu\u00edneos. Todavia, conv\u00e9m ter na devida conta, que aquelas formas de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-administrativa pr\u00e9-coloniais existem apenas como um facto hist\u00f3rico e que as marcas deixadas pelo colonialismo s\u00e3o irrevers\u00edveis.<\/p><p style=\"text-align: justify;\">Antropologicamente, a pergunta \u201cO Que \u00e9 Ser Angolano?\u201d implica o reconhecimento de que Angola \u00e9 um pa\u00eds multirracial, multicultural, multilingue e a chamada angolanidade se concretizar\u00e1 na diversidade que n\u00e3o viola a unidade. Pois, desse ponto de vista, h\u00e1 que considerar todos esses aspectos para se afastar qualquer ideia de preconceito e eventualmente superioridade \u00e9tnica. Angolano ser\u00e1, portanto, os Khoi-Khoi, os Sans, os Bantu, os mesti\u00e7os e finalmente os brancos que, tendo nascido nesse espa\u00e7o, assumem-se do ponto de vista cultural como angolanos. Portanto, a defini\u00e7\u00e3o do angolano n\u00e3o se resume exclusivamente a uma pessoa, a um grupo \u00e9tnico, a uma prov\u00edncia, a uma ra\u00e7a, a um partido pol\u00edtico.<\/p><p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista ontol\u00f3gico, e ser\u00e1 este ponto que responde a pergunta que se imp\u00f5e, <strong>o angolano \u00e9, materialmente, o sujeito que, tendo nascido no territ\u00f3rio angolano ou tendo como pelo menos um dos progenitores nascido no territ\u00f3rio angolano, se lhe \u00e9 outorgado documentalmente o estatuto de cidad\u00e3o nacional pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a da Rep\u00fablica de Angola e, no \u00e2mbito da sua interac\u00e7\u00e3o com o outro, comunica-se em portugu\u00eas ou numa das L\u00ednguas Nacionais de Angola; apesar da reconhecida singularidade, veicula comportamentos cujo substrato cultural \u00e9 determinado pela tens\u00e3o entre a inevit\u00e1vel acultura\u00e7\u00e3o resultante do processo de globaliza\u00e7\u00e3o e a combina\u00e7\u00e3o harmoniosa das pr\u00e1ticas culturais dos diferentes povos que, apesar de habitarem o territ\u00f3rio angolano, formam um mosaico cultural diversificado.<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify;\">O actual angolano (e do futuro) \u00e9 o resultado das mudan\u00e7as estruturais e institucionais que se v\u00eam operando em territ\u00f3rio nacional desde o estabelecimento sequencial dos reinos bantu, passando pela administra\u00e7\u00e3o colonial portuguesa, que teve de ser vencida atrav\u00e9s da luta, que culminou com a independ\u00eancia nacional e consequentemente com a instaura\u00e7\u00e3o de diferentes rep\u00fablicas segundo crit\u00e9rios politol\u00f3gicos. O projecto de uma verdadeira na\u00e7\u00e3o, v\u00e1rias vezes colocado em cheque nas actuais narrativas de fic\u00e7\u00e3o cujo <em>corpus<\/em> constitui, em termos te\u00f3rico-liter\u00e1rios o que o professor Joaquim Jo\u00e3o Martinho taxou por \u201cNarrativa de Espera\u201d, aquando da sua exposi\u00e7\u00e3o, no dia 19 de Agosto de 2019, na Feira do Livro e do Disco, com o tema \u201cTend\u00eancias do Romance Contempor\u00e2neo Angolano\u201d, nas \u00faltimas d\u00e9cadas n\u00e3o fracassou. Est\u00e1, na verdade, a seguir o curso poss\u00edvel. \u201cA Narrativa de Espera\u201d de Joaquim Martinho configura-se como uma teoria que infere que o escritor angolano contempor\u00e2neo introduz no pano de fundo da sua narrativa algum desespero e decep\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao fracasso do projecto na\u00e7\u00e3o, elencando um conjunto de obras significativas tais como: \u201cNoites de Vig\u00edlia\u201d, de Boa Ventura Cardoso; \u201cAc\u00e1cia e os P\u00e1ssaros\u201d, de Manuel Rui Monteiro; \u201cPedidos, s\u00f3 no Cemit\u00e9rio\u201d, de Adalberto Luakute; \u201cO Reino das Casuarinas\u201d, de Jos\u00e9 Lu\u00eds Mendon\u00e7a; \u201cSociedade dos Sonhadores Involunt\u00e1rios\u201d, de Jos\u00e9 Eduardo Agualusa; e \u201cSe o Passado N\u00e3o Tivesse Asas\u201d, de Pepetela. Todas essas obras recriam mundos atrav\u00e9s de personagens que questionam o atrasado prolongado pelo projecto comunidade imaginada angolana.