{"id":1519,"date":"2023-11-08T09:18:54","date_gmt":"2023-11-08T09:18:54","guid":{"rendered":"https:\/\/marizan.tm-colors.info\/?p=1519"},"modified":"2024-07-29T20:59:00","modified_gmt":"2024-07-29T20:59:00","slug":"o-sentido-lirico-da-auto-comunicacao-em-para-alem-ha-um-politico-promissor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/akweno.ao\/carmon\/o-sentido-lirico-da-auto-comunicacao-em-para-alem-ha-um-politico-promissor\/","title":{"rendered":"O Sentido l\u00edrico da auto-comunica\u00e7\u00e3o em Para al\u00e9m , H\u00e1 um pol\u00edtico promissor"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column]<div class=\"fl_custom_text__block vc_custom_1721578382905\"  ><p style=\"text-align: justify;\">O presente artigo visa analisar a dimens\u00e3o l\u00edrica do conto <em>P<\/em>a<em>ra al\u00e9m , H\u00e1 um pol\u00edtico promissor <\/em>da autoria de\u00a0 Carmo Neto, segundo, na sua obra <em>Degravata <\/em>(2010), publicada pela Uni\u00e3o dos Escritores Angolanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A comunica\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u00e9 um processo que se d\u00e1 em duas dimens\u00f5es fundamentais: fic\u00e7\u00e3o e realidade. A fronteira entre essas duas categorias \u00e9 formal e, em muitos casos, alguns leitores e at\u00e9 mesmo alguns cr\u00edticos liter\u00e1rios que operam ideologicamente no espa\u00e7o conceptual das teorias de recep\u00e7\u00e3o e efeito est\u00e9tico n\u00e3o as conseguem distinguir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de ser escrito, o texto liter\u00e1rio cria uma teia de rela\u00e7\u00f5es de comunicabilidade que transcendem aquilo que \u00e9 convencional. Entretanto, \u00e9 preciso esclarecer que a literatura dialoga com ela mesma e este di\u00e1logo se estabelece por via de categorias conceptualmente consagradas. Destas, o conjunto de elementos estruturantes que permitem a funcionalidade do universo dieg\u00e9tico, de tal modo que se torna poss\u00edvel falar de rela\u00e7\u00f5es de verosimilhan\u00e7a com a realidade objectiva. Em virtude disso, com as cren\u00e7as te\u00f3ricas oriundas da est\u00e9tica da recep\u00e7\u00e3o, no cap\u00edtulo da comunica\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, \u00e9 preciso clarificar que, pragm\u00e1tica e operatoriamente, embora a fic\u00e7\u00e3o se espelhem na realidade objectiva, antevendo-se a prior um di\u00e1logo, o que \u00e9 ficcional \u00e9 ficcional apenas; o autor dialoga com o leitor, e o narrador com o narrat\u00e1rio. Importa que assim procedamos para evitar equ\u00edvocos de v\u00e1ria ordem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com Silva (1986), por vezes, o destinat\u00e1rio intratextual identifica-se com um desdobramento ou uma projec\u00e7\u00e3o do eu do pr\u00f3prio emissor, originando-se assim uma situa\u00e7\u00e3o de autocomunicatividade intratextual ; outras vezes, o destinat\u00e1rio intratextual possui uma capacidade semi\u00f3sica apenas simb\u00f3lica ou antropomorficamente atribu\u00edda.<\/p>\n<\/div><div class=\"fl_custom_text__block\"  ><p style=\"text-align: justify;\">Ao lermos esta narrativa de Carmo Neto, temos a sensa\u00e7\u00e3o de termos um narrador que, numa primeira inst\u00e2ncia, parece interpelar o leitor e n\u00e3o um interlocutor ficcional como \u00e9 suposto; em seguida, com o avan\u00e7ar da leitura, o entendimento de estarmos perante a um sujeito que projecta a voz para, num jogo de espelhos, falar consigo mesmo:<\/p>\n<blockquote><p>\n<strong>Voc\u00ea<\/strong>, um ex\u00edmio dan\u00e7arino de sungura, semba, samba e tango, sentado na mesa de bar(\u2026), o mais ca\u00e7ula, <strong>voc\u00ea<\/strong> sente um profundo desejo natural de harmonia.