<\/p><p style=\"text-align: justify;\">A constru\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o derivada da aglomera\u00e7\u00e3o de reinos e tribos unidos por um tipo de tecnologia baseada em cren\u00e7as de supremacia e, em consequ\u00eancia disso, impingiu h\u00e1bitos para reinar melhor atrav\u00e9s de medidas de acultura\u00e7\u00e3o agressivas consubstanciadas num tipo de adestramento alicer\u00e7ado em princ\u00edpios psicopedag\u00f3gicos deturpados que levavam grande parte dos nativos<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> a renunciarem as suas cren\u00e7as e a rejeitarem as suas pr\u00f3prias l\u00ednguas em favor de uma religi\u00e3o e culturas supostamente superiores implica a destitui\u00e7\u00e3o de variad\u00edssimos conceitos que perigam a conviv\u00eancia sadia que, a nosso ver, est\u00e3o na base de muitos insucessos para o pa\u00eds. Somos um pa\u00eds multi\u00e9tnico, multilingue, multirracial que precisa aproveitar melhor as potencialidades desse universo plural atrav\u00e9s duma educa\u00e7\u00e3o inclusiva sem hegemonia de qualquer etnia ou ra\u00e7a e que valoriza as \u201cculturas nacionais\u201d. Em vista do que foi dito, a educa\u00e7\u00e3o deve ser vista como um elemento de constru\u00e7\u00e3o e determina\u00e7\u00e3o do angolano que persegue a converg\u00eancia na diversidade.<\/p><p style=\"text-align: justify;\">Em face disso, a escola veicula um curr\u00edculo que \u00e9 usado em cadeia nacional e sabe-se que ela influencia no comportamento dos seres. A unidade reside, portanto, na administra\u00e7\u00e3o de uma educa\u00e7\u00e3o que integra e prega todas as formas de toler\u00e2ncia. E isto s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel, sem qualquer utopia, com actos de governa\u00e7\u00e3o que se concretizem na vida dos angolanos como uma mais-valia. Por fim, face a nossa longa hist\u00f3ria de miscigena\u00e7\u00e3o consubstanciada na inevitabilidade afectiva que propiciou as rela\u00e7\u00f5es inter\u00e9tnicas e inter-raciais, julgo que o nosso grande erro tem sido a defini\u00e7\u00e3o de um modelo preciso de identidade nacional tendo como paradigma as caracter\u00edsticas quase que homog\u00e9neas de um grupo espec\u00edfico, quando, na verdade, o mais correto \u00e9 forjar o conceito de identidade angolana partindo da nega\u00e7\u00e3o do puramente Khoi-Khoi, do puramente San, do puramente Bantu e do puramente Europeu em favor de uma consci\u00eancia nacional na qual se deve diluir at\u00e9 ao grau zero o conceito de ra\u00e7a bem como o conceito de grupos \u00e9tnicos.<\/p><p style=\"text-align: left;\">\u00a0<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-4e3cca7 e-flex e-con-boxed e-con e-parent\" data-id=\"4e3cca7\" data-element_type=\"container\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-57a39b5 elementor-widget elementor-widget-heading\" data-id=\"57a39b5\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"heading.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t<h4 class=\"elementor-heading-title elementor-size-default\">Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas\n<\/h4>\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-050fcb4 elementor-widget elementor-widget-spacer\" data-id=\"050fcb4\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"spacer.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-spacer\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-spacer-inner\"><\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-a17336d elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"a17336d\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p><strong>Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica de Angola. <\/strong>Imprensa Nacional- EP, Luanda, 2010.<\/p><p>JAPIASS\u00da, Hilton; MARCONDES, Danilo.<strong> Dicion\u00e1rio B\u00e1sico De Filosofia.<\/strong> Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2001.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0A cren\u00e7a em uma identidade nacional serviu de elemento impulsionador durante a luta de liberta\u00e7\u00e3o, tendo-se configurado \u00a0A cren\u00e7a em uma identidade nacional serviu de<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[163],"tags":[167],"ppma_author":[174],"class_list":["post-10359","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-tambem-e-filosofia","tag-tambem-e-filosofia"],"aioseo_notices":[],"authors":[{"term_id":174,"user_id":2,"is_guest":0,"slug":"simbad","display_name":"H\u00e9lder Simbad","avatar_url":{"url":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/autor_hsimbad-n-1.png","url2x":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/autor_hsimbad-n-1.png"},"author_category":"1","first_name":"H\u00e9lder","last_name":"Simbad","user_url":"","job_title":"","description":""}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10359","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10359"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10359\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13062,"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10359\/revisions\/13062"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10359"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10359"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10359"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/helder2\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=10359"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}