\n<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa sensa\u00e7\u00e3o d\u00fabia \u00e9-nos conferida pela pouca pr\u00e1tica de leitura de textos com esta configura\u00e7\u00e3o dieg\u00e9tica, pois, \u00e9\u00a0 comum , em Angola, os prosadores optarem por narradores que anunciam\u00a0 os factos , ora na primeira pessoa (autodieg\u00e9ticos e homodieg\u00e9tico) ora na terceira pessoa (heteredi\u00e9g\u00e9tico). Por ora, Carmo Neto sugere-nos um narrador que, inusitadamente, embora se servindo do &#8220;tratamento formal&#8221; que se d\u00e1 com pronomes e formas verbais de terceira pessoa (voc\u00ea crava, voc\u00ea se recorda), se reporta a uma segunda pessoa. Na Institui\u00e7\u00e3o Literatura angolana, no que toca \u00e0 narrativa, parece constituir lei o facto de os destinat\u00e1rios, na condi\u00e7\u00e3o de narrat\u00e1rio, assumirem uma exist\u00eancia impl\u00edcita, ou seja, geralmente n\u00e3o h\u00e1 um elemento que permite a sua identifica\u00e7\u00e3o (pronomes ou nomes) como na narrativa em an\u00e1lise.<\/p>\n<\/div>[\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;2786&#8243; alignment=&#8221;center&#8221; onclick=&#8221;custom_link&#8221; animation=&#8221;none&#8221; link=&#8221;https:\/\/www.pressreader.com\/angola\/jornal-cultura\/20231108\/281964612431627&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column]<div class=\"fl_custom_text__block vc_custom_1721579147278\"  ><p style=\"text-align: justify;\">Para evitar equ\u00edvocos, \u00e9 preciso compreender como Silva (1986) que, o destinat\u00e1rio de uma mensagem \u00e9 a entidade com capacidade semi\u00f3sica efectiva ou apenas simb\u00f3lico-imagin\u00e1ria \u00e0 qual o autor emp\u00edrico ou autor textual endere\u00e7a essa mensagem, ao passo que o receptor de uma mensagem \u00e9 a entidade com a capacidade semi\u00f3sica efectiva que, em condi\u00e7\u00f5es apropriadas, pode codificar essa mensagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por consequ\u00eancia do exposto acima, torna-se claro que esta voz interpeladora que parece examinar o leitor dirige-se exclusivamente para um interlocutor ficcional e este, por sua vez, como constru\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria, faz parte da estrutura formal do texto, conferindo-o momentos inequ\u00edvocos de lirismo, muito por conta da resson\u00e2ncia da autocomunica\u00e7\u00e3o que traz o narrador-narrat\u00e1rio, ou seja, um sujeito que se dirige para si mesmo, originando-se assim, conforme em Silva (1986), &#8220;uma situa\u00e7\u00e3o de autocomunicatividade intratextual&#8221; (p. 307).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A narrativa traz como protagonista um ser introspectivo, numa mesa de bar, com indiv\u00edduos da alta sociedade, sendo ele classe m\u00e9dia, &#8220;numa hora de s\u00e1bado&#8221; (Neto, 2010, p.27). A\u00ed come\u00e7a a ter vislumbres. Parece-nos ser um individuo desanimado com a situa\u00e7\u00e3o social do pa\u00eds, ao ponto de experimentar momentos de ansiedade que desembocam em pensamento acelerado, por conta da brevidade da exposi\u00e7\u00e3o dos factos. \u00c0 mem\u00f3ria, v\u00eam as lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia provinciana, de situa\u00e7\u00f5es traumatizantes no p\u00f3s-guerra civil, com gente desconhecida, entre os vinte e trinta anos de idade, amontoados em um caminh\u00e3o que despertava reminisc\u00eancias da era colonial ao protagonista:<\/p>\n<blockquote><p>\nQuem o visse \u00e0 dist\u00e2ncia, observaria a ressurrei\u00e7\u00e3o do poema &#8220;Monangamba&#8221;, de Ant\u00f3nio Jacinto. (p.26)\n<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ponto alto da narrativa d\u00e1-se com a introdu\u00e7\u00e3o do nacionalista que combateu o colonialismo e, no presente, aparece na condi\u00e7\u00e3o de governante. Este, por conseguinte, est\u00e1 conectado com as cinco crian\u00e7as que repartiam um feixe de ossos. Carmo Neto, neste sentido, questiona o papel de protector, primeiro, do adulto e, em seguida, do estadista, uma vez que a crian\u00e7a, para desenvolver, precisa de medidas de seguran\u00e7as estabelecidas pela sociedade adulta, sobretudo pelo governo.<\/p>\n<blockquote><p>\nPara al\u00e9m, h\u00e1 um\u00a0 pol\u00edtico promissor dos anos setenta, que suturou a boca de tanto clamar pela igualdade do p\u00e3o. Voc\u00ea o repara, a empanturrar um c\u00e3o luzido. Beija-lhe o focinho. Limpa-lhe o rabinho\u00a0 e corre com as crian\u00e7as (p.26)\n<\/p><\/blockquote>\n<p>A atitude introspectiva \u00e9, na verdade, o processo de digest\u00e3o emocional daquilo que foi assimilado, o que fica e o que precisa ser evacuado, o eu em conflito dial\u00e9ctico-existencial com o mundo exterior. Este paradoxo, que decorre da implica\u00e7\u00e3o moral do conceito de nacionalista e da atitude em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gest\u00e3o da coisa p\u00fablica, constitui o pano de fundo de uma narrativa que condena a degrada\u00e7\u00e3o das vias de comunica\u00e7\u00e3o, a qualidade do ensino universit\u00e1rio, a delapida\u00e7\u00e3o do er\u00e1rio, etc., entre outros fen\u00f3menos considerados deplor\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao assentar declaradamente a voz de enuncia\u00e7\u00e3o sobre um narrat\u00e1rio e, por conseguinte, este ser o reflexo do narrador, um holograma; porque a diegese revela a express\u00e3o interior do protagonista, seus anseios, sua forma de olhar a vida, suas emo\u00e7\u00f5es, seus pensamentos, como se de um sujeito po\u00e9tico se tratasse; pelas op\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas que, em certos casos , elide a forma verbal, tornando a leitura mais r\u00e1pida e expressiva; pela brevidade de certas frases; pelo sentimentalismo presente em toda a enuncia\u00e7\u00e3o e sobretudo por sua capacidade em sugerir, esta curta narrativa assume uma forte componente l\u00edrica e o que aqui escrevemos \u00e9 uma breve s\u00edntese cr\u00edtica para respeitar o crit\u00e9rio de p\u00e1ginas que os jornais normalmente estabelecem.<\/p>\n<\/div><div class=\"fl_custom_text__block vc_custom_1721579212004\"  ><p><strong>Neto, C. (2010). <em>Degravata<\/em> (2\u00aa ed.). Luanda: UEA<\/strong><br \/>\n<strong>Silva A.(1986).<em>Teoria da Literatura<\/em> (8\u00aa ed.): Coimbra: Almedina.<\/strong><\/p>\n<\/div>[\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;2786&#8243; alignment=&#8221;center&#8221; onclick=&#8221;custom_link&#8221; animation=&#8221;none&#8221; link=&#8221;https:\/\/www.pressreader.com\/angola\/jornal-cultura\/20231108\/281964612431627&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2880,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[3],"ppma_author":[28],"class_list":["post-1519","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fortuna-critica","tag-fortuna-critica"],"acf":[],"authors":[{"term_id":28,"user_id":0,"is_guest":1,"slug":"helder-simbad","display_name":"H\u00e9lder Simbad","avatar_url":{"url":"https:\/\/akweno.ao\/carmon\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/autor_hsimbad-n.png","url2x":"https:\/\/akweno.ao\/carmon\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/autor_hsimbad-n.png"},"author_category":"","first_name":"H\u00e9lder","last_name":"Simbad","user_url":"","job_title":"","description":""}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/carmon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1519","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/carmon\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/carmon\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/carmon\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/carmon\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1519"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/akweno.ao\/carmon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1519\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2883,"href":"https:\/\/akweno.ao\/carmon\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1519\/revisions\/2883"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/carmon\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2880"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/akweno.ao\/carmon\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1519"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/carmon\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1519"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/carmon\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1519"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/akweno.ao\/carmon\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=1519"